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     Teatro

A VIDA NA PRAÇA ROOSEVELT


Valmir Junior*

Depois de um recesso de quatro meses, volto à WOOZ para escrever novamente. Desculpem-me, leitores. Mas a volta não é em vão, pois recomeço com uma crítica muito especial.

"A Vida na Praça Roosevelt", da Companhia Os Satyros, é uma peça da qual não se espera muito, mas que, após alguns minutos desde seu começo, atinge a alma de forma que é impossível manter-se impassível.

O mérito se dá pela execução limpa da companhia e pelo apelo do texto da alemã Dea Loher. Loher escreveu para o Thalia Theater de Hamburgo a peça homônima, apresentada no ano passado no Porto Alegre em Cena e na abertura da Bienal de Artes de São Paulo. Porém, a encenação alemã usava o prisma de São Paulo para ecoar sobre a própria Alemanha. Pouco tempo depois, incumbida pelos Satyros de escrever algo que refletisse a Praça Roosevelt da São Paulo real, Dea voltou ao Brasil, mergulhou profundamente no microcosmo da praça (que fica ao lado da Igreja da Consolação) e trouxe um texto poderoso.

A força do espetáculo reside, principalmente, no fato de Os Satyros conhecerem este universo com muita propriedade, exatamente por estarem instalados ali. A encenação conta diversas histórias. Duas delas são o fio condutor do espetáculo: uma conta a amizade das amigas Aurora (Alberto Guzik) e Concha (Ângela Barros). Aurora é uma travesti, que representa o que seu nome diz - uma luz nascente do espetáculo, única que realmente representa um fio de consciência no lugar. Concha trabalha num escritório, uma concha mesmo, por assim dizer, onde são depositadas as lamúrias do chefe, filho do ex-patrão, Vito (Fabiano Machado). Este, por sua vez, procura sentido para a vida medíocre e o encontra na figura de Bingo (Nora Toledo), mulher que imposta a voz para anunciar números no bingo onde trabalha. Ela mesma, Bingo, procura adquirir vida em si mesma ao impostar a voz e assim descobre em Vito um "algo a mais". A outra história condutora é sobre a procura desenfreada do policial Mirador (Ivam Cabral) e de sua mulher (Soraya Aguillera) pelo filho que desapareceu na praça. A angústia do casal, principalmente a de Aguillera, emprestada à personagem da senhora Mirador, é comovente.

A invencionice das passagens de uma história para outra amarra bem o espetáculo, como o buquê que é lançado e pego por outra personagem, ou como as bolas numeradas, pronunciadas ao microfone com voz de anunciadora de aeroporto; temos uma impressão de sonho. Isso acontece ao mesmo tempo em que vemos o desenrolar da história aos nossos olhos. O sonho se revela entremeado com a realidade, como a história de Maria, interpretada por duas atrizes maravilhosas, Cléo de Páris e Tatiana Pacor, tanto pela beleza como pela interpretação. As duas chegam a ser aplaudidas no meio da sessão pela interpretação sincronizadamente intensa. O mesmo pode ser dito de Soraya Saide e Laerte Késsimos, pela versatilidade dos dois, alternando papéis cômicos e dramáticos como se fossem doces nas mãos de uma criança: fácil, fácil de roubar. A platéia agradece pelo roubo de suas atenções.

Entretanto, o espetáculo também possui seus "baixos": certas narrações do Mirador de Ivam Cabral se estendem demais, coisa que não acontece na narração do mesmo Cabral quando ele interpreta a travesti Glória, que se apaixonou por um extraterrestre. Há ainda certo deslocamento de Daniel Tavares e Phedra D. Córdoba. Tavares não dá contraponto aos restantes, deveria explorar mais sua pequena participação. D. Córdoba dá um ar decorativo ao espetáculo. Falta dar-lhe mais. Decoração não dá. O que já não acontece com Júlio Carrara, o mendigo Raimundo, que o tempo todo permanece em cena e pouco se envolve; registrando em crônica o que acontece, Mundo (outro apelido emblemático, de conotação maior) tem papel definido, como uma espécie de alter-ego da autora. Isso o engrandece. Pequenezas à parte, a intensidade do espetáculo é ímpar. Faz-nos acreditar que esse recorte de vidas alheias está ali, a alguns passos de nós, tão perto e tão poético, ao mesmo tempo tão avassalador por suas imagens estupefatas, cheias de símbolos. Uma peruca é trocada de uma cabeça para outra, uma travesti com o pé inchado anda com a leveza de uma bailarina, uma delimitação de corpo está exposta no chão - alguém (ou algo) morreu.

A profundidade acelera enquanto as personagens lutam para alcançar o microfone, desesperadas, na ânsia de conseguirem ser ouvidas por um instante e eis que, quando conseguem, nada falam. Fica pelo meio do caminho e a memória paralisa essas imagens, não deixa nos esquecermos do sonho visto, que agora já foi: acabou o espetáculo.

E assim a vida prossegue naquela praça que ainda, infelizmente, muita gente não conhece.


"A Vida na Praça Roosevelt", com a Companhia Os Satyros. Direção: Rodolfo García Vásquez. Elenco: Alberto Guzik, Ângela Barros, Ivam Cabral, Soraya Aguillera, Cléo de Páris, Tatiana Pacor, Fabiano Machado, Nora Toledo, Laerte Késsimos, Soraya Saide, Júlio Carrara, Phedra D. Córdoba e Daniel Tavares. Onde: Espaço dos Satyros Um. Endereço: Praça Franklin Roosevelt, 214, Consolação, região central. Tel.: 3258-6345. Quando: Sábados, às 21h. Domingos, às 20h30. Ingresso: R$ 20,00 (R$ 5,00 para moradores da Praça Roosevelt). Tempo de peça: 120 min. Em cartaz por tempo indeterminado.



*Valmir Junior
"Paulista, 23 anos, virginiano e doido por chocolate. Esse é Valmir Junior, um ator amador (ou amador ator?), fã de teatro (claro), filmes, exposições e outros assuntos relacionados à Arte (além de ser um bom garfo também). É a primeira vez que resenha para um site e dá medo nele, mas o desafio já foi aceito, então: "Merda!!!" (Não levem a mal! É "Boa Sorte" no Teatro)."