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     TEATRO
No país da desigualdade, duas faces da cultura nos projetos paulistanos de "formação de público"

Por Marli Moreira e Liésio Pereira


Um programa ensina normas de comportamento à platéia, como o momento correto para aplaudir uma ópera; o outro traz moradores da periferia para assistir a peças de teatro e conversar com os artistas. Entre as duas idéias, a realidade brasileira.

São Paulo - A platéia está atenta a cada movimento da música, concentrada no comportamento do maestro e da orquestra. De repente, uma campainha de celular começa a entoar um som estridente e eletrônico. O trecho de "As Quatro Estações", de Antonio Vivaldi, parece não ter nenhuma afinação. O som é logo abafado pelo dono do aparelho, mas, de outro ponto do teatro, um espectador resfriado começa a tossir compulsivamente. Detalhe: ele está no centro da platéia.

Situações constrangedoras como essas são cada vez menos freqüentes nas platéias brasileiras, segundo a professora de música Liana Justus. "As pessoas estão se conscientizando. Há uma ou outra gafe, mas, de maneira geral, a platéia brasileira está se comportando bem", disse. "Nas últimas vezes em que fui à Sala São Paulo, a platéia estava excelente", exemplificou.

Além do celular ligado - "a pior das gafes" - ela mencionou as outras atitudes comportamentais incorretas mais comuns do público: conversar alto durante o espetáculo, abrir ou chupar balas e aplaudir no momento errado. "A música popular se apresenta em uma única parte, e a música clássica se divide em três, quatro, cinco partes. O certo é aplaudir quando termina", ensina.

Liana, que é pianista e mestre em História, e a amiga Clarice Mello (solista e compositora) ministram, há dez anos, o curso "Formação de Platéia em Música". Elas preparam o público para assistir a concertos, óperas e balés. O curso faz parte da programação do projeto "Novos Olhares sobre a Música", realizado em agosto no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo.

"A música clássica amedronta as pessoas. Elas se sentem acanhadas em ir ao teatro e cometer uma gafe. Com o curso, as pessoas se descontraem e adquirem segurança pessoal", disse Liana. O curso vai até o final do ano, sempre em um sábado por mês. Além das noções de comportamento em salas de concerto e espetáculo, o público recebe valiosas lições de história da música, como os diferentes períodos e estilos musicais, grandes compositores, intérpretes e óperas, musicais famosos do cinema. Os alunos se encantam com a história da música russa, a trágica saga de amor descrita na ópera "Madame Butterfly" (Puccini) e o virtuosismo de Liszt e Paganini.

A idéia do curso surgiu quando Liana e Clarice perceberam a quantidade de pequenas dúvidas de amigos e parentes sobre o tema. Elas decidiram ampliar os seus conselhos a um número maior de pessoas. Para Clarice Mello, o segredo do sucesso do curso está na sua estrutura, criada para atingir o maior número possível de pessoas. "A gente mescla um pouco de coisas fáceis que a platéia precisa saber com dados mais aprofundados para quem tem uma iniciação melhor", explicou.

O curso já foi ministrado em vários lugares do Brasil, sempre com muita procura. "Em São Paulo, há uma grande lista de espera por vaga. Em Brasília há 300 pessoas na lista", disse Clarice. A turma paulistana integra pessoas tão distintas como um menino de oito anos - "que não falta a nenhuma aula" - e um senhor com mais de 60. "O que a gente sente é que a música fascina todo o mundo e não tem barreiras. A gente tem um público bem eclético em termos sociais, culturais e etários", disse Liana. "O conhecimento para uns é um início, e para outros é uma complementação", acrescentou Clarice.

A simplicidade e a paixão evidente pela música são as marcas registradas de Clarice e Liana. Além da música clássica, elas admiram bastante a música popular, principalmente a brasileira. "A nossa música popular nasce da erudita, por isso ela é considerada a melhor do mundo", explicou Liana.

Segundo ela, a música popular brasileira também exige comportamento adequado. Como a acústica das salas brasileiras de espetáculo está cada vez melhor, é preciso silêncio e concentração. Como exemplo, Liana cita os shows de João Gilberto. "Ele exige (silêncio) e com toda a razão, porque a música do João Gilberto, a Bossa Nova, é uma música intimista, com letras belíssimas dos grandes poetas brasileiros, e exige concentração", disse. Já o comportamento em óperas e balés é diferente, o público pode ser mais efusivo. "Espera-se que, depois das árias, o público aplauda, senão o cantor vai ficar até desapontado", ensina Liana. Ela acrescenta que "nos balés clássicos se aplaude depois de uma apresentação virtuosística do bailarino ou da bailarina, mas, no balé contemporâneo não se aplaude, espera-se o final".

Para o maestro regente da Orquestra de Câmara da Unesp (Universidade Estadual Paulista), Carlos Kaminski, o mais importante é fazer com que as pessoas se sintam extremamente cômodas nos concertos. "Se aplaudem no intervalo entre o primeiro movimento do concerto e o segundo, ou entre o segundo e o terceiro movimentos, a gente não leva a mal", disse, acrescentando que "tentamos sempre informar que o concerto é formado em três partes. Assim, o pessoal se toca e vai se acostumando com o hábito que o artista gosta mais (de ser aplaudido no final)". O normal, em concertos de orquestras de câmara, é aplaudir só no final da peça, mas o maestro Kaminski explica que "às vezes é significativo que a pessoa queira aplaudir um movimento de que gostou muito, como acontece na ópera". Segundo ele, "o primordial hoje é a formação de platéia vindo ouvir música instrumental erudita ou mesmo instrumental popular".

Extremamente ligadas à música - "a Clarice e eu somos meio fanáticas" - as professoras são críticas em relação ao ensino de Cultura no Brasil, um dos motivos que as levaram a idealizar o curso. "Nosso objetivo é enfocar o público, porque a gente observou que as escolas, de uns anos para cá, negligenciaram essa parte da formação cultural", disse Liana.

Já em relação ao talento musical dos brasileiros, elas são só elogios. "O Brasil é uma terra fértil em talentos, o que falta é um apoio maior aos músicos. Nós passamos para os alunos a valorização dos músicos. Mostramos o trabalho, o empenho que eles têm para tocar em qualquer orquestra", ressaltou Clarice.

Segundo ela, os músicos brasileiros precisam ter diversos empregos para se manterem e não podem se dedicar exclusivamente a uma orquestra, como ocorre em vários países do mundo. "O que falta é apoio e dinheiro para que o músico possa ter uma dedicação exclusiva, mas não nos falta o essencial, que é o talento. Muitos músicos brasileiros foram para o exterior e estão bem lá fora", disse Clarice.

Como exemplo do talento musical do povo brasileiro, Clarice lembra um encontro que teve com um professor húngaro de música. Ele estava dando aulas para alunos carentes em Belém, no Pará. Ele teria ficado impressionado com os alunos brasileiros e afirmara que nunca teve alunos tão talentosos. "Ele disse: eu formo uma turma como essa em dois ou três meses, tal o talento que eles têm no sangue", relatou.


Periferia vai ao centro

Moradores das periferias da cidade de São Paulo e, na maioria das vezes, sem acesso aos grandes espetáculos teatrais estão tendo, desde 2001, a chance de não só assistir a encenações de alta qualidade de graça como também a oportunidade de receber informações culturais que provocam "um novo olhar sobre a arte", conforme define Fátima Luz, coordenadora do projeto "Formação de Público". O programa é desenvolvido em parceria entre as Secretarias municipais de Cultura e de Educação de São Paulo. Na idéia central desse trabalho está o uso do teatro como linguagem e o seu papel de resgate da cidadania.

Até agora, cerca de 270 mil pessoas já assistiram às várias peças exibidas. Entre elas, "Hysteria", do grupo que, a partir de outubro, o público mirim da rede de ensino municipal, formado por alunos de 4 a 11 anos, vai ser treinado a discutir o que viu com rodadas de debates logo após cada apresentação. Para treinar a equipe de monitores foi contratada a especialista em teatro para crianças Maria Lúcia Pupo, professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP).

De terça a sexta-feira, as encenações têm sido restritas a professores e alunos. Nos finais de semana, são abertas ao público em geral. Com esse trabalho, segundo Fátima Luz, tem sido possível levar espetáculo de alta qualidade às pessoas que, normalmente, não vão ao teatro, seja pela distância ou pelas dificuldades financeiras em custear os bilhetes e o transporte para chegar até os locais onde as grandes montagens são exibidas.

Por meio de equipes de monitores, a platéia de estudantes e educadores recebe informações que ajudam a melhor interpretar o texto. Com diálogos envolvendo também o elenco, ao fim de cada apresentação, todos passam a expressar de que forma receberam as palavras, gestos, emoções, enfim, os personagens da peça.

Entre as apresentações estão "Auto da Paixão e da Alegria", de autoria de Luis Alberto de Abreu, da Companhia Fraternal; "Hysteria", da Companhia XIX de Teatro, "Biroska-bral", do grupo Vati Catarse; "As Roupas do Rei", de Cláudia Vasconcelos. Para conferir a lista completa e atualizada das peças em cartaz, acesse
www.prefeitura.sp.gov.br/cultura


Fonte: www.radiobras.gov.br