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     TEATRO

LOUISE BURGEOIS: FAÇO, DESFAÇO, REFAÇO


Valmir Junior*

Dessa atriz, é muito difícil não gostar. Em geral, seu Teatro Essencial - a linguagem teatral inventada e sacralizada por Denise - cai no gosto popular, exatamente por ser um teatro despido da necessidade de aprumos, centrado no fazer teatral em si, jogando limpo com o espectador, deixando claro que ele está diante de uma peça. Denise é uma "monologueira". Seus espetáculos são dirigidos à platéia, como numa conversa, em que a atriz desfia o que pensa e intercala em seu solo de Denise o solo da personagem que incorpora. O espectador não sofre catarse, pelo contrário, ele se distancia da emoção e encontra o caminho para a reflexão e através desta reflexão, surge a emoção. Um método que apenas Denise sabe como...

Isso posto, ao vermos a atriz no palco como a artista-plástica Louise Burgeois, novamente lembramos de seus outros espetáculos e rapidamente pensamos: "é a mesma coisa". Engano. Este é seu teatro, o teatro essencial. A atriz interpreta sua personagem, mas jamais deixa de ser ela mesma. E tem mais, o engano é maior: Louise Burgeois está no palco, viva, numa mistura de Denise com Louise. Basta sair do espetáculo e ver o vídeo ali instalado, com entrevistas de Louise Burgeois. O espectador se engana. Denise se faz Louise, nos seus ínfimos detalhes, em suas repetições, na sua ternura revestida de arrogância, na junção de todos os complexos que perfazem a vida da artista.

Tais complexos são grandes: Louise define seu pai como alguém que lhe dava "amor rigoroso". Ao contar a história de um dono de um cachorro que batia em seu animal e cada vez menos lhe dava comida, ela repercute: "Junte os pontos-de-vista do dono do cachorro e do cachorro, e você terá noção do que é um amor rigoroso". Além disso, pelo fato de seu pai manter a amante na mesma casa em que morava, junto com sua mãe, Louise-Denise afere sobre o "abandono de si mesma", gerido pela mãe, ao anular-se, ao não reivindicar o posto de matriarca da família, permitindo que a amante vivesse sob o mesmo teto de todos.

Através de Denise, vemos que Louise é figura forte, daquelas que tem uma série de manias, até mesmo para receber pessoas em sua casa, assim como fez com Denise, quando esta queria convencer a artista de que poderia fazer uma peça sobre ela mesma. Denise apresentou seus trabalhos a Louise e esta ficou estupefata, calada, como faz frente a quem acha formidável. Assim como Denise.

No palco, três esculturas de Louise estão presentes: são exclusivas do espetáculo. Uma escada que enverga e termina abruptamente, apontando para o chão. Um espelho gigante e ovalado, com uma cadeira à frente. Um estúdio de arte, com duas portas, onde outras esculturas pairam, ao redor de uma cadeira ao centro.

O estúdio parece ser a consciência, em que Louise faz a faxina e desfia o novelo sobre o processo criativo (e por que não psicológico?), com a frase que dá nome ao espetáculo: "Faço, Desfaço e Refaço". E eis que ela mesma desarma-se diante de nós e demonstra que esta faxina psicológica (e que se transfere para o processo do artista) é sempre necessária. Denise clama ao espectador: "uma das características que eu admiro na Louise numa era pré-Prozac é que com ela era ali, na raça". O espelho parece ser a alma, desnudada, carne e osso, completamente exposta, enquanto que a escada que despenca para o vazio parece ser as vertiginosas emoções a que Louise se deixa acometer. Se deixa, porque esta mulher está no controle de todas elas, isto é, se a enxergarmos de fora, porque o espetáculo de Denise Stóklos abre e entrega de bandeja a consciência e inconsciência de Louise Burgeois, seus tormentos, medos, desesperos, alegrias, delírios, devaneios...

A certa altura, Louise revela: escreve em seu diário por meio de metáforas, pois somente elas são capazes de dar conta da avalanche de coisas que a realidade nos impõe e que, ao serem transferidas para o papel, podem se perder se não encontrarmos a metáfora correta. Denise encontra a metáfora certa para sua Louise, chegando a tal ponto de exposição da nonagenária artista que, em um dos ensaios que Denise fazia no ateliê de Louise mostrando cada passo e cada estágio da peça, o filho de Louise abandonou o recinto, dizendo que não podia suportar tamanha regressão de sua mãe àquele estado tão puro, tão ela, tão Louise Burgeois.

Um gênio essa Louise. Aliás, pra quem quiser vê-la, vá até o MAM. Existe lá uma obra dela exposta. Se chama Spider, ou seja, aranha. Um gênio essa Denise. Pra quem quiser vê-la, vá ao SESC Belezinho, antes que acabe. Esse é mais um de seus grandes espetáculos. Os nomes de seus espetáculos bons? Nossa, vou ter que fazer uma lista. Melhor que você confira por si mesmo ao invés de ficar aí parado. Vá. Agora!


"Louise Burgeois: Faço, Desfaço, Refaço" - Dir.: Denise Stóklos. Elenco: Denise Stóklos. Roteiro: Textos de Louise Burgeois, roteirização de Louise Burgeois e Denise Stóklos. Onde: SESC Belenzinho. Endereço: Av. Álvaro Ramos, nº 915, Belenzinho, São Paulo-SP. Temporada: de 6 de maio a 3 de julho de 2005.



*Valmir Junior
"Paulista, 23 anos, virginiano e doido por chocolate. Esse é Valmir Junior, um ator amador (ou amador ator?), fã de teatro (claro), filmes, exposições e outros assuntos relacionados à Arte (além de ser um bom garfo também). É a primeira vez que resenha para um site e dá medo nele, mas o desafio já foi aceito, então: "Merda!!!" (Não levem a mal! É "Boa Sorte" no Teatro)."