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     TEATRO

O ANJO DO PAVILHÃO CINCO


Valmir Junior*

Quando você sai de um espetáculo com dor no rosto, de ter levado um belo tapa, de terem esfregado em você aquele pano sujo com grande ardor, de fazer você se sentar de um jeito e levantar-se de outro, eu sempre digo: esse é o espetáculo.

O da vez se chama O Anjo do Pavilhão Cinco. O projeto Bárbara Ao Quadrado traz duas versões do conto Bárbara, de Dráuzio Varella, escritas por dramaturgos diferentes. A primeira, escrita por Aimar Labaki, resultou na encenação deste O Anjo.

A peça versa sobre o travesti Bárbara (Ivam Cabral), apaixonado pelo encarcerador-geral do Pavilhão Cinco do Carandiru, Xalé (Darson Ribeiro), que a protege. Entretanto, com a entrada de Galega (Maria Gândara), outra travesti, porém operada, o cenário muda e Bárbara se vê às voltas com a perda de seu amor e a falta de proteção. É quando ela encontra em outro preso a forma de revidar e de provocar ciúmes: Faustino (André Fusko).

Desde o seu início, o espetáculo cria no espectador uma sensação claustrofóbica - o clima tenso de um presídio trazido para as paredes do Espaço dos Satyros II - estendida pela trilha sonora pesada de Ricardo Cunha e a iluminação de contrastes fortes de Lenise Pinheiro. Entretanto, é a direção de mão forte de Emílio Di Biasi frente a seu elenco que se sobressai. Di Biasi não faz concessões a pieguices: entrega ao público um jogo de cão e gato tão intenso, por vezes enterrando as unhas em quem assiste, sobressaltando o espectador de forma que permaneça acordado diante de tanto sofrimento.

O texto só concede folga quando permeia o caminho da poesia - Aimar Labaki constrói a tensão em meio aos dilemas do desejo irrefreável do homem, da dicotomia travesti/mulher, do joguete de poderio incessante e das leis que não vigoram aqui fora, mas que são certas e impiedosas lá dentro.

Até aqui, pelos aspectos técnicos, sabe-se que o espetáculo é de uma proeza incrível. Mas ainda resta coroar com a interpretação dos atores, sobretudo a de Ivam Cabral, que retrata o travesti Bárbara com a dignidade de heróis nordestinos, qual uma Vitória de Vidas Secas transformada em travesti. O percurso de Cabral, desde seu gestual até as nuances de transformação de mulher em homem e homem em mulher, dignifica a personagem, mesmo que encontremos nela o viés de escarro, de nojo. Sua partitura varia dos "S"s puxados, artefato lingüístico empregado por travestis para glamourizar seus falares, e o sotaque levemente "nordestinado", com certa inflexão masculina, quando está fora de si, além da dublagem, típica de drag queens - esses detalhes que transformam a personagem em algo palatável, tão tangível quanto uma pessoa que encontramos por aí. Do restante do elenco, sobressaem-se Maria Gândara, no contraponto de Bárbara, o travesti-mulher, e André Fusko com seu Faustino, retrato do presidiário comum, aquele que clama não ter tido muita culpa pelo o que fez, de justificativas na ponta da língua.

A arquitetura do espetáculo coloca o público numa sinuca de bico, impondo-o a enfrentar aquela realidade nada digerível, mas muito crível: sabemos que é assim, que assim acontece, mas viramos o rosto. O Anjo do Pavilhão Cinco não nos deixa virar, prende o nosso pescoço, dá-nos um torcicolo e puxa-nos as pálpebras, naquela uma hora e dez de arrebatamento.

A indiferença pode até se instalar alguns minutos depois de findo o espetáculo, pois o público quer mais é esquecer o que viu, de tão lascada que ficou sua percepção do mundo após assistí-lo. Mas por debaixo de nossos mecanismos psicológicos de negação, o consciente arquiteta a transformação de nosso olhar através daqueles anjos infernais, para atingirmos uma melhor consciência. Objetivo cumprido.


O Anjo do Pavilhão Cinco. Direção: Emílio Di Biasi. Elenco: Ivam Cabral, Darson Ribeiro, André Fusko, Maria Gândara e Fábio Penna. Iluminação: Lenise Pinheiro. Trilha Sonora: Ricardo Cunha. Duração: 80 minutos. Onde: Espaço dos Satyros II, Praça Roosevelt, 124, Consolação, São Paulo-SP. Quando: Segunda à quarta, 22h30.



*Valmir Junior
"Paulista, 23 anos, virginiano e doido por chocolate. Esse é Valmir Junior, um ator amador (ou amador ator?), fã de teatro (claro), filmes, exposições e outros assuntos relacionados à Arte (além de ser um bom garfo também). É a primeira vez que resenha para um site e dá medo nele, mas o desafio já foi aceito, então: "Merda!!!" (Não levem a mal! É "Boa Sorte" no Teatro)."