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     TERCEIRO SETOR
Campanha Vaga Lume quer aproximar crianças de São Paulo e da Amazônia

Íris Trindade dos Santos, 11 anos, mora no Assentamento João Batista, comunidade do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Castanhal, no Pará, mas tem agora a oportunidade de conhecer outros "mundos" que vão além dos limites de sua cidade. Nada de computador ou Internet. Íris só precisou abrir um livro e descobrir que ali dentro, num belo cartão postal, começava uma nova amizade, com uma criança igual a ela, mas talvez a quilômetros de distância da sua casa.

O local escolhido para este novo encontro não tem luxo, mas muita riqueza nos livros espalhados por toda a parte. O espaço é a Biblioteca José Marti, instalada numa escola do assentamento, onde a infra-estrutura é ainda bastante rudimentar. A comunidade foi a primeira a receber os materiais da "Campanha Vaga Lume de Arrecadação de Livros Novos", promovida pela Expedição Vaga Lume. "Já respondi o cartão para a minha amiga dizendo que havia gostado muito do livro [Três porquinhos] e adorei ter recebido o cartão. Espero conhecê-la um dia", diz Íris.

A iniciativa faz parte das ações planejadas para a segunda etapa da Expedição Vaga Lume. Em 2002, durante dez meses, as amigas Laís Fleury, Sylvia Guimarães e Maria Teresa Junqueira percorreram 35 mil km em 287 dias de viagem para implantar 32 bibliotecas em comunidades rurais de 21 municípios da Amazônia Legal brasileira. Foram mais de 21 cursos para capacitar 550 mediadores de leitura, atuando em 150 escolas locais. Na ocasião, mais de 12 mil livros foram distribuídos, levando o mundo da literatura para cerca de 15 mil crianças. De volta para casa, o trabalho das jovens não parou. Durante todo este ano, novas atividades foram planejadas para dar continuidade ao projeto, que põe o trio de jovens de volta à estrada a partir de março de 2004.

A campanha, que tem como lema "Doe um Livro e Faça um Amigo na Amazônia" foi lançada no mês de agosto e pretende, até o final de 2004, arrecadar 10 mil novos livros. Este material servirá para ampliar o acervo das bibliotecas e possibilitar a participação de outras pessoas no projeto. Muito mais do que apenas arrecadar novos livros, a campanha quer promover a integração entre os doadores de São Paulo e a população rural da Amazônia. "Queríamos desenvolver alguma estratégia para manter a qualidade do nosso acervo e ainda colocar as pessoas em contato. Isso porque achamos que Amazônia é muito desintegrada e esquecida. As pessoas das regiões Sul e Sudeste não fazem a menor idéia de como eles vivem lá", conta Laís.

A Expedição, em parceria com a Casa de Livros, além de livrarias e centros culturais, convidou dez escolas particulares da capital paulista, que organizam feiras de livros, para fazerem parte da campanha. Antes da realização das feiras, a Expedição faz uma sensibilização junto aos professores e depois com os estudantes, apresentando um vídeo sobre o projeto. No dia do evento, a criança compra o livro com o qual se identificou e entrega no estande da organização. O diferencial da campanha vem logo em seguida. Os voluntários do projeto entregam para o "pequeno doador" uma etiqueta e um cartão postal. A etiqueta será colada na capa do livro com uma dedicatória para aquele novo amigo que irá receber a publicação. Além disso, dentro do livro, a criança coloca também o cartão postal com os seus dados pessoais.

Lá nas comunidades rurais da Amazônia, os leitores mirins irão responder os cartões e mandarão de volta para São Paulo. "Além de mostrar a transparência do nosso trabalho, já que o doador tem certeza de que o investimento chegou ao destino, acreditamos que isso favoreça uma integração no Brasil. A criança cresce sabendo que existem pessoas que moram na Amazônia, que não é só mato. Tem uma noção do Brasil muito maior", completa.

Laís lembra ainda que a decisão de só arrecadar livros novos é a maneira que encontraram para manter a qualidade dos acervos. "Se queremos que as crianças tenham interesse pela leitura, a premissa básica é oferecer um material novo. Se você recebe um livro usado o respeito que tem com ele não é o mesmo. Dá idéia de que as pessoas depois de usarem bastante não queriam mais e então doaram. Isso sem falar de que, como esses livros estão chegando em locais muito remotos, a vida útil deles é muito preciosa. Se você manda livros usados eles já vão fragilizados".

Até o mês de outubro, a Expedição já havia arrecadado 2 mil livros. Essa primeira remessa foi entregue para duas comunidades de Mato Grosso, uma em Rondônia, uma no Acre e uma no Pará. Neste Estado, o assentamento foi escolhido para receber o material doado que foi arrecadado na Feira Pan Amazônica de Belém, a maior da região, no mês de setembro.

Ana Maria Cabral da Gama, mediadora de leitura da comunidade, conta que os moradores utilizam e valorizam muito a biblioteca. O livro de registro já marca mais de 1.700 retiradas de material neste ano. "São raras as escolas aqui que têm algum tipo de literatura infanto-juvenil. É ela é muito importante para ampliar os conhecimentos das crianças e também promover o seu desenvolvimento. Isso sem falar que melhora muito a educação. É uma luz. As pessoas da comunidade ficaram muito contentes em receber o projeto".

Na comunidade de Ouro Preto do Oeste, em Rondônia, a história não foi diferente. A mediadora Marlei Bercho Lucena, conta que o projeto veio na hora certa para o local, pois a prefeitura não tem condições de comprar novos livros. Além disso, os resultados na formação das crianças já são evidentes. "A escrita melhorou muito devido à intensa leitura. Me surpreendi também com a atitude das crianças frente aos novos livros. Eles falaram que escolheram aqueles com o maior número de páginas para o livro durar mais". A professora acredita ter sido uma ótima idéia a troca de cartões. "Algumas crianças nunca foram a uma zona urbana. Não sabem o que é o mundo lá fora. Assim, elas se sentem valorizadas. Toda hora eles me perguntam se o 'colega do livro' mandou um recado".

De acordo com Laís, a recepção da campanha pelas escolas também tem sido muito positiva. "Elas não só aceitam participar, como querem fazer parceria de longo prazo, desenvolvendo trabalhos com temas sobre índios, quilombos. E isso só acontece devido ao compromisso maior que assumimos, em defesa e proteção da Amazônia. O incentivo à leitura é a estratégia que a gente elaborou para garantir, a longo prazo, a proteção do local".


Planos

Avaliar o trabalho para pensar em novos rumos. Esse é o primeiro passo que a Expedição Vaga Lume quer dar antes de planejar outras ações na região. Para isso, a organização conta com o apoio do Instituto Fonte. Até o final deste ano, as "militantes da literatura" se reúnem com a equipe do Instituto para levantar quais indicadores serão importantes para serem avaliados durante a próxima viagem. "Essa parte da avaliação é a melhor coisa que tem, a gente volta na essência do projeto. Enquanto não avaliar não dá para implantar mais. O trabalho social é de muita responsabilidade e temos muito cuidado com isso. Tem que ter certeza de que o nosso trabalho foi competente, bem feito, se quisermos multiplicar", comenta Laís.

Durante a segunda etapa da Expedição, além de realimentar os acervos, serão realizadas reuniões de supervisão com os mediadores de leitura para acompanhar o desenvolvimento das ações. Segundo Laís, apesar de a organização manter contato constante com essas localidades por meio de cartas, é necessário estreitar essa relação com os educadores e também com as secretarias de educação. "A capacitação destes agentes se tornou ponto chave de sucesso do projeto. Se você entrega esse patrimônio para a comunidade, mas não dá ferramentas para ela trabalhar, não tem sentido nenhum. Se você não tiver uma técnica que aproxime o livro dos leitores o trabalho não tem impacto".

Na opinião de Laís, este é um desafio a ser enfrentado pela Expedição no momento. Devido à intensa rotatividade de professores e profissionais das secretarias nas áreas rurais, é possível que, ao retornarem às comunidades, as jovens não encontrem mais os mediadores que participaram dos cursos de formação. "E sem essas pessoas o projeto morre. Por isso, vamos focar muito na multiplicação da técnica para que os educadores passem as informações para quem irá o substituí-lo caso saia".

Durante as visitas às comunidades, a Expedição irá apresentar o vídeo "Keró", gravado na primeira viagem. O curta-metragem de 12 minutos apresenta a chegada das bibliotecas nos locais e o dia-a-dia dessas pessoas que tomam contato com a literatura.?

A equipe vai levar também diversos filmes sobre a diversidade cultural brasileira. Para esta nova etapa, que terá um custo de R$ 400 mil, a equipe ainda está em busca de patrocínio, que só será aceito caso a empresa seja nacional. Mas Laís já sabe o que quer encontrar quando chegar nas comunidades rurais. "O mais importante será verificar se a biblioteca está viva. Se ela estiver intacta, nova, será sinal de que não está sendo utilizada".



Daniele Próspero
29/10/2003

Fonte: www.setor3.com.br