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     TERCEIRO SETOR
Jovens de bairro pobre da zona sul de São Paulo realizam pesquisa para conhecer melhor o perfil de sua comunidade

Laura Giannecchini

Sidney Cosme Cândido Faria nasceu na favela do Real Parque, um bolsão de pobreza cercado de casas e prédios luxuosos, distrito do Morumbi, zona oeste da cidade de São Paulo. Estudante do Ensino Médio, aos 18 anos, ele acreditava conhecer bem sua comunidade. Mas depois de realizar – junto com outros 9 jovens – o levantamento "A Real do Parque – Uma Pesquisa Participante", descobriu que pouco sabia sobre o lugar.

Apesar de pertencer a uma família pobre, Sidney notou que desconhecia a realidade dos demais moradores da favela. "Você pensa que sabe onde mora, mas tem muita coisa que fica escondida. Descobri que aqui tem muita gente morando de forma bem precária. Muitas famílias vivem em barracos de apenas um cômodo, onde dormem de cinco a 10 pessoas". Surpreso com a quantidade de casas amontoadas e com os becos estreitos espalhados pela comunidade, ele conta que das 11 organizações sociais existentes no bairro, ele só conhecia duas.

Visão semelhante do bairro tinha Marciana Balduino de Souza, 19 anos. Estudante de Pedagogia que sempre viveu na comunidade, ela não sabia que no seu bairro existiam inúmeras vielas, nem que a maioria dos chefes de domicílio da região era de origem pernambucana (25,2%), baiana (17,8%) e paulista (15,5%). "Não sabia que existia tanta pobreza na comunidade", confessa.

Filha única de um casal que mora em um apartamento do Cingapura. Ela diz que antes vivia reclamando de sua condição. Mas agora se sente privilegiada. "Quem tem uma casa de três cômodos, vive bem na favela. A maioria mora em um barraco com um único cômodo que é dividido com até 10 pessoas. Você só encontra casas com cinco cômodos no Conjunto Habitacional. Muitos dos barracos estão localizados em barrancos. O esgoto é a céu aberto. O encanamento e as instalações elétricas são clandestinas, improvisadas pelos moradores".

A jovem conta que, a partir da realização da pesquisa, passou a ver a comunidade com outros olhos. E explica isso, citando o caso de um barranco no qual uma placa enorme adverte: "Área de Risco. Em breve o problema será solucionado". Mas ela sabe que a placa está lá há mais de dois anos e que nada foi feito. "Antes, eu lia isso e não enxergava. Parecia muito longe de mim. Agora, toda vez que vejo, fico revoltada. Vi o sofrimento das pessoas da comunidade e me coloco no lugar delas. Eu só não sei ainda o que vou fazer".


Resultados esperados

A proposta da pesquisa "A Real do Parque", realizada pelo Projeto Casulo, ONG que trabalha pelo desenvolvimento local, a partir do incentivo ao protagonismo juvenil, era justamente essa: fazer um retrato da comunidade para depois criar estratégias eficazes de atuação.

Após um mês de capacitação, no qual os jovens (de 16 a 20 anos) aprenderam alguns conceitos de política, cidadania, informações sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), além de tabular e interpretar dados, cruzar informações, fazer gráficos e tirar conclusões.

Então, saíram a campo. Durante quatro meses, bateram de porta-em-porta, pediram licença aos chefes dos domicílios e passaram a questioná-los sobre sua origem, sua ocupação, o grau de escolarização da família, número de habitantes do domicílio, tipo de lazer preferido, envolvimento com iniciativas comunitárias, entre outras. Informações cartográficas também foram levantadas pelos jovens.

De acordo com o sociólogo, Alexandre Isaac, que coordenou o estudo, a pesquisa tem caráter científico e prezou pelo rigor metodológico. Houve um cuidado bastante grande com a coleta dos dados. Se faltava alguma informação, o questionário era aplicado novamente. No entanto, o foco principal do trabalho era a formação do jovem.

Na opinião do sociólogo, vivemos na sociedade da informação e qualquer pessoa precisa saber interpretar dados e pesquisas. "A gente passa pela vida e não sabe explicar o porquê. Acende a luz e não sabe explicar como funciona; manda um e-mail e não sabe como isso acontece. Vê uma criança em situação de rua e um idoso catando papelão, mas não sabe explicar. A gente vive alienado; não consegue dar sentido ao que acontece. O objetivo da pesquisa era desenvolver um olhar crítico e investigativo nos jovens, fazer eles se perguntarem por que isso acontece", explica.

Wagner Luciano da Silva, coordenador de desenvolvimento comunitário do Projeto Casulo, acrescenta que objetivo da pesquisa também não era contestar os dados do censo elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As informações encontradas pelos jovens são um pouco diferentes das do Instituto. Ele explica que isso acontece porque a pesquisa faz uma análise mais detalhada da comunidade específica da favela. "O recorte da pesquisa foi essa comunidade, com o fim de entender seus problemas, suas dificuldades, sua riqueza e potencialidades".


Números significativos

Segundo a pesquisa, existem 4.314 habitantes na comunidade, vivendo em 1373 residências (821 na favela, 63 em um alojamento da Prefeitura e 489 nos apartamentos do Cingapura). Quase 30% da população (1.212 pessoas) são jovens, com idades entre 12 e 24 anos. Wagner explica que esses dados vão ser úteis para que o Casulo desenvolva uma política cultural mais adequada à realidade local.

Viviane de Paula Gonzaga, 21, que também participou da pesquisa e é estudante de Administração, disse que se surpreendeu com o fato de que, por um lado, 48% dos jovens disseram que a comunidade organizada podia resolver alguns de seus problemas (40% afirmaram que apenas o poder público podia resolver esses problemas). Por outro, entretanto, 77% dos entrevistados admitiram não participar nenhuma atividade comunitária.

Ela acredita que a pesquisa vai gerar algumas mobilizações positivas no bairro. E considera que é preciso fazer com que os jovens se sintam importantes e acreditem que podem fazer muita coisa pela comunidade e também para eles mesmos.

Atualmente, os jovens que trabalharam na pesquisa estão participando do projeto Observatório Social, também desenvolvido pelo Casulo, em parceria com a Secretaria do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São Paulo e com a Organização das Nações Unidas para a Educação, para a Ciência e para a Cultura (UNESCO). Eles estão aprofundando seus conhecimentos sobre a comunidade, junto com mais 25 jovens do programa social Bolsa-Trabalho. No final do curso, eles vão desenvolver uma proposta de intervenção social na comunidade.

Alexandre Isaac acredita que a experiência da pesquisa participante desenvolvida no Real Parque pode ser levada a outras comunidades e que isso seria muito importante. Ele coloca-se, inclusive, à disposição das pessoas que quiserem conhecer mais sobre a metodologia da pesquisa. O sociólogo afirma que esse tipo de pesquisa pode ser desenvolvido com líderes comunitários e não apenas com jovens. E que o estudo pode ser um instrumento para mudar a realidade social local.


Fonte: www.setor3.com.br