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     TERCEIRO SETOR
Grupo de 20 voluntários faz trabalho de busca e salvamento na Vila de Paranapiacaba (SP)

Por Daniele Próspero
26/01/2004

Com muitas trilhas e cachoeiras, a Serra do Mar é o cenário ideal para todos aqueles que estão em busca de aventuras ou simplesmente querem estar mais próximos da natureza. Tantas atrações, entretanto, reservam aos "desbravadores" algumas surpresas nada agradáveis: sofrer uma queda, ficar perdido na mata ou ser picado por uma cobra são acidentes que, vez por outra, ocorrem nesses locais.

Foi justamente pensando nessas situações, quando o lazer se transforma em tragédia, que um grupo de jovens voluntários decidiu se unir para prestar socorro a pessoas que se aventuram na mata e acabam em apuros.

O local escolhido para desenvolver o trabalho foi a Vila de Paranapiacaba, que em tupi guarani significa "de onde se avista o mar". A região, Área de Proteção aos Mananciais, faz limites com o Parque Estadual da Serra do Mar e a Reserva Biológica do Alto da Serra de Paranapiacaba.

A paixão pelo local e a emoção em poder realizar busca e salvamento nos vales do Mogi, da Morte e do Quilombo foi o que motivou os mais de 40 voluntários do Urutu Resgate, durante seis anos de atividades. Em 2002, depois de desavenças entre a coordenação e os participantes, os voluntários deram um novo rumo ao trabalho e decidiram criar o Grupo de Assistência Voluntária Quilombo (GAVOQ).

Hoje, cerca de 20 jovens dedicam alguns finais de semana por mês às atividades do grupo, que passaram a ser mais organizadas e profissionais. Com o apoio de Marcos Ribeiro Alves, policial militar com grande experiência no Comando de Operações Especiais (COE), os voluntários aprenderam cartográfica, navegação, sistema de busca e salvamento, entre outros conhecimentos imprescindíveis à atividade. Alguns se envolveram tanto com a causa que resolveram se dedicar integralmente ao trabalho.

Esse é o caso, por exemplo, de Luiz Eduardo Albuquerque da Silva, 31 anos, coordenador do grupo, que já atuou na Cruz Vermelha e hoje é bombeiro civil. Experiência e qualificação são características bem-vindas, mas não uma exigência. Fazem parte do GAVOQ estudantes, auxiliares de escritório, químicos, ajudantes de bar e desempregados.

"A gente não corta ninguém que se interesse pelo trabalho. Já tivemos até aqueles que eram 'urbanóides pop-star' (pessoas exigentes e cheias de frescuras), que não conseguem ficar em lugares como este. Isso muda. Eu exijo muito deles. Quando estão na base, eles ficam estudando. Além disso, devemos ser exemplos para a comunidade. Não posso falar isso é perigoso e estar às 3 horas da manhã brincando e bebendo", comenta Luiz Eduardo.

Depois que ingressam no grupo, os voluntários passam por alguns níveis de treinamento. Durante os primeiros 60 dias, eles fazem um estágio para conhecer melhor as atividades e se ambientarem à rotina, que não é nada fácil. Normalmente, os voluntários chegam na madrugada de sexta-feira e só saem da Vila no final do domingo. Após este período, explica Eduardo, eles já são considerados realmente voluntários. A partir daí e participando de diversas provas, a pessoa pode se tornar socorrista, que já é um especialista.

Os voluntários com mais de um ano de participação e que se destacam no grupo, podem se candidatar a reconter - responsáveis pelo reconhecimento terrestre. "É difícil e a exigência é grande, mas isso deixa ainda mais interessante o trabalho. Hoje, o grupo é a minha vida. Eu me sinto muito melhor em poder ajudar do jeito que eu posso. Além disso, a gente consegue aplicar o que aprende aqui no dia-a-dia", comenta o reconter Carlos Eduardo da Silva Correia, 22 anos.

Toda essa preparação e formação têm motivo certo. Além das operações de socorro, o grupo se dedica a outras atividades. Os voluntários dão cursos para escoteiros de administração de emergência e salvamento em selva; fazem o mapeamento das áreas de riscos da Vila e rotas de fuga; e elaboram o mapeamento de todas as trilhas da região. O GAVOQ, até o momento, já mapeou mais de 200 km de trilhas.

Regularmente, os voluntários fazem vistoria no Parque das Águas, local onde é feita a captação de água da Vila. O grupo evita que moradores ou visitantes utilizem o espaço para nadar ou degradar o meio ambiente deixando lixos espalhados. Atualmente, o GAVOQ está auxiliando também o Núcleo de Defesa Civil da Vila, criado pelos moradores.

De acordo com coordenador do grupo, o trabalho de prevenção desenvolvido pelo GAVOQ já trouxe resultados positivos para a região. O número de ocorrências vem caindo gradativamente. Luiz Eduardo lembra que, no início das atividades, os voluntários chegavam a atender cerca de quatro ocorrências por fim de semana. Hoje, esse número caiu para uma ocorrência a cada quatro ou cinco meses. "Orientamos os visitantes a não beberem quando vão subir as trilhas e até ensinamos a fazer lanterna de vela quando está chovendo. Isso faz com que as pessoas nos conheçam e avisem quando acontece algo. Cria-se um vínculo", explica o coordenador.

Atualmente, as ocorrências ocorrem com mais freqüência na Trilha do Rio Mogi, um dos locais que não foi englobado no Parque e que, por isso, não tem monitoramento. A equipe não faz resgates somente em Paranapiacaba. Em dezembro do ano passado, o grupo foi chamado para participar da busca de um piloto de avião que caiu entre Ubatuba e Parati e ficou perdido por quatro dias.

Assim como outros pequenos grupos que estão se constituindo, o GAVOQ enfrenta uma série de dificuldades, a principal é a falta de recursos. A casa onde funciona a base do grupo é alugada e todos os equipamentos e móveis foram doados. A equipe se mantém com a contribuição mensal de R$ 15 de cada voluntário.

Apesar de contarem com bons equipamentos, como oito rádios, dois GPS, duas pranchas de socorro e dois multicintos, o grupo não tem viatura. "Até o Mirante, que é a porta do nosso quintal, como costumamos dizer, são dois quilômetros. Todas as trilhas ficam mais distantes e temos que ir andando. Se vamos socorrer alguém na Cachoeira da Escondida, por exemplo, são 6 km carregando a pessoa acidentada na prancha no ombro. Desta forma, ficamos sabendo das ocorrências pelas nossas vistorias ou quando as pessoas da própria trilha nos informam. É tudo no boca a boca", diz Luiz Eduardo.

Nem todas essas dificuldades e obstáculos parecem desanimar os voluntários. O clima de uma grande família, que eles fazem questão de manter, faz com que tenham ainda mais motivação de continuar o trabalho. Alguns chegam até mesmo a fazer pequenas "loucuras" para não faltar às atividades. Quando não tem dinheiro para o ônibus, Hélio Moreira da Rocha, 24 anos, vai para Paranapiacaba de bicicleta. Ele conta que são mais de quatro horas pedalando de Itaquaquecetuba (zona leste de São Paulo) até a Vila.

Eduardo Meneguetti de Souza, 22, também já se superou muitas vezes. Ele recorda que quando estava desempregado ia a pé de Ribeirão Pires, onde mora, até Paranapiacaba. "Nosso trabalho é muito importante para a região, que é uma área muito isolada. Por isso, quero desenvolver uma coisa boa para o bem comum", comenta Gerusa Reis da Silva, 23, dando razão ao esforço realizado pelos amigos.

Sacrifícios à parte, como uma ocorrência no meio da mata à meia-noite num dia chuvoso e frio, os voluntários garantem que a recompensa é enorme, mesmo mantendo o anonimato, que eles fazem questão de preservar. "Uma vez socorri um garoto que estava em coma alcoólico e consegui mantê-lo acordado até a chegada dos pais. A mãe me disse uma coisa que sempre vou lembrar: 'Você salvou a pessoa mais preciosa da minha vida'. Isso porque eu não fiz nada de especial. Temos várias histórias para contar e de pessoas que nunca mais vamos ver. Por isso, esse grupo é hoje a minha vida", afirma Eduardo.

O GAVOQ está em busca da documentação necessária para se tornar oficialmente uma ONG (organização não-governamental). Com a regularização o grupo pretende se fixar na região e buscar parcerias para ampliar o projeto.


Serviço
Grupo de Assistência Voluntária Quilombo (GAVOQ)

Rua Nova, nº 573 – Parte Baixa da Vila de Paranapiacaba – São Paulo
Telefone: (11) 6457-5221
E-mail: equipea36@hotmail.com


Fonte:www.setor3.com.br