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     Terceiro Setor

Aliado verde

Por Luísa Gockel

Há 35 anos, um pequeno grupo de ecologistas americanos e canadenses navegavam num pequeno barco de pesca alugado rumo às Ilhas Aleutas, no Pacífico Norte, para protestar contra a realização de um teste nuclear. A tripulação, no entanto, não chegou ao seu destino e foi presa pela guarda costeira americana. Mas a surpresa quando voltaram a Vancouver, no Canadá, foi enorme: milhares de pessoas estavam esperando a volta dos ativistas, celebrando o feito. A luta e a ação expressaram a vontade de todos, mas ninguém sabia exatamente o que fazer. Depois disso, não restara outra alternativa senão fundar um movimento, que foi batizado de Greenpeace – em português, paz verde.

Quem conta a história é o coordenador de campanhas do Greenpeace, Marcelo Furtado. “Hoje não somos mais uma dúzia de hippies barbudos num barquinho alugado, lutando por uma causa. Somos centenas de homens e mulheres de todas as etnias, espalhados por dezenas de países do planeta, que lutam para proteger o meio ambiente. Temos a participação de 40 nacionalidades numa discussão e cada uma coloca a sua cultura. Em debates sobre a gestão de florestas ou aquecimento global isso é muito importante porque nos ajuda a criar soluções globais. Porque, afinal, o planeta é um só”, diz.

Segundo Furtado, no 35º aniversário da organização só existem motivos para comemorar. “Desde que nascemos, uma coisa nunca mudou que é a utilização das ações diretas. É um elemento de ativismo e vigilância dos grandes problemas ambientais. A nossa ousadia para essas ações também não mudou”, diz.

Para ele, uma característica essencial da organização é não aceitar dinheiro de empresas, governos ou partidos políticos. São mais de 3 milhões de colaboradores no mundo inteiro que ajudam a manter essa independência. “Sabemos que num embate com uma petroleira ela não vai conseguir nos comprar”, afirma o coordenador.

Segundo Furtado, o Greenpeace sempre leva em consideração a importância das medidas a longo prazo. Por esse motivo, muitas vezes, as soluções apresentadas pela organização são recebidas com descrédito e até espanto pela sociedade. “Somos visionários, pois apresentamos propostas que as pessoas acham que não fazem sentido naquele momento. Como no início da década de 1980, quando propusemos a produção limpa, ou seja, produzir sem poluir. Todos achavam impossível isso, que era uma coisa ou outra. No início dos anos 2000, isso passou a ser um conceito consagrado”, conta.

Outro caso emblemático em que o Greenpeace venceu o descrédito da sociedade e dos governos foi na luta contra o lixo tóxico. Furtado lembra que na época todos achavam que não tinha jeito, os países pobres sempre seriam lixeiras dos países mais ricos. “Em 1995, conseguimos criar uma rede de 124 países que disseram não a essa situação. Os países ricos foram proibidos de usar os países pobres como lixeiras”.

Em muitas frentes de luta pela preservação do planeta as contribuições do Greenpeace são sentidas. Mas, muitas vezes, não são facilmente vistas. “Hoje a IBM limpa os seus circuitos com água e sabão e não mais com solventes que destroem a camada de ozônio”, conta.


Não faça onda

Os norte-americanos Jim Bohlen e Irving Stowe se juntaram ao estudante Paul Cote e fundaram em Vancouver, no Canadá, um movimento contra testes nucleares na região de Amchitka, nas Ilhas Aleutas, uma das áreas geologicamente mais instáveis do planeta. O movimento foi batizado de “Comitê não faça onda”, em alusão aos maremotos provocados pelos freqüentes terremotos nas ilhas.

A idéia do comitê era combater os testes nucleares americanos usando como inspiração para as ações a crença dos quakers - religião de origem protestante, que prega, entre outras coisas, o pacifismo. A idéia consiste em estar presente num evento com o objetivo de impedi-lo. Foi daí que nasceu a idéia de navegar até o local dos testes no Pacífico Norte.

O nome “Não faça onda”, que tinha pouco apelo, logo foi substituído por Greenpeace. Depois do barulho que os ativistas navegantes fizeram, mesmo sem conseguir atingir seu destino, os testes foram adiados e depois suspensos para sempre na região. A metodologia de não usar violência, de estar presente em eventos prejudiciais ao meio ambiente e de chamar a atenção da sociedade com irreverência viraram marcas registradas da organização.

Nos dez primeiros anos de existência, o Greenpeace não parou de crescer. Mas em 1985, depois do bombardeio ao navio “Rainbow Warrior”, a ONG ganhou visibilidade mundial. O barco-símbolo da organização participou ativamente de campanhas contra a pesca predatória de baleias durante sete anos, até ser afundado pelo serviço secreto francês.

O evento, que até hoje permanece obscuro para a comunidade internacional e para o povo francês, levou à queda de um ministro e quase derrubou o ex-presidente francês François Mitterrand.

As ações diretas, inusitadas e criativas, não são a única frente de luta da organização. Hoje, o Greenpeace, presente em 41 países, conta com uma grande equipe de técnicos e pesquisadores que buscam diariamente as causas sociais, políticas e econômicas das mazelas ambientais do planeta.


O Brasil na rota verde

Durante a Conferência Rio-92, o Brasil recebeu a visita do novo Rainbow Warrior - a ONG batizou um segundo navio com este nome, em homenagem ao tradicional barco afundado anos antes -, que aportou suas velas azuis no Rio de Janeiro. Enquanto isso, 800 cruzes eram colocadas no pátio da usina nuclear de Angra dos Reis para lembrar o acidente nuclear em Chernobyl, ocorrido em 1986. Era o sinal de que o Brasil estava entrando definitivamente na rota do Greenpeace.

“Fizemos em 1992, a primeira grande ação nos moldes do Greenpeace contra a usina de Angra I e mostramos a burrice que é escolher o caminho da energia nuclear. Mais ainda no Brasil, pelo seu grande potencial de energias renováveis. São bilhões na lata de lixo, numa tecnologia insegura, suja e cara”, alerta o coordenador de campanhas da ONG.

A saída da organização do quintal dos países ricos era fundamental naquele momento. “Foi um processo de expansão da organização tanto na América Latina quanto na África. Identificamos que os grandes desafios do planeta só seriam resolvidos nas regiões de onde a maior parte dos recursos é extraída. Precisávamos crescer nos países em desenvolvimento, principalmente os grandes como Brasil, Índia e China”, conta Marcelo Furtado.

Segundo ele, a expansão teve grande impacto na organização. “Porque, quando nos instalamos num novo país, nós trazemos da região uma nova maneira de trabalhar e levamos para lá novas estratégias e práticas. Houve um grande aprendizado. E o Brasil contribuiu muito para isso”, afirma.

No início, o Greenpeace Brasil se voltou para a conservação das florestas, água potável e para a luta contra os pesticidas. Alguns anos depois, a organização ampliou o foco para áreas mais estratégicas. “Lançamos aqui no Brasil a campanha de luta contra a energia nuclear. Como somos uma organização internacional, pudemos fazer articulações dentro e fora do Brasil. Mostramos as multinacionais que trabalhavam com duplo padrão, com normas diferentes dentro e fora do Brasil”.

Em 1999, o Greenpeace trazia para a sociedade brasileira a necessidade de debater o problema dos transgênicos. Junto com organizações da sociedade civil, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), foi formada uma grande coalizão chamada Brasil Livre de Transgênicos, cuja secretaria executiva atualmente é desempenhada pela AS-PTA.

O trabalho realizado aqui é reconhecido internacionalmente. E o Greenpeace Brasil, segundo Furtado, é sem dúvida uma organização brasileira com funcionários brasileiros. “Nós ajudamos a desmistificar a questão sobre ser uma organização internacional ou brasileira. Conseguimos alcançar uma integração coerente e estratégica”, acredita.

Hoje, o grande desafio da organização no Brasil e no mundo são as mudanças climáticas. “Impedir isso no Brasil só é possível através de uma mudança de postura de governos e da indústria. Isso só acontece se engajarmos milhões de brasileiros”, afirma. Segundo ele, no Brasil há problemas adicionais ligados à gestão dos patrimônios naturais, como a questão da Amazônia e a escolha da matriz energética. “Para crescermos de forma sustentável tem de ser baseado em energia sustentável”, avisa.

Vencer esse e muitos outros problemas ambientais que assolam os brasileiros não é fácil. Furtado alerta para um problema estrutural da sociedade e da política brasileira. “As respostas não devem contemplar só o hoje. Isso tanto em relação à questão da matriz energética quanto à da produção de alimentos. Os políticos brasileiros e os governos não trabalham com a visão de longo prazo, mas qualquer pai e mãe trabalham com essa visão”.


Amazônia: o gigante ameaçado

Em 1998, seis anos depois de o Greenpeace aportar no Brasil, a organização se instalou na Amazônia, mais especificamente em Manaus. De acordo com o coordenador da campanha da Amazônia do Greenpeace, Paulo Adário, a ONG é a única grande organização internacional instalada na capital do Amazonas.

Os motivos da escolha são vários: “Manaus é o centro geográfico da Bacia Amazônica, e o Amazonas é um estado com um nível de degradação ambiental menor. Ainda há uma grande área a ser preservada. Além de ter todo um simbolismo de Manaus ser o coração da floresta”, conta.

Durante os primeiros anos, a organização teve de levantar uma grande quantidade de informação, pois não havia dados oficiais suficientes nem confiáveis sobre o tema da madeira ilegal na região. Segundo Adário, foi preciso montar uma rede de coleta e checagem de informações.

No início de 1999, começa com força a campanha contra a extração ilegal de madeira na Amazônia. “Escolhemos algumas madeireiras como alvo e organizamos ações locais. Também tínhamos um grande poder de fogo no mercado global, que importava essas madeiras", explica Adário. “A pressão local atua muito através da documentação e influencia nas políticas públicas. A intervenção do mercado permite que o consumidor, seja ele coorporativo ou não, tome uma atitude em relação ao problema”, completa.

Algumas vezes, a organização contou com uma ajuda inesperada, fruto do acaso. Adário conta que certa vez uma multinacional se instalou na Amazônia para explorar ilegalmente a madeira. O Museu Britânico, por causa de uma obra, comprou compensados justamente dessa multinacional. “Fizemos muito barulho falando que o governo britânico estava comprando madeira que vinha de terra indígena da Amazônia. Evidentemente, ganhamos a briga”, conta.

Segundo Paulo Adário, dois problemas principais ameaçam a floresta e têm merecido atenção especial da organização: a extração ilegal de madeira – a Amazônia produz 90% da madeira que o país consome – e a expansão da fronteira agrícola. “Os dois têm conexão com o nosso modelo de globalização e com a falta de governança na região”, afirma.

A estratégia do Greenpeace na Amazônia é de criar uma rede global de áreas protegidas. “Também trabalhamos para o desenvolvimento sustentável das comunidades que vivem lá”, diz Adário, referindo-se aos 22 milhões de brasileiros e brasileiras que moram na região. “É preciso ganhar tempo com essas áreas protegidas para que a sociedade brasileira decida o que fazer no futuro”, afirma.


Fonte: www.rits.org.br