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     TERCEIRO SETOR
Pesquisas confirmam crescimento do investimento privado no Terceiro Setor

Daniele Próspero

Em busca de uma gestão socialmente responsável e ações que prezem pelo desenvolvimento sustentável, as empresas têm, cada vez mais, investido em projetos sociais do Terceiro Setor, seja por meio de fundações próprias ou em parceria com organizações não-governamentais. Segundo uma pesquisa realizada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), publicada em janeiro deste ano, das 543 empresas entrevistadas, 75,9% apóiam trabalhos sociais e ou fazem doações para comunidades desfavorecidas. Cerca de 40% desenvolvem ações em parcerias. Deste total, 62% são realizadas em conjunto com ONGs.

O "Guia Exame de Boa Cidadania Corporativa 2003", que apresenta dados a respeito da participação do setor privado na área social, publicou, na sua última edição, que as 245 empresas pesquisadas são responsáveis pelo financiamento de mais de 1.200 projetos sociais. Os 749 projetos selecionados para a publicação mobilizaram um investimento de R$ 528 milhões no ano passado. Destas iniciativas, 59% envolvem a articulação de parcerias entre empresa, governo e ONG; 30% contam com apoio de funcionários-voluntários. A educação continua sendo a área que mais recebe investimentos (R$ 229 milhões) e desenvolve maior quantidade de projetos (182).

As fundações também têm disponibilizado recursos para o financiamento de ações do Terceiro Setor. No ano passado, a Ford, por exemplo, apoiou cerca de 80 projetos nas áreas de educação, saúde reprodutiva, direitos humanos, desenvolvimento sustentável e governança e sociedade civil, investindo mais de US$ 10 milhões. Em 30 anos de atividades, a Fundação Interamericana (IAF) já investiu cerca de US$ 540 milhões em mais de 4.400 projetos, tanto de organizações comunitárias, como de cooperativas agrícolas ou pequenas empresas.

Atentas a essas oportunidades de investimentos, as ONGs têm ampliado sua participação nos concursos de seleções de projetos abertos por agentes financiadores nacionais e internacionais. Os investidores chegam a receber centenas de projetos. Muitas vezes, apenas 1% do total passa pelo funil.

A Brazil Foundation, por exemplo, recebeu no último concurso 1060 propostas, o que representou um crescimento de mais de 1300%, se comparado à primeira edição. No ano passado, foram mais de 300 projetos encaminhados para a Fundação Interamericana, sendo que a instituição financia apenas entre quatro a seis iniciativas. Na Fundação Ford a situação não é diferente, foram contabilizados mais de 20 novos projetos que são encaminhados semanalmente.

As seleções, além de serem concorridas, devido ao aumento no número de participantes, ganharam também em qualidade. "Os projetos estão bem mais elaborados com estratégias e orçamentos definidos", comenta Ana Toni, representante da Fundação Ford no Brasil. Samara Werner, gerente do Instituto Telemar, também consegue avaliar um crescimento de qualidade nas propostas apresentadas nas duas edições do concurso lançadas pelo instituto, com o objetivo de financiar projetos que promovam a transformação de localidades que apresentem baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), por meio da tecnologia. "Hoje há uma maior disseminação da importância da gestão e do planejamento, além da capacitação. Com isso, elas conseguem se preparar melhor", completa.

No entanto, apesar dos avanços alcançados pelas organizações, algumas propostas ainda apresentam deficiências, dificultando o acesso aos recursos. As dificuldades vão desde a elaboração de estudos que mostrem a realidade do local em que o projeto será aplicado, até a definição de objetivos e orçamentos.

Segundo Judith Morrison, represente da Fundação Interamericana para o Brasil, a maior deficiência dos projetos encaminhados aos concursos é a falta de participação das comunidades de base na elaboração e implementação das ações, o que seria fundamental para a conquista de apoio da fundação.

Na opinião de Ana Toni, a dificuldade estaria na possível amplitude do projeto. "Muitos projetos são ou pontuais demais ou muito abstratos e vagos. Conseguir com que projetos sejam mais do que a acumulação de diversas atividades exige uma estratégia que leve em conta a sustentabilidade e as conseqüências das ações sugeridas".

Geralmente, as falhas se tornam mais evidentes nos projetos apresentados por organizações pouco estruturadas e se acentuam ainda mais nas propostas elaboradas por ONGs distantes dos grandes centros urbanos. Para financiadores como a Brazil Foundation, que investe principalmente em iniciativas de organizações de base nas áreas de educação, saúde, direitos humanos, cidadania e cultura, orçadas em até US$ 10 mil, as dificuldades são constantes. De acordo com Susane Worcman, vice-presidente da Fundação, a primeira triagem chega a cortar cerca de 40% do total de projetos apresentados.

"Há uma desigualdade muito grande entre os projetos. Recebemos propostas muito bem elaboradas. Mas existe também muita coisa incoerente, fora dos critérios e mal redigidas. Às vezes, os projetos trazem informações irreais, como, por exemplo, afirmar que a ação vai atingir toda a população do estado e ter um aproveitamento de 100%. Isso é mentira. Acredito que a parte do orçamento é onde as organizações estão mais fracas", opina a gerente, que avalia que isso ocorra, muitas vezes, por falta de conhecimento e experiência das ONGs.

O que a Fundação tem percebido também, ao longo das três seleção que realizou, é o nivelamento das informações apresentadas. Todos acabam trazendo as mesmas referências e jargões do Terceiro Setor. Na opinião de Sheila Nogueira, gerente de projetos da Brazil Foundation, as propostas acabam perdendo muito em qualidade, pois caiem numa receita pronta. "Isso acaba com a capacidade de criar uma idéia".


Proposta bem elaborada nem sempre garante recurso

A boa noticia para as organizações é que nem sempre um projeto bem escrito e com uma boa apresentação é garantia de sucesso. De acordo com os especialistas, a proposta terá muitas chances de ser escolhida, mesmo com algumas deficiências, se conseguir provar que a idéia é realmente inovadora e de impacto.

Judy explica que, para a Fundação Interamericana, as propostas mais interessantes não são necessariamente as mais técnicas e que a idéia é "dar justamente mais oportunidades para organizações de base com menos experiências em elaboração de projetos".

O Instituto Telemar também aposta nesta diversidade. Segundo Samara, muitas vezes a equipe percebe que, apesar das deficiências, a organização tem uma grande vontade de realização. "Se achamos a idéia boa, chamamos a entidade para conversar e ver o que podemos melhorar. Isso porque não queremos ser apenas financiadores, mas também parceiros, auxiliando na gestão e monitoramento das ações. Vamos capacitá-las para isso".

Para convencer o investidor e aumentar as chances do projeto na hora da seleção, Sheila Nogueira, da Brazil Foundation, recomenda que as organizações aprendam a contextualizar melhor a causa que defendem e a mostrar como ela se manifesta na comunidade que a ONG atua. Ela sugere também que as organizações sejam criativas na aplicação dos recursos. Na opinião de Judith, é importante que a ONG considere com atenção os objetivos do concurso antes de apresentar sua proposta, analisando se as atividades da organização se encaixam nos objetivos de desenvolvimento propostos pela IAF.