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     TERCEIRO SETOR

Internos da Febem produzem curtas-metragem e pretendem participar de festivais

Por Susana Sarmiento

Claquete na mão e o grupo de jovens começa a segunda entrevista do dia para o documentário "Sem Protocolo", na tarde da segunda-feira (02/05). O entrevistado é Alexandre de Moraes, secretário da Justiça e Defesa da Cidadania e presidente da Fundação do Bem Estar do Menor (Febem). O entrevistador é um interno da instituição. É o décimo curta-metragem do projeto Ligue Vídeo, um programa áudio-visual desenvolvido pelos internos da unidade de Itaquaquecetuba, interior de São Paulo (SP).

O documentário vai mostrar para os internos as três esferas do poder (Legislativo, Executivo e Judiciário). Além do secretário, os adolescentes e ocineasta coordenador do projeto, Tony Valentte, pretendem entrevistar outras autoridades como o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, senadores, e, finalmente, o presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva. O primeiro a gravar foi o deputado Milton Flávio, do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira).

"Os jovens preparam tudo. Levantam a história, constroem as falas, fazem a pré-produção do curta, filmam e decupam o material. Foram cerca de quatro meses de oficinas com dois encontros semanais. Eles receberam aula de direção, como usar a claquete, manusear a câmera e a luz nos ambientes de filmagem e outros pontos para elaborar um vídeo. As aulas eram teóricas e práticas, mas primeiro procurei despertar o interesse do jovem pela parte prática para sentir as dificuldades em manusear os aparelhos e perceber a necessidade da teoria. Caso contrário, se tivéssemos começado pela teoria, os jovens se dispersariam do curso e não teriam tanto interesse", conta Tony Vallente.

O Ligue Vídeo, implantado em maio de 2004, é resultado da parceria do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e a Febem, que pretende implantar o projeto em outras unidades da Febem. De acordo com o secretário, este trabalho será desenvolvido na unidade Belém em São Paulo e que atende jovens na semi-liberdade e, futuramente, em Franco da Rocha. "Na semi-liberdade, é mais fácil instalar este projeto, mas nós queremos começar com produções de vídeo, cinema, teatro e programas educativos em geral em Franco da Rocha até o final de maio", revela.

Os oito curtas produzidos, lançados em dezembro do ano passado para as 77 unidades da Febem, contaram com a participação direta e indireta de 40 jovens em todas as etapas necessárias para se produzir um filme. A turma agora em andamento irá finalizar mais quatro vídeos, totalizando 12. "Após a autorização dos pais dos internos, vamos fechar um pacote com 12 curtas e lançar um circuito Curta Febem. Com este material, pretendemos participar de festivais e expandir este trabalho para outras unidades de internação", comenta Tony.

Desde 2002, o CCBB apóia algumas ações da Febem na área de artes plásticas por meio de doação de material (telas, pincéis, tintas, entre outros) até decidirem promover uma atividade que tivesse continuidade. Detectaram a naecessidade de apoiar o desenvolvimento do Ligue Vídeo, já que muitos profissionais levavam seus equipamentos e os internos após o curso ficavam sem instrumento de trabalho. Sendo assim, o CCBB resolveu investir articulando cinco profissionais de diferentes gêneros cinematográficos para orientarem os funcionários da instituição responsáveis por repassar seus conhecimentos para os internos. Foram oito meses entre capacitação e oficinas para os internos. Ao final do curso, o CCBB vai repassar material de áudio-visual para as unidades que desenvolverão o projeto, permitindo aos jovens continuarem seus trabalhos.

Na busca por profissionais para as oficinas, os parceiros Febem e Banco do Brasil encontraram Tony que desenvolvia desde 2003 o projeto Cinema-Escola numa unidade da Febem no Guarujá, que tinha o apoio do governo do Estado de São Paulo e a Casa de Cultura do Baiano das Astúrias. O cineasta coordenou um longa-metragem "Kinema, através dos tempos" com jovens desta unidade de internação, que fala da retrospectiva dos 110 anos de história do cinema simbolizada no personagem na figura do jovem Kinema (significa movimento, em grego), protagonista do filme. Até que em 2004, o cineasta apresentou o projeto para a Febem e foi contratado para coordenar o projeto Ligue Vídeo.

"Eu já tinha trabalhado com jovens de baixa renda, mas quando comecei o projeto na Febem sofri preconceito por parte de alguns amigos e até familiares. Muitos ainda tratam o jovem interno como presidiário e pensam que não tem mais jeito, mas são adolescentes que cometeram um delito e dependem de oportunidades e orientação adequadas. Geralmente, as pessoas rotulam os jovens como pessoas agressivas e rebeldes por conta da cobertura da grande imprensa. Esse projeto tem um resultado muito positivo principalmente no resgate da auto-estima", conta Tony.

Segundo Tony, muitos internos não imaginavam sua capacidade com o vídeo e viram uma oportunidade de trabalho e perspectivas de mudanças. "Através do projeto, eles percebem a posição que têm e falam que é a chance real de mostrar à sociedade seu potencial", revela.

Além do manuseio de câmeras e outros equipamentos, os internos aprenderam a fazer cine direto e verdade. O primeiro é aquele em que o entrevistado não sabe das perguntas, enquanto no cine verdade há uma intervenção na entrevista. Ou seja, tem um ensaio sobre a abordagem do entrevistador. Os vídeos tratam de vários assuntos relacionados à realidade do jovem interno, como, por exemplo, preconceito racial, reinserção social, dependência química, rotina dos internos, uma animação sobre um pernilongo (existem muitos na instituição), capoeira, entre outros aspectos.

O ex-interno R.S.S., 18 anos, participou do curta "Se Tu Lutas, Tu Conquistas" com mais sete jovens e pretende seguir na área. "Eu já sai há dois meses e não vejo muitas oportunidades lá fora e com o projeto espero um caminho de mudanças". Seu colega, P.N.C., 16 é interno e também está participando do documentário Sem Protocolo. Há seis meses está na Febem sendo três trabalhando no projeto. "O projeto é muito bom e aprendi várias coisas diferentes. Já sei manusear a câmera, ver foco e enquadramento, ter idéias para a história do filme e ver a luz de forma adequada. O mais interessante é que nós decidimos tudo e agora temos um olhar diferenciado, pois sabemos que tem muita coisa por trás de um filme ou programa de televisão", diz o adolescente.

O secretário, destaca a importância de encaminhar os vídeos aos festivais de curtas. "É importante dar destaque aos adolescentes, porque esse tipo de trabalho é um grande incentivo para eles e ajuda a aumentar sua auto-estima. Por isso, buscamos parcerias com organizações experientes, como Meninos do Morumbi, Instituto Criar além de empresas, que podem colaborar com nossa demanda de trabalho. O importante é isso: ensinar os adolescentes alguma coisa e dar esta perspectiva de mercado de trabalho. Queremos lançar uma série de programas nos próximos dez dias para mostrar à sociedade civil quem acredita nos projetos da Febem", conclui.

O projeto também agradou o diretor da unidade de Itaquaquecetuba, Cosme Godinho Marko, que acha importante trabalhos vinculados à arte e educação na recuperação dos jovens. Além do projeto Ligue Vídeo, a unidade apresenta oficinas de tapeçaria, origami, panificação, reciclagem, aulas de informática e coral. "Os jovens já fizeram gravação externa na praça da Sé e tudo ocorreu bem sem nenhuma tentativa de fuga. Todos participaram das aulas, mas os que tiveram mais interesse e se destacaram nas aulas e que apresentam bom comportamento foram escalados para filmagens e produção dos vídeos. Este projeto é muito bom para os internos por resgatar e valorizar a auto-estima e trabalhar a questão da ressocialização social", esclarece.



Fonte:www.setor3.com.br