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     TERCEIRO SETOR
Para Rosa Maria Torres, ex-ministra do Equador, não se pode dissociar educação de cultura

Por Laura Giannecchini

Educação e cultura entendidos como conceitos indissociáveis foi a tese que norteou o debate "Democracia, Educação, Participação Cultural", realizado no dia 1º de julho, durante o Fórum Cultural Mundial, encerrado em São Paulo no último domingo (4/7). A discussão contou com a participação da ex-ministra da Educação e das Culturas do Equador, Rosa Maria Torres, que fez uma apresentação bastante conceitual, criticando a maneira como se fala de educação usualmente.

Para ela, quando se dispara a palavra "educação", a maioria das pessoas vincula a idéia ao esquema escola-aluno-professor. Rosa Maria acredita que a educação não se restringe ao sistema escolar; ao contrário, se dá a todo o momento, em qualquer lugar. "É preciso mais cultura na educação e mais educação na cultura", disse, em contraposição à tendência da educação escolar estanque. Nesse sentido, a ex-ministra criticou a organização de um Fórum Mundial de Educação realizado independentemente do Fórum Cultural Mundial.

A especialista questionou a forma como a educação normalmente vem sendo trabalhada. "Educação PARA o trabalho, PARA o diálogo, PARA a paz, PARA a democracia, PARA o pensamento". Ela aponta que essa forma de postular o problema traz "respostas ruins". "Os currículos ficam fragmentados. Existe uma hora determinada para pensar... E no resto da semana, não se pensa?", ironizou.

Para resolver esse problema, Rosa Maria sugere que se comece a trabalhar a educação "EM", assumindo a cultura e a educação como dimensões da vida cotidiana. Na sua avaliação, quando se educa na base do diálogo, dos direitos humanos, ou da democracia, a formação se dá naturalmente. E a educação é ampliada a outros contextos, não permanecendo apenas restrita ao âmbito dos especialistas. "O conceito-chave é educar 'em' e não educar 'para'", resumiu. Ela acrescentou que, no lugar de "educação", talvez fosse mais interessante utilizar a palavra "aprendizagem", que integra campos diversos como a educação e a cultura, sintetizando seu modo de pensar.

A palestrante ainda criticou o currículo escolar. Ela considera que o conceito de currículo é cheio de indefinições e que a visão que se tem é muito simplista porque pressupõe que só existe uma forma de educar. Rosa Maria Torres afirmou que há uma distância muito grande entre o que é o currículo prescrito de uma escola e seu currículo real – que é o que interessa.

E para fazer essa afirmação apresentou um caso pessoal, referente à educação de seu filho. Rosa Maria disse que, quando trabalhava como funcionária da Unesco, ela e o marido resolveram matricular o filho mais novo na escola das Nações Unidas, em Nova Iorque, "porque o currículo era maravilhoso". A experiência, no entanto, foi "desastrosa". O garoto era duplamente discriminado. Primeiro, porque foi isolado dos estudantes americanos, sendo colocado em uma turma de alunos que tinham o inglês como a segunda língua. Depois, porque nessa sala, seu professor de espanhol era nativo e dizia que o seu sotaque, equatoriano, "não era bonito". A ex-ministra afirmou que, mais tarde, seu filho estudou em outras escolas e que essas eram muito menos discriminatórias do que a escola da ONU.

Para completar, a especialista disse que, ultimamente, vem-se valorizando muito a diversidade cultural, mas que o conceito de igualdade vem sendo deixado de lado. Na sua avaliação, é preciso "recuperar a igualdade com diversidade".


Experiências reais

Para o jornalista Gilberto Dimenstein, que também compôs a mesa, o projeto Bairro-Escola, desenvolvido pela ONG Cidade Escola Aprendiz, foi inspirado nas proposições de Rosa Maria Torres e parte do pressuposto de que não existe separação entre a educação e a cultura; a cultura faz parte do esquema educacional. Assim, prossegue o jornalista, as danceterias, becos, cafés, organizações sociais, oficinas mecânicas tornam-se locais de aprendizagem.

Segundo Dimenstein, o projeto conseguiu recuperar espaços abandonados da Vila Madalena, bairro de classe média, na zona oeste de São Paulo, como, por exemplo, um beco que era dominado pelas drogas. Diversas escolas que estavam em mau estado de conservação também foram revitalizadas por jovens da própria comunidade.

Reynaldo Bautista, do International Delphic Council, das Filipinas, lembrou da importância dos países adaptarem seu sistema educacional às características locais e culturais dos povos originários. Ele trouxe o exemplo de seu país, que, no início do século 20, ficou sob o domínio dos Estados Unidos e depois mais quatro anos sob a ocupação japonesa. Foi nesse contexto que o sistema educacional se desenvolveu. "Embora existam cerca de 70 dialetos falados nas mais de sete mil ilhas das Filipinas, as aulas são ministradas em inglês", exemplifica. Ele disse que o sistema educacional só foi adaptado à cultura nativa a partir dos anos 70.

Para ele, a educação pode superar os desequilíbrios gerados pela globalização entre o hemisfério norte e sul, entre os ricos e os pobres. "Mas a maioria dos países em desenvolvimento cria seu sistema educacional alheio à cultura local. Para que a educação seja um unificador social, é preciso analisar a cultura local, fazer adaptações e não somente copiar o sistema educacional dos colonizadores", alertou.

Participaram ainda do evento Ken Barlett, diretor da Foundation for Community Dance, que apresentou um projeto de dança comunitária, desenvolvido no Reino Unido. O projeto levantou as diferentes aspirações da comunidade e conseguiu promover a integração dos deficientes físicos. "Os artistas têm que manter um compromisso mais sério com a comunidade", sugeriu Ken Barlett.

Peter Friese, dinamarquês especialista em projetos de educação, falou sobre sua experiência na África do Sul, onde conseguiu fazer com que pobres e ricos dialogassem por meio de manifestações culturais.

Maria Teresa Leal, co-fundadora da Coopa-Roca, também contou a experiência da Cooperativa de Trabalho Artesanal e de Costura da Rocinha que há vinte anos trabalha com moradoras da favela de mesmo nome localizada na cidade do Rio de Janeiro. Maria Teresa disse que essas mulheres trabalham em suas casas, ampliando a renda familiar e, ao mesmo tempo, dedicando-se à educação de seus filhos.



Fonte:www.setor3.com.br