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     TERCEIRO SETOR

Militantes recorrem a criatividade e ao próprio bolso para levar cultura à periferia de São Paulo

Por Daniele Próspero
05/02/2004

Música, teatro, dança. A arte invade a periferia e se torna um instrumento para a formação de cidadãos mais conscientes. À frente desse movimento cultural estão lideranças sociais que resolveram arregaçar as mangas e fazer algo para melhorar a vida de suas comunidades.

Os projetos surgem, quase sempre, de maneira simples e espontânea. Muitos funcionam em pequenas salas cedidas por escolas ou associações ou até mesmo na própria rua. Exemplos de iniciativas como esta se espalham pela cidade, mas seus idealizadores, que conhecem essas dificuldades bem de perto, alegam que ainda há muito a fazer.

Para alcançar seus objetivos, o segredo dos projetos é a proximidade com a comunidade. Para esses "ativistas culturais", conhecer os anseios dos moradores é fundamental antes de colocar as idéias no papel. "Não dá para você fazer um trabalho se não estiver enraizado neste lugar. Não posso dar uma aula de teatro em determinada comunidade, por exemplo, se não estiver aberto ao olhar dela. Não adianta vir aqui e trazer uma super orquestra se o pessoal aqui não conhece o negócio", afirma Fábio Resende, integrante da Cia. Manicômicos Produções Artísticas, grupo que realiza apresentações teatrais e oficinas em diversas comunidades da capital paulista.

Para o ator dos Manicômicos, é importante acabar com a idéia equivocada de que a periferia não tem cultura. "Cultura não é ter doutorado e estudado muito. As pessoas precisam perceber o que aquela comunidade tem para a ensinar, qual a cultura dela. Quem fala que é a arte oculta é porque não está aqui para ver o dia-a-dia. O interessante é que aqui no São Luís é totalmente diferente de Parelheiros, mesmo estando na mesma região sul de São Paulo". Apesar das diferenças entre os projetos elaborados seguindo os valores de cada comunidade, os benefícios que a arte traz nas suas várias vertentes, repetem-se em todas as regiões.

A Associação Recreativa Bloco do Beco aposta na música para resgatar crianças e jovens das ruas. "Se você começa a envolver um jovem com a música ele fica mais sensível e seguro. Queremos formar um cidadão, orientar, mostrar o que existe e dizer que ele tem que ir atrás. É preciso abrir os olhos dessas crianças para outras coisas, pois o negócio está feio na periferia", explica o presidente da Associação, Luiz Cláudio Souza.

Quando o assunto é teatro, palavras como socialização, criatividade e auto-estima ficam na ponta da língua. Fábio Resende explica que, pelas artes cênicas, a criança "acorda um lado que talvez esteja adormecido". "O aluno que entra no teatro melhora até mesmo na sala de aula", afirma.

A falta de verba e de apoio ainda continua sendo a maior barreira a ser enfrentada pelas pequenas organizações não-governamentais. Muitas delas ainda não possuem CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica) ou outros registros concedidos por órgãos governamentais. Luiz Cláudio afirma que, embora o Bloco do Beco seja convidado para as apresentações, nunca cobra pelo show. "Só porque a gente mora aqui tem que tocar de graça. Fica um círculo vicioso, já que não dá pra comprar os instrumentos. Mas quando tem um show do Circuito Cultural, por exemplo, os grupos ganham não sei quantos mil reais", protesta.

Para Juvenita Maria de Jesus, idealizadora da Cia. Teatral Arte e Vida, a burocracia também se torna um grande obstáculo para aqueles que estão começando. "Sempre exigem um monte de documentos. Parece que quer dizer: ´Isso não é para você´. Já barra seu trabalho, pois não temos tempo para ficar correndo atrás".

Embora os artistas concordem que o número atividades culturais na cidade tenha aumentado, eles ainda acreditam que a oferta ainda não é suficiente para atender a demanda. Segundo Juvenita, é necessário dar continuidade às ações para que se tenha realmente progresso.

"Esse trabalho não dá ibope não. Às vezes as pessoas falam: ´Quantas pessoas vocês atingiram?´. Isso não importa, se for uma já é muito. O negócio é de grão em grão", comenta Fábio.

Na opinião do presidente do Bloco do Beco, Luiz Cláudio,o que falta hoje para que os projetos possam ter um impacto maior nas comunidades é um diálogo mais próximo entre as organizações sociais, comunidade e o governo. Segundo ele, com essa nova postura os projetos seriam desenvolvidos em conjunto, de acordo com as reais necessidades da região. "Como eles podem dizer: 'Preciso levar cultura para a periferia?' Algum coordenador, por acaso, de Casa de Cultura, entrou em contato com alguma organização e perguntou o que achava de tal projeto. É claro que não. Acho muito bons esses projetos do governo, mas é preciso conversar com quem mora no local e apoiar também o que já existe no bairro. Senão, ele pode chegar lá [na comunidade] e acabar com a cultura que nasceu ali", alerta o ator da Cia dos Manicômicos.

Uma maneira interessante para reverter essa situação começa pelo fortalecimento das próprias organizações. O Senac São Paulo, por meio do Projeto Redes Sociais, tem fomentado a formação de redes em diversas regiões da cidade. Nos fóruns de rede as organizações trocam experiências, informações, conhecimentos e se fortalecem. "O intercâmbio é super positivo, pois raramente eu teria oportunidade de conhecer tantos trabalhos ao mesmo tempo se não estivesse envolvido com a rede. Mas estamos nos organizando ainda", comenta Luiz Cláudio. Segundo os voluntários, o fundamental é agir e exigir mais atenção para as idéias que partem da periferia.

Fonte:www.setor3.com.br