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     MÚSICA

Handel (O Barroco Protestante)


Por Luiz Lobo

Só uma região da Europa resistiu à vitória da homofonia: a zona do protestantismo luterano, a Saxônia, a Turíngia, Brandenburgo e Hanover. Em Dresden, o rei da Saxônia, convertido ao catolicismo para poder eleger-se rei da Polônia, não quis saber da música luterana e manteve uma cara casa de ópera com músicos italianos que também tocavam música sacra na sua igreja na corte.

A dinastia de Hanover deixou o país para ocupar o trono inglês. Príncipes,, duques e condes da região eram pobres, como as cidades que sofriam ainda os efeitos da Guerra dos Trinta Anos. Além dos motivos religiosos, motivos financeiros impediram a marcha da música barroco-católica para o Norte.

As tentativas de estabelecer casas de ópera em Berlim e Hamburgo fracassaram.

A vida musical ficou concentrada nas Kantoreien escolas de música sacra estabelecidas junto às principais igrejas. O Kantor, músico profissional, também era o encarregado de organizar os concertos profanos da municipalidade. E para que ele não fosse contra os princípios luteranos, dele exigia-se uma sólida formação teológica.

Era um mundinho, pequeno e fechado, bem de acordo com a tradição musical germânica que, até então, "tinha contribuído muito pouco para o desenvolvimento da arte", como lembrou Carpeaux. Foi a influência italiana que fez nascer a grande música alemã. A influência de um Frescobaldi, Girolamo Frescobaldi (1583 - 1643), o maior organista do seu tempo, improvisador genial, contrapontista erudito. A riqueza melódica das músicas do organista da basílica de São Pedro, no Vaticano, concentrou-se principalmente na forma da tocata. No dizer de Otto Maria Carpeaux, "o gosto da polifonia inspira-lhe a forma do ricercare, que é um achado de primeira ordem: será a fuga. Os Ricercari de 1615 e os Fiori musicale de 1635 contêm muita música maravilhosa. O Secondo Libro di Toccate (1637) é a maior obra organística antes de Bach.

Johann Pachelbel (1653 - 1706), organista em várias cidades, foi o introdutor da fantasia frescobaldiana nos prelúdios dos corais e escreveu 94 fugas sobre a melodia do Magnificat. Ainda segundo Carpeaux "está pronta, enfim, aquela forma polifônica que caracteriza a renascença da polifonia na última fase do Barroco, até então homofônico: a fuga." E que abre caminho para Handel.

Handel, dizem os ingleses. Haendel, dizem os alemães. George Friedrich Handel (1685 - 1759) nasceu e formou-se na Alemanha. Viveu e morreu na Inglaterra. Sua terra é a Saxônia, onde estudou Direito e teologia (para ser um organista e Kantor da principal igreja de Halle).

Ele começa por transplantar para o coro ass grandes artes polifônicas. Viaja à Itália em 1707, exibindo-se como virtuose do órgão. Vai para Londres e ali espera fazer o sucesso que não conquistou em Hanover. Funda e dirige uma casa de ópera e lua contra os credores, as resistência inglesas, os concorrentes italianos. Em 1728 estava falido.

Funda nova ópera, enfrenta novos credores, novas lutas, mas em 12736 está na mais completa ruína financeira e ainda sofre um derrame que o deixa paralisado.

Refaz-se. Sem dinheiro para encenar óperas no palco, executa óperas de enredo bíblico em salas de concerto e cria o oratório. É a vitória completa.

Em 1759, quando é sepultado no panteão dos ingleses, na Abadia de Westminster, sua estátua fica entre o túmulo dos reis da Inglaterra e o monumento a Shakespeare. Haydn, Mozart, Beethoven consideravam-no como o maior de todos os compositores.

Curiosamente, esse gigante da música é um plagiário. Tem recursos inesgotáveis de invenção mas não pode ouvir um tema mal aproveitado,m um trecho mal empregado por outros compositores e logo se apropria e usa, como se fossem seus, magistralmente.

Sem vergonha, inescrupuloso, plagia até a si mesmo, usando uma mesma melodia para fazer música sacra e profana, com apenas algumas modificações rítmicas. A tal ponto que uma canção, popular e intensamente erótica, lhe serve para um De Profundis .

Handel é "a suprema realização do ideal barroco". E sua polifonia é alemã, a melodia é italiana, e ele é o mais legítimo representante do barroco inglês, o que é evidente na sua música litúrgica da Igreja anglicana, onde realiza o que Purcell iniciou. (Os 12 Chandos-Anthems para serviços na capela particular de Lord Chandos são obras-primas.) Até hoje, na cerimônia de coroação de um rei da Inglaterra, executam-se os quatro Coronation Anthems (1727), música principesca de gosto popular que excita o patriotismo das multidões, segundo Carpeaux.

Uma das obras musicais mais conhecidas no mundo é o Concerto para Órgãos e Orquestra em Fá Maior, opus 4, nº 4 (de 1738), popular no melhor sentido da palavra. Mas se Handel é capaz de fazer uma belíssima música, magistralmente trabalhada, ela não pode ser comparada à de Bach, que é um compositor que dá seu melhor em música instrumental (como Haydn e Beethoven). Handel se exprime melhor em música vocal (como Mozart e Schubert), embora sua maneira de tratar as vozes provenha do órgão.

Bastam alguns acordes de uma introdução orquestral e alguns compassos cantados pelo coro para dar a medida da grandeza incomparável do mestre. O enredo dramático meio indiferente das óperas só serve como preparação para a grande ária. Por isso mesmo, das óperas de Handel, só sobrevivem as árias usadas em concerto: V'Adoro, pupille; Ombra cara de mi sposa; Ombre, piante, une funeste; Lascia ch'io pianga . Mas o trecho mais célebre é, sem dúvida, o "largo" Ombra mai fu, da ópera Serse, que para Carpeaux é "uma das mais nobres melodias jamais inventadas", peça indispensável no repertório dos grandes tenores e barítonos.

A música religiosa de Handel, principalmente suas Missas, escandalizam os protestantes. Mendelsssohn sai de uma de lãs (segundo Mário de Andrade) sarapantado e dirá que ela é "escandalosamente alegre". Para Mário, Handel "foi um golpe enorme na verdadeira religiosidade musical"

Do ponto de vista do estilo não há diferença importante entre as óperas e os oratórios de Handel (excluídos da execução na igreja por causa da forma dramática e excluídos da representação no palco por conta do assunto religioso). Com os oratórios Handel faz a sala de concertos começar a desempenhar sua função moderna.

O oratório é a melhor manifestação do barroco protestante, síntese da ópera italiana, da paixão alemã, do teatro clássico francês e do protestantismo anglicano.

Dos oratórios de Handel infelizmente poucos, sempre repetidos, constam do repertório moderno e só se cantam algumas árias que não dão noção correta do conjunto. Hoje, o Messias (1742) é o oratório mais popular de Handel, mas não deve ser incluído junto aos outros. É uma obra muito diferente, principalmente pelo lirismo. O Halleluja é o ponto culminante do barroquismo de Handel. Assim como a ária I Know that My Redeemer Liveth é a mais comovida oração da língua musical.

Foi o Messias que permitiu a Handel pagar todas as suas dívidas e deu-lhe o suficiente para ainda ajudar generosamente várias instituições de caridade e igrejas pobres. Por isso mesmo é que no seu túmulo-monumento, Handel tem os originais desse oratório em suas mãos.



Fonte: www.tvebrasil.com.br/agrandemusica