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     MÚSICA

Gluck


Por Luiz Lobo

A renovação da música instrumental, com Haydn, não atingiu a ópera, petrificada como gênero desde os tempos de Scarlatti. Até mesmo os libretos não mudavam e eram reaproveitados até mais de dez vezes. Os donos da ópera são os cantores, sobretudo os castrados, alguns deles mais famosos do que os compositores. E eles só querem saber das suas árias, a tal ponto que a ópera praticamente deixa de fazer parte da história da grande música para ser parte da história dos costumes, como observa Otto Maria Carpeaux.

Essa música que encantou as cortes de Nápoles e Parma, Viena, Dresden e Munique, Madri, Estocolmo, São Petersburgo, está morta e sepultada. Restam, como fantasmas, algumas árias antiche.

É quando entra em cena Christoph Willibald Gluck (nascido em 1714, filho de alemães humildes, foi estudar no colégio dos jesuítas, que era gratuito. Suas boas notas o levaram à Universidade de Praga onde, formado, foi convidado para ser professor.

Preferiu ser músico, seguindo sua vocação.

Como músico era ruim, "de ínfima categoria", segundo mais de um biógrafo. Para sobreviver tocava violino nas aldeias, acompanhando as danças dos camponeses e sendo pago, na maioria das vezes, com comida e bebida.

Voltou a Praga e tentou sobreviver tocando violino mas não conseguiu. Foi para Viena, o grande centro musical, onde não faltava emprego aos músicos, nas casas dos aristocratas.

Foi um deles que mandou Gluck para a Itália, aperfeiçoar sua deficiente formação musical. Lá, encantou-se pela ópera e começou a compor, à maneira de Johann Adolf Hasse que, embora alemão, era o mais famoso operista italiano, chamado Il Caro.

Teve algum sucesso e chegou a receber um condecoração papal, no grau de cavalheiro, o que lhe deu o direito de ser chamado Ritter Gluck.

Foi para Londres, contratado por um empresário da Ópera mas não se deu bem, a não ser pelo contacto que teve com Handel e Rameau e que despertou-lhe ambições mais sérias e o desejo de estudar mais.

As numerosas obras dessa primeira fase foram justamente esquecidas.

Gluck aproveitou bem a reforma da música instrumental em suas obras maduras e graças a ela, de volta a Viena, é nomeado maestro na corte da imperatriz Maria Teresa.

Em contato com o conde Durazzo, diretor dos teatros imperiais e com o aventureiro libretista Raniero Calzabigi, imaginam uma reforma da ópera como gênero. A começar pelo assunto: saem as intrigas amorosas complicadas e entram os enredos mitológicos e simples, mas de muito maior efeito dramático, trágico. Fica eliminada a vazia pompa barroca, os arabescos do bel canto exibicionista, a música é enriquecida e a ópera deixa de viver de árias mal costuradas.

Segundo Gluck, é impossível reaproveitar um bom libreto, de literatura séria, porque a ele só corresponde plenamente uma determinada música, exatamente aquela que interpreta o libreto e exprime o seu sentimento emocional.

Quando é criticado porque sua ópera "submete-se às palavras" ele diz que o homem aprendeu a falar para expressar pensamentos e a fazer música para transformar as palavras em melodia e espetáculo.

Sua primeira "ópera reformada" é Orfeo de Eurídice (1762) e embora o papel de Orfeo ainda tenha sido escrito para um cantor castrado, ao levantar-se o pano os solenes funerais de Eurídice já são um espetáculo, uma cena trágico-misteriosa.

Mas a nova ópera aparece por inteiro é em Alceste (1767), um dramma per musica.

O ambiente de Viena, completamente italianizado, não era propício à reforma da ópera. Depois do insucesso de Paride ed Elena (1770), Gluck vai para Paris, onde o teatro também estava sendo renovado. O sucesso de Iphigénie em Aulide (1774) é uma "vitória completa", embora ela raramente apareça no repertório atual. De todas as suas óperas, é a mais dramática, e a que melhor leva a nobreza e a serenidade da tragédia de Racine ao palco musical. A propósito, é a primeira ópera em que o amor não tem papel de destaque no enredo.

Restou dela a Abertura que, graças aos concertos sinfônicos, é a obra mais conhecida e mais tocada de Gluck.

Aí começa a luta entre os gluckistas e os piccinnistes, entre os que admiravam Gluck e os que preferiam o italiano Piccinni, que termina com o reconhecimento do próprio rival do compositor alemão.

Em 1780 Gluck volta a Viena, onde passou seus últimos anos, venerado como um patriarca da música e o renovador da ópera, pela expressividade da sua música que atraiu Heinse, Hoffmann, Voltaire.

Gluck era um cético, um pensador que não admitia o sentimentalismo e queria representar a verdade da vida por meio de símbolos mitológicos. Nisso, antecipou Wagner.

"Gluck purificou a ópera, conferindo ao gênero a dignidade do teastro clássico francês, de Racine sobretudo, e, um pouco, das tragédias de Voltaire", escreve Carpeaux, acrescentando: "Sem sabê-lo, voltou à simplicidade clássica dos florentinos que, no final do século XVI, inventaram o gênero."

Até hoje discute-se a riqueza da musicalidade de Gluck. Handel, por exemplo, dizia que "Gluck entende menos de contraponto do que a minha cozinheira". Mas a verdade é que Gluck substituiu a falha pela altíssima inspiração, com a nobreza da invenção melódica e os notáveis achados da orquestração. Ele só queria fazer música humana, dramática, e fez. Suas obras são, segundo Carpeaux, "as experiências mais profundas que o teatro musical tem a oferecer".

No dizer de Mário de Andrade, "o que tem de essencial no gênio de Gluck é a força profunda, impressionante, incomparavelmente sugestionadora de dramaticidade. Jamais a música atingiu grau mais poderoso de realismo dramático que em algumas passagens de Gluck".

Só de livrar a ópera dos sopranistas Gluck tem um lugar de honra na história da grande música, embora hoje ele seja mais ouvido por suas composições para o copofon, um instrumento musical permanentemente afinado com um teclado e copos que são tocados com a ponta do dedo molhado. Seus Concertos com Vasos d'Água Afinados são executados nos circos de todo o mundo até hoje e levaram Maria Antonieta a estudar com ele em Viena. Com a morte de Luís XV, a Rainha da França deu a Gluck uma das mais belas e suntuosas residências de Viena, onde ele morreu em 1787.



Fonte: www.tvebrasil.com.br/agrandemusica