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     MÚSICA

Renascença e Reforma
Por Luiz Lobo

Renascença e Reforma são movimentos antagônicos, na música assim como nos outros setores da vida, como bem observou Otto Maria Carpeaux. Mas não é possível defini-los em termos musicais, porque o novo século (o XVI) não significa, por enquanto, mudança de estilo: continua-se a escrever como os flamengos, mas o centro é deslocado para a França, a Alemanha, a Itália, a Inglaterra.

Também há uma diferença de natureza social: nos países que continuam fiéis à fé católica, a música sai, mais que antes, das igrejas para a vida aristocrática; nos países que aderem à Reforma a música retira-se para a igreja, adaptando-se às formas mais simples de devoção do povo.

"A região franco-flamenga foi o foco de irradiação da música renascentista para onde havia sociedades aristocráticas como no sul da Alemanha e na Itália, ou então sociedade que escolheu uma via media entre a velha fé e os rigores do calvinismo, como na Inglaterra elizabetiana", escreveu Carpeaux.

Mas os primeiros portadores dessa ova mensagem musical ainda são flamengos, como Philippe de Monte (1521 - 1603) e Roland de Lattre (1530 - 1594), ambos flamengos, franceses, italianos, alemães, cosmopolitas.

Ambos escreveram música religiosa, como a missa Inclina cor meum (Monte) e o motete Gustate et videte (Lattre) que, segundo a lenda, foi escrito para uma procissão em Munique, depois de um longo período de seca e pedindo chuva, que logo começou a cair. São obras góticas.

Mas Roland de Lettre (que se assinava Orlandus Lassus) foi muito mais popular e conhecido por suas chansons eróticas e às vezes humorísticas, com letra em francês (Quand mon mari, Margot, J'ai cherché) ou italiano (Amor mi strugge, Madona mia cara), embora houvesse escrito 516 motetes para todas as festas e comemorações do ano litúrgico (Magnum opus musicum) e os Psalmi poenitentiales, a música mais emocionada, mais dramática de todo canto a capelas.

Orlandus Lassus é o mais moderno entre os mestres antigos e o seu lirismo reflete o estado de espírito de uma sociedade aristocrática, da Renascença, do Cinquecento, de uma época já sacudida pelas tempestades da Reforma.

A música dessa sociedade, na França, é a chanson, cujo grande mestre é Clement Jannequin (1485 - 1560) e na Itália é o madrigal (espécie de motete profano, de um lirismo erótico) de Donato Donati (? - 1603), Giacomo Gastoldi (1556 - 1622) e Luca Marenzio. Na Inglaterra, o gênio é William Byrd (1543 - 1623) que, embora maestro da rainha protestante Elizabeth, manteve-se fiel à fé romana e deixou uma obra quase clandestina como a Missa para cinco vozes. Ele dominou todos os gêneros, fazendo inclusive música alegre e erótica que acompanhavam as comédias da primeira fase de Shakespeare e faziam parte do que se chamou a merry old England.

Thomas Morley (1557 - 1603) é o cantor da vida nos campos e do bucolismo, autor de grande parte das peças cantadas até hoje pelos madrigais, como Since my tear, New in the month of maying, Sing we anda chant.

John Dowland (1563 - 1626) foi o mais famoso compositor para alaúde, por suas pavanas majestosas e sombrias, popular pelas canções melancólicas como Go, cristal tears, Shall I sue, Weep you no more.

O último grande foi Orland Gibbons (1583 - 1625), autor dos doces e masis belos madrigais como Silver swan e What is our life. Gibbons já pertence a um época em que as preocupações religiosas voltam a dominar e é dele a maior missa anglicana, Service (em fá maior) e o coro Hosanna to the son of David, que ainda é cantado no dia de Natal.

Depois dele o puritanismo religioso, vitorioso nas guerras civis, acabou com a música, dentro e fora da Igreja.

O calvinismo francês não foi tão radicalmente contra a música, pelo menos no início. Mas o regime democrático das comunidades calvinistas não admitia um coro de músicos profissionais executando músicas que os fiéis não entendiam e só podiam assistir passivamente. O culto devia ser de todos.

Claude Goudimel (1505 - 1572), uma das vítimas do massacre de huguenotes na província (depois da Noite de São Bartolomeu) foi obrigado a limitar sua arte as salmos dignos e severos que a comunidade toda podia cantar. Toda música instrumental acabou sendo excluída dos templos, admitindo-se apenas o órgão...

No mundo protestante a música foi salva por acaso: Lutero tocava flauta. E foi o porta-voz da nação germânica e da sua profunda musicalidade, o mais importante elemento de toda a história da música moderna, segundo Carpeaux.

Mas só da moderna, lembra ele, porque na Idade Média e nos séculos XV e XVI a contribuição dos alemães não é de primeira ordem, sendo o único nome indispensável o de Jacobus Gallus (Handl, 1550 - 1591), a quem os historiadores alemães chamam de "Palestrina alemão". (Cada nação pretende ter tido seu Palestrina no século XVI.) No caso, uma apelido inadmissível, por ter sido ele um gótico-flamengo, embora um grande mestre polifonista católico, autor do comovente Ecce quomodo moritur, ainda cantado nas igrejas da Baviera, da Renânia e da Áustria na Semana Santa.

Para essa arte polifônica o culto luterano não tinha uso, mas Lutera nunca pensou em excluir a música das igrejas, porque ele mesmo disse que "a música é a maneira mais digna de adorar a Deus".

Mário de Andrade escreveu: "Lutero chegando (1517) melómano apaixonado, instrumentista e até compositor, trata logo de introduzir a música na Igreja dele. Se auxilia do amigo João Walter, dos conselhos de Senfl e, compondo ele mesmo alguns cantos religiosos, como talvez o celebérrimo Ein fest Burg, cria o Coral Protestante." Desde então os melhores músicos alemães vão ter o lugar de Kantor (Mestre de Capela) nas igrejas do culto protestante. "E o Coral vai-se desenvolvendo nas mãos de Calvísius, João Eccard, Jacó Gallus, Miguel Praetorius e Hans Leo Hasler, este já muito tocado de madrigal veneziano", informa o mesmo Mário.

Escreve Carpeaux: "O coral luterano é coisa completamente diferente: é uma melodia sacra popular ou de origem popular e depois harmonizada, cantada não por um coro de cantores profissionais mas pela comunidade inteira, acompanhada pelo órgão, ao qual também se concede o direito de preludiar o canto ou de orná-lo com variações livres. Pelo coral entreou na Igreja luterana um importante e infinitamente rico elemento folclórico; ao mesmo tempo, salvou-se a relativa independência musical do órgão; e pouco mais tarde já não haverá objeções, da parte das autoridades eclesiásticas, contra a participação de outros instrumentos e contra a elaboração mais sutil de certos temas corais em obras que só um coro de cantores profissionais poderia executar: as cantatas."

Já estão reunidos os elementos de que se constituirá a obra de Bach.


Fonte: www.tvebrasil.com.br/agrandemusica