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     MÚSICA
Ars Antiqua, Nova e Mensurabilis
Por Luiz Lobo

O que distingue os antigos dos primitivos, em matéria de música, é exatamente o descobrimento da música, segundo Mário de Andrade. Se é verdade que certos cantos africanos e ameríndios chegaram a atingir um grau legítimo de musicalidade, a consciência da arte musical não atingiu esses povos. E a prova disso é que a música é a única manifestação artística que não deixou vestígios por não ter sido normalizada por uma técnica.

Por sua vez, os antigos tinham noção nítida de socialização, mas nem imaginavam a humanização e a liberdade humana. Quem trouxe a idéia do homem só (destruindo as bases em que se organizaram as civilizações da Antiguidade européia) foi Jesus.

"Foi o Cristianismo que firmou no indivíduo a noção da culpa em relação ao indivíduo mesmo e substituiu, por assim dizer, a consciência estatal anterior, por uma consciência individuaL nova", escreveu Mário, acrescentando que com isso, nasceu um ideal novo de civilização, "provindo não mais da Sociedade, mas da Humanidade".

Segundo ele, o ritmo é socializador e a melodia deixa espaço maior "para que se desenvolvam com independência os afetos individuais do ser". Á fase rítmica da Antiguidade vai suceder a fase melódica, a música ficará mais sutil, deixar de ser sensação para ser sentimento, passar de associativa a divagativa, até chegar a ser a arte de expressar os sentimentos através dos sons.


No século XI começa a chamada Ars Antiqua

Em 1053 Cerulário separa a Igreja de Constantinopla da Igreja de Roma. Uma fica sendo a Igreja Ortodoxa e outra a Igreja Católica. O órgão é o único instrumento musical admitido dentro das igrejas. São desse século os Mistérios e os Cantos Litúrgicos, quando começa a ser praticada a diafonia, melodia em duas vozes. O organum é um canto sacro diafônico em que o cantor fica com a melodia principal e o coro faz acompanhamento com intervalos de terças e quintas; com pausas, voltam a se encontrar no uníssono ou em oitavas.

No século XII surge o discantus, coro sacro com várias vozes: cantus firmus (tenor), melismas (ornamentos do tenor), contratenor (uma voz acima ou abaixo do tenor), bassus e altus. É o começo da polifonia.

O discantus faz muito sucesso e é chamado Discantus Supremos (vindo daí o Soprano italiano).

Fora da Igreja surgem vários estilos:
· gimel ou cantus gemellus, para duas vozes em intervalos de terças, superiores ou inferiores (que conhecemos hoje como dupla caipira);
· falso bordone, para três vozes, na Itália. O falso bordão (ou falso baixo) é cantado numa oitava superior (nota do baixo acima da primeira voz), na França chamado de fabordon (faux bourdon) e na Inglaterra de faburden.

"A frieza bárbara começa a ser substituída por um sentimento amoroso com o culto à mulher", escreve o maestro Edson Frederico. Do francês trouver (encontrar, no caso a mulher amada) vem a denominação dos poetas-músicos que surgem em várias regiões transformando a mulher e tornando-a o centro das preocupações de amor. Na França esse cantor é chamado de trouvère, no Norte, e de troubadour no Sul. Na Espanha e o trovador. Na Inglaterra é o minstrel (que deu origem ao menestrel em Portugal). Na Alemanha é o minnesinger (cantor do amor).

O tabulatur fixa as regras que devem ser respeitadas pelos trovadores do texto, melodia e forma de declamação.

Surge a notação quadrada, derivada da notação neumática. As notas musicais são escritas com quadrados e pontos.

Alguns trovadores alcançam grande fama: Perceval, o Rei Arthur (aquele da Távola Redonda), o Duque de Aquitânia, Ricardo Coração de Leão e Cazzela, criador do madrigal monódico.

O século XIII é de grande progresso intelectual, tempo de Tomás de Aquino escrever a Escolástica:
· Trívio - Gramática, Retórica e Dialética,
· Quadrívio - Aritmética, Geometria, Música e Astronomia.

Em Viena, em 1288, é formada a Irmandade de São Nicolau, eu vai ficar conhecida como a Organização dos Condes Músicos e durar mais de 500 anos.

É quando surgem o cravo (ou clavecin), a espineta (um tipo de cravo que antecedeu o piano), o clavicémbalo e o virginal um pequeno cravo especialmente criado para monjas inglesas.


Surgem as partituras cifradas

Na Espanha os Mistérios, Milagres e Autos saem das igrejas e ganham grande público. Como o Drama da Paixão na Suíça e o Cristmas Carol's (auto do nascimento de Cristo) na Inglaterra. O Mistério vira Oratório com a introdução da figura do narrador.

O Drama Profano (ou drama leigo) passa a alternar também partes recitadas com partes de canto. A Festa dos Loucos (uma paródia da missa) é sucesso nas feiras de toda a Europa e chega a ser representada em algumas igrejas.

As letras F e C, do alfabeto latino, colocadas no início da pauta para indicar que as notas ali escritas são fá e dó, são substituídas por uma chave: a primeira é a Clave de Sol, depois a Clave de Fá e por último a Clave de Dó.

O órgão ganha um teclado para os pés e os grandes nomes da música continuam sendo de trovadores: Henrique VI, Wenceslau da Bohemia, Tannhauser, Frederico II. Aos quais se juntam compositores como, Afonso, o Sábio (autor das Cantigas de Santa Maria), Adam de la Halle (autor de Jogos, canções populares, e de dramas profanos como Robin et Marion, precursor da ópera). Perotin foi o grande nome entre os compositores para órgão.

No início do século XIV a arte dos cantores ainda é monódica e individual, mas em oposição à Ars Antiqua surge a Ars Nova, que anuncia o emprego da polifonia.

Os cavalheiros, condes e reis deixam de cantar e os plebeus passam a ser cantores. Na França surgem os ministrilles que acabam fazendo uma confraria que vai durar até 1789, quando a Revolução Francesa acaba com os seus privilégios. A confraria cria as patentes: ninguém canta sem ter uma patente ou sem pagar para cantar as músicas registradas na Confraria.

Na Alemanha os cantores do amor são substituídos pelos meistersingers, os mestres cantores e eles também se organizam em um sindicato e adotam o sistema de patentes.

Na Suíça, em Zurique, os músicos são proibidos de usar armas e escudos, formam um sindicato e exigem que qualquer pessoa, para exercer a profissão de músico, compositor ou cantor, preste exame e seja sindicalizado.

Henrique de Meissen, pobre e trovador, fica famoso em toda a Alemanha como Fraenlob (Elogio das Damas) e quando morre seu funeral é acompanhado por uma multidão que incluía as nobres damas.

A variedade rítmica, a fusão dos ´rocessos de cantar paralelísticos e em movimento contrário, a elevação do número de vozes na polifonia criando o quarteto coral, fixam os princípios estéticos mais importantes da simultaneidade melódica com a chamada Escola de Paris, o início da escola franco-flamenga e a Ars Nova.

O século XIV representa na música a primeira fusão da polifonia erudita com a música profana. Profundamente influenciada pelos trovadores e pela arte popular, a polifonia católica sofre um período de obscuridade mas é quando surge a forma mais completa de missa.

No século XV surge a Ars Mensurabilis porque a polifonia está no auge. Ao contrário do Canto Gregoriano, em uníssono, com as notas todas tendo a mesma duração, a melodia e o renascimento do ritmo geraram a necessidade de medir, de mensurar a duração das notas na partitura. Daí a arte mensurável, Ars Mensurabilis.

O Papa é um Bórgia, e o mais mundano de todos os papas é amigo dos artistas, protetor e promotor das artes, inventor do primeiro festival que juntou os maiores músicos da Europa em busca de um prêmio em dinheiro.

Em Zurique, no ano de 1410, os músicos são proibidos de usar calças (indumentária que estava na moda), para não serem confundidos com os "verdadeiros burgueses suíços". Mas a música é a maior diversão da burguesia. Os ouvidos, acostumados agora à polifonia, não aceitam mais a música sacra. Surge o contraponto, a fuga, o cânon.

Uma música popular faz sucesso e é cantada por toda a Europa: Frère Jacque, na verdade cantada até hoje, quase 600 anos depois.

Do Brevis Motus Cantilenae, da Igreja surgem os motus (modos) e o motete, escrito para coro a cappella (sem acompanhamento instrumental) e em contraponto. É o mesmo que a imitação, só que sem acompanhamento instrumental. Daí vai nascer o madrigal da Renascença.

Na França criam o Baile Cômico do Reinado, que antecede o balé e também é um antecessor da ópera. "A Escola de Paris já sistematiza as primeiras formas de composição polifônica", escreve Mário de Andrade. Entre estas importaram tecnicamente o motete, o conducto e o rondó. O motete era a três vozes, cada uma com um ritmo e um texto diferentes. No conducto o canto-firme não era mais tirado do gregoriano, e sim um canto popular ou de invenção do compositor. No rondó a mesma melodia é repetida por todas as vozes, cada voz atacando a melodia por sua vez. Muito breve este último processo de compor foi chamado de cânone, e se tornou a norma principal da composição polifônica."

Surge o trombone de vara com o nome de sacabuche. E por volta de 1425 começam a ser formadas as orquestras. A Orquestra Municipal de Berna é de 26 e é formada por um órgão, três flautas, dois clarinetes e um cantor.

Os grandes nomes do século XV são os franceses Dufay (missas, motetes e canções profanas) e Desprès (música sacra), o espanhol Ensina (mistérios e farsas) e o alemão Hans Sachs (poeta e sapateiro, criador das popularíssimas músicas carnavalescas).

Com o fim do século termina a Idade Média.



Fonte: www.tvebrasil.com.br/agrandemusica