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     LITERATURA

A literatura pode clarificar a realidade

Rodrigo Gurgel (*)

Nenhum ato deveria nascer destituído de uma reflexão prévia, cuja intensidade fosse suficiente para nos revelar nossos mais íntimos desejos, nossas intenções e toda a gama de condicionamentos que se esconde, sorrateira, sob uma aparência de naturalidade. E não bastaria que conhecêssemos o que nos impulsiona, mas seria imprescindível também concentrar toda a atenção em cada uma de nossas mínimas decisões, no exato momento em que agimos, além de prever as possíveis conseqüências. Se tal irrestrita consciência fosse possível, cada insignificante gesto realizado em nosso cotidiano nasceria apartado de toda banalidade.

Em um texto fundador do formalismo russo, A arte como procedimento, Chklóvski cita um trecho do diário de Leon Tolstoi, no qual o escritor se angustia com o fato de não recordar se fez ou não determinada tarefa. Ele comenta que, por se tratarem de "movimentos habituais e inconscientes", além de não se lembrar, "sentia que era impossível fazê-lo". As conclusões do escritor em relação a esse lapso revelam uma angústia insuperável: "(...) Se agi inconscientemente, era exatamente como se não o tivesse feito." Uma angústia que se espraia sobre toda a vida: "Se alguém conscientemente me tivesse visto, poder-se-ia reconstituir o gesto. Mas se ninguém o viu ou se o viu inconscientemente, se toda a vida complexa de muita gente se desenrola inconscientemente, então é como se esta vida não tivesse sido."

De fato, a vida parece ser um indistinguível conjunto de ausências. Ao rememorarmos, no final do dia, tudo o que fizemos, veremos como a reconstituição fidedigna dos nossos atos é impossível. Algo importante nos escapa. E ao tentarmos realizar o balanço do que restou em nossa memória, descobriremos que a fatia de realidade à qual acrescentamos nossa marca - a ínfima seqüência do real que, revisitada, pudéssemos olhar e dizer, com absoluta certeza, "passei por aqui, toquei este objeto, comuniquei-me com este ser" -, essa parcela de verdade praticamente inexiste, como se nossa vida não fosse mais do que um vôo rasteiro que mal tateia o existir.

Durante muitos anos acreditei que a arte poderia superar esse distanciamento em relação à vida. E ainda acredito, mas de uma forma diferente da que imaginava há algum tempo. A arte detém o poder de, como propunha Chklóvski, romper a banalidade ou, no que se refere à literatura, criar uma linguagem capaz de, por meio do "estranhamento", quebrar o automatismo do cotidiano, conceder uma significação inusitada ao real, despertando nele o que nossa limitada percepção condena à letargia.

A evolução do meu ponto de vista ocorreu quando, em determinado momento, percebi ter menosprezado, em meu otimismo, a figura primordial do receptor, o agente capaz de não só receber e identificar a mensagem do artista, mas principalmente decodificá-la. Sem ele, a arte se transforma em uma atividade fria e solitária, fechada em si mesma, condenada ao silêncio ou a ser uma voz ouvida apenas pelo próprio artista ou por um seleto grupo de iluminados.

Subitamente, ao me dar conta, no que se refere à literatura, da existência do leitor, acordei para uma realidade de duas faces: de um lado, os excessos que, inspirados inclusive nas idéias de Chklóvski, condenaram a arte a um experimentalismo vazio, no qual ela se preocupa apenas em reconstruir permanentemente sua linguagem. De outro, no caso específico do público brasileiro, o estado de pobreza cultural e econômica em que a maior parte dele vive, alienado, portanto, de meios que lhe permitam decodificar as mais diferentes mensagens, de uma notícia de jornal a um poema, de um outdoor a um romance.

Diante dessa constatação, o conhecido sentimento de estar preso a um estado de dormência em relação à vida retornou, subtraindo-me qualquer possibilidade de otimismo.

O sistema cuja força nos submete a "viver como se não tivéssemos vivido" é hábil em produzir seus próprios significados, recobrindo a vida com a sombra que torna tudo e todos distantes e incompreensíveis. Ele condena o receptor à mesmice e à banalidade do entretenimento rasteiro e do consumismo, enquanto subjuga a arte, seduzindo-a a fechar-se na criação de um dialeto que seja apenas seu e, dessa forma, incompreensível à sociedade - um purismo que, em alguns casos, leva a literatura a um estado no qual ela se nega a narrar, preocupando-se apenas em reinventar a si própria.

Por um momento, cheguei mesmo a acreditar na possibilidade de existir um temor à narração. E creio tê-lo descoberto inclusive em alguns de meus textos. Depois, lentamente, percebi não se tratar de uma regra geral, e em minhas pesquisas aleatórias descobri autores que ousam enfrentar as armadilhas e os limites da língua e do pensamento, dispondo ainda de coragem para criar um enredo.

Houve um tempo no qual contar uma história parecia-me um gesto que apenas reforçaria o torpor dos meus prováveis leitores, além de trair uma concepção estética - um vanguardismo que hoje me transparece carregado de artificialidade - que se pretendia libertária, anárquica, potencialmente inovadora, e que fincara o minimalismo como um marco que não deveria ser ultrapassado ou esquecido por quem almejasse criar uma obra "moderna".

Hoje, ao contrário, penso que é imprescindível dizer, narrar, sugerir. O escritor não deve se negar à pretensão de escandalizar, corromper, cativar, enganar e, principalmente, persuadir seu leitor. Ele não deve temer, inclusive, certa dose de retórica, ou seja, de argumentação. Não se trata de abdicar do estilo ou da literariedade em nome de uma compreensão fácil. E, muito menos, de diminuir a potência do que temos a dizer, da forma como pretendemos dizer. Mas devemos fazê-lo com os olhos postos na tarefa de clarificar a realidade e revelar a loucura que se esconde nos interstícios e nas dobras do viver desumano e alienante.


(*) Rodrigo Gurgel é escritor e editor. Escreve regularmente para vários sites na web e em seu blog: http://rodrigogurgel.blogspot.com/. Também possui um site pessoal: http://www.rodrigo.gurgel.nom.br. Presta serviços de consultoria editorial, prepara originais e revisa provas para editoras e particulares. Foi um dos dez ganhadores do Concurso de Contos "450 Anos de São Paulo", promovido, em 2004, pelo Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo. Na web, é colaborador de La Insignia (http://www.lainsignia.org) e Novae (http://www.novae.inf.br).


Fonte: La Insignia