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     LITERATURA

EUCLIDES DA CUNHA E OS SALESIANOS EM LORENA

por Francisco Sodero Toledo

No início do século XX Lorena era uma pacata, bucólica e provinciana cidade localizada às margens do Rio Paraíba que ainda margeava os terrenos em frente à sua igreja matriz. A população do município era de aproximadamente 13 mil habitantes, a maioria residente na zona rural.

À época já era bem conhecida, quer pelo seu passado de esplendor ligado à economia cafeeira, em decadência, e à sua posição geográfica. Ficava situada entre os três grandes Estados brasileiros: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais; atravessada pela Estrada de Ferro D. Pedro II, inaugurada em 1877; e, cortada pelo majestoso Rio, cujo nome serviu para denominar a região paulista onde se encontra: a do Vale do Paraíba Paulista. No Campo educacional Lorena alcançava destaque pela presença dos Salesianos e do Colégio São Joaquim. Os Salesianos chegaram em Lorena em 1887, quando o seu superior Padre Lasagna encontrou-se com o Conde Moreira Lima, homem conhecido por sua grande fortuna e por suas obras de caridade. O conde havia oferecido casa e terreno aos Salesianos para edificarem sua obra. Os Salesianos, que chegaram na América do Sul em 1875, pretendiam constituir um núcleo de comunidades no Centro-Sul do país, que servisse como base para a criação da nova inspetoria brasileira. Com havia duas casas de ensino: o Colégio Santa Rosa, fundado em Niterói, e o Liceu Coração de Jesus, em São Paulo; faltava uma terceira, que seria a sede da nova inspetoria. Referindo-se à cidade de Lorena, e à doação, escrevia em setembro de 1887 o Pe. Lasagna: "A casa, dando para a praça principal, com quinze hectares de pomar, dista duzentos metros da estação da estrada de ferro. Tem condução na porta... Chamar-se-ia São Joaquim; tal é o nome do doador; Conde Moreira Lima, e do pontífice Leão XIII... é provável que o doador ceda também a igreja de São Benedito e uma casa anexa contígua para as irmãs". (Magalhães, 1990, p.14). Em 1890 era fundada em Lorena a terceira casa Salesiana no Brasil: o Colégio São Joaquim. A 3 de março deste ano as matrículas foram abertas. A partir de 1896, Lorena tornou-se a cidade sede da Inspetoria Salesiana no Brasil. A obra Salesiana ali instalada, nos dizeres do Pe. Lages Magalhães, resulta em "engalanado com o título de casa inspetorial, continuando com o bom estabelecimento de ensino que era, ampliou funções, responsabilidades, principalmente no que se refere aos noviços e aspirantes à vida Salesiana. Até o ano de 1897, inclusive, o noviciado funcionou no mesmo edifício do São Joaquim, onde se concentravam também os aspirantes a clérigos Salesianos". (Magalhães, 1990, p. 19).

Euclides da Cunha chega a Lorena para fixar residência em 1901. Contava então com trinta e cinco anos de idade. Muda-se para o Vale do Paraíba por ter sido removido para o cargo de Engenheiro Chefe do 2º Distrito de Obras Públicas, com sede em Guaratinguetá, por "politicagem", como escrevera ao dileto amigo Escobar. Prefere fixar-se em Lorena, ao invés de Guaratinguetá, sede do Distrito, devido ao já afamado Colégio São Joaquim, "onde os filhos poderiam encontrar boa educação e ensino". (Gama Rodrigues, 1952, p. 6). Trazia consigo: o cargo e os encargos de chefe de distrito; a família; e, a preocupação com a revisão e a impressão de um livro cujo original terminara em São José do Rio Pardo. Euclides da Cunha chegou em Lorena no mês de dezembro de 1901. Tornou-se novo morador da cidade. Um homem de "estatura mea, tez morena, cabelos duros, lisos e negros, desengonçado nas atividades, brusco nos gestos, desarranjado no trajar", como escreveu o Dr. Gama Rodrigues, seu contemporâneo e depois admirador. (Gama Rodrigues, 1952, p. 8). Logo revelaria sua personalidade forte e marcante. Uma pessoa de difícil trato. Um pernóstico, irrequieto, irritadiço, inconformado. Naturalmente não compreendido e aceito pelos lorenenses e valeparaibanos. "Um homem neurastênico, arrogante, metido a saber de tudo, de difícil prosa". Assim como se recordava um contemporâneo que conviveu com o escritor no município de Silveiras e que mantinha conversas com o mesmo na farmácia local, ponto de encontro tradicional das pessoas da mais cultas da cidade. (Ari Bernardes, entrevista ao autor). Por estas razões suas amizades em Lorena se resumiam a Dr. Arnolfo de Azevedo, chefe político local, cujo genro, o Dr. Gama Cockrane, então diretor da Superintendência de Obras Públicas do Rio de Janeiro, havia por carta apresentado e recomendado Euclides. Por este intermédio foi travando conhecimento com os principais da terra, além de alguns oficiais das duas unidades do exército: um batalhão de engenharia e o 12º batalhão de infantaria, dentre os quais o Capitão Maximiano Martins, seu companheiro de Canudos.

Contando com a ajuda das pessoas deste novo relacionamento conseguiu casa para fixar residência. Ao seu modo, sempre pronto para mudar. A primeira residência, coincidência ou não, ficava no terreno onde hoje se eleva a Faculdade Salesiana, na casa do Coronel Vicente Barreiros, seu velho conhecido do Rio de Janeiro, no antigo solar do Barão de Castro Lima. A segunda residência, à rua 15 de novembro, antiga Princesa Imperial, atual Dom Bosco, arranjada pelo Dr. Arnolfo de Azevedo. Esta ficava no centro da cidade, próximo à estação da Estrada de Ferro, a menos de 50 metros do Colégio São Joaquim. Ali passou a residir com a família: a esposa Ana Ribeiro e os filhos menores: Sólon, então com 11 anos, Euclides com 9, e Manoel Afonso, com pouco mais de um ano, nascido em São José do Rio Pardo. Com todos os afazeres de engenheiro e escritor, a família permanecia, para Euclides da Cunha, em plano secundário. Além de mostrar evidentes sinais de dificuldade de relacionamento com a esposa, evidenciados desde o início de sua estadia em Lorena. Ana Ribeiro da Cunha tinha orgulho de ser carioca, sendo, ao contrário do marido, "alegre, risonha, comunicativa; gostava de conversar, sobretudo com os homens, largas conversas ruidosas, abordando todos os assuntos, embora, sempre pela rama". (Gama Rodrigues, 1952, p. 9). Bonita, esbelta, trajava com capricho, preferindo fazendas de cores vistosas, em flagrante desacordo com o cinzento escuro ou pardo franciscano dos ternos do marido. As dificuldades do relacionamento do casal iam se tornando públicas, como "os dissabores comerciais" com a compra de perfumes caros, pelos quais Ana tinha verdadeira paixão e, sobretudo, nas poucas aparições do casal. Certa vez, foram a um "baile de aniversário, a que concorreu com a esposa, a qual apesar de mãe de três filhos, dançou toda a noite, com visível e agoniada contrariedade do marido. Cada vez que ela enlaçava um novo par, para mais uma valsa, ou mais uma polca, Euclides sentado a um canto, taciturno e desolado, esfregava as mãos em desespero e reprovação". (Gama Rodrigues, 1952, p. 10).

D. Sinhana, como Ana ficou conhecida na cidade, procurava compensar a ausência constante do marido com os cuidados da casa e dos filhos. Era tida como uma mãe carinhosa e cuidadosa. Era freqüentadora assídua dos atos e práticas religiosas, preferindo sempre os realizados na Igreja de São Benedito, anexa ao Colégio São Joaquim, dirigida pelos Salesianos, que ficava a poucos metros de sua residência. Freqüentava o Colégio com mais assiduidade, "talvez mais do que fosse desejado, procurando prestar no arranjo das salas e pátios, os pequenos e delicados serviços de que a sensibilidade e o gosto feminino tão férteis".(Gama Rodrigues, 1952, p. 10). O relacionamento do casal com os Salesianos estabeleceu-se com a matrícula dos filhos mais velhos no Colégio São Joaquim. Sólon Ribeiro da Cunha é matriculado como aluno interno desde o início do ano letivo de 1902, permanecendo nesta condição até o ano de 1905. Euclides Ribeiro da Cunha ficou como aluno interno do Colégio nos anos de 1903 e 1904. Coube a D. Sinhana acompanhar os filhos no Colégio. Euclides da Cunha, quando de sua permanência em Lorena, costumava visitá-los. As visitas de pais e parentes seriam às quintas-feiras, domingos, dias santos ou feriados, das 11 às 15 horas. Mas Euclides da Cunha, como escreve Gama Rodrigues, "não tinha hora, nem dia, nem obedecia a qualquer regulamento de praxe". (Gama Rodrigues, 1952, p., 9). A sua relação com os padres era mais reservada. Suas convicções filosóficas e o arraigado comtismo o afastavam dos Salesianos. Existe apenas o registro de uma relação breve, marcada por longas conversas com o Padre Salesiano João Gualberto, que viera a Lorena para pregar na tradicional Festa da Padroeira, de Nossa Senhora da Piedade, na primeira quinzena de agosto. O que levou o padre lamentar, finda a festa, "não ser possível demorar mais dias em Lorena, porquanto encontrara no espírito do grande escritor notáveis qualidades místicas, e certo estava que, pouco faltaria para trazê-lo convicto, ao aprisco consolador da religião". (Gama Rodrigues, 1952, p. 19). Três meses depois, Euclides em carta escrita a Coelho Neto, datada de 22 de novembro de 1903, referia-se ao seu pensamento religioso: "Então... eu não creio em Deus? Quem te disse isto? Puzeste-me na mesma roda dos singulares infelizes, que usam do ateísmo como usam gravata, por chic, e para se darem ares de sábio. Não! Rezo sem palavras no grande panteísmo, na perpétua adoração das coisas e, na minha miserabilíssima e falha ciência e sei, perfeitamente sei, que há alguma coisa que eu não sei... Aí está, neste bastardinho a minha profissão de fé". (Gama Rodrigues, 1952, p. 20).

O relacionamento de Euclides da Cunha em Lorena e com os Salesianos se rompe em 1903, quando a 31 de dezembro, face à uma crise financeira do Estado de São Paulo, foi demitido do cargo que ocupava, mudando-se desta cidade. Seus filhos, no entanto, continuariam como alunos internos do Colégio São Joaquim sob os cuidados da tia, D. Alcmena Ribeiro, que passou a morar na cidade, sozinha, com seus numerosos cães e gatos. Mais tarde, a 15 de agosto de 1909, Euclides da Cunha era abatido a tiros pelo amante de sua esposa, na Estrada Real de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Por coincidência, neste mesmo dia, Lorena festeja sua Padroeira, Nossa Senhora da Piedade. Os vínculos criados quando da estadia de Euclides da Cunha em Lorena estão hoje presentes e registrados na "Sala Euclides da Cunha". A criação desta Sala remonta ao ano de 1952, primeiro ano de funcionamento da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. A idéia, na época, era a de prestar uma homenagem ao escritos pelos cinqüenta anos da primeira edição de "Ös Sertões". Porém, por iniciativa do eminente médico e homem de cultura, residente em Lorena, o Dr. Gama Rodrigues, contando com simpatia e total apoio dos Salesianos de então, a idéia evoluiu para a fundação de um local especial com a finalidade de recolher, reunir e preservar todas as reminiscências da passagem de Euclides por Lorena; estudar, pesquisar esta fase de sua vida, pouco comentada pelos seus biógrafos; e, divulgar sua obra.

A inauguração da Sala Euclides da Cunha, cujos preparativos se deram a partir do mês de junho de 1952, ocorreu em 29 de novembro, com sólida e interessante conferência do Dr. Gama Rodrigues, posteriormente publicada pela própria Faculdade. Ao final da mesma, o orador fez entrega das chaves ao Pe. Diretor, Carlos Leôncio da Silva, para que a inaugurasse. Para os Salesianos, "o êxito da inauguração foi muito além de qualquer expectativa, pelo número de convidados, pelo brilho dos atos inaugurais e pelo renome que a Faculdade começou a conquistar através da publicidade". (Livro de Atas do Conselho Técnico Administrativo, 1952, p. 8). Em 1956, a "Sala Euclides da Cunha" ganhava sede própria, no interior das dependências da Faculdade Salesiana de Lorena. Por poucos anos esteve sediada na Casa de Cultura de Lorena, em regime de comodato com a Prefeitura Municipal, recém-inaugurada, por iniciativa do Departamento de Ciências Sociais desta mesma Faculdade. A "Sala Euclides da Cunha" contém várias obras do autor e numerosos objetos de seu uso pessoal, inclusive sua "mesa-secretaria", onde o escritor refez, aperfeiçoou sua obra máxima, em inúmeros trechos, até atingir a sua forma definitiva. A qual, espontaneamente, legou ao Colégio São Joaquim. Ali permanecem vivas as lembranças da passagem de Euclides pela "minha", pela "tranqüila Lorena", por este "velho recanto de São Paulo", como se referia à cidade. Os Salesianos, por intermédio da Unisal-Lorena, mantém novamente a custódia de tão rico acervo junto ao Núcleo de Pesquisa Regional, parte da memória da história lorenense. Um trabalho que presta a comunidade regional resgatando a nossa História, preservando a memória dos tempos de permanência do escritor em Lorena e da sua relação com os salesianos do Colégio São Joaquim.


Bibliografia:

GAMA RODRIGUES, Dr. A. Euclides da Cunha em Lorena (1902-1903). Lorena, São Paulo: F.S.F.C.L. de Lorena, 1952.

MAGALHÃES, Pe. Antonio Lages de. Colégio São Joaquim - 100 anos educando. Lorena, São Paulo: Escolas Profissionais Salesianas, 1990.

Livro de Atas do Conselho Deliberativo da FSFCL. de Lorena, 1952.

Entrevista com o Sr. Ari Bernardes, Silveiras



Fonte: www.valedoparaiba.com