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     LITERATURA

Livro escrito a seis mãos apresenta as várias faces da periferia e da marginalidade

Susana Sarmiento

Neste mês, foi publicado o livro Cabeça de Porco (editora Objetiva, 2005), resultado de uma pesquisa em nove cidades das cinco regiões do país com jovens e crianças envolvidos no crime e suas razões, realizados pelo rapper Alex Pereira Barbosa, conhecido como MV Bill, e o Celso Athaíde, produtor do prêmio Hutúz e fundador do CUFA (Central Única das Favelas). Contou também com um conjunto de pesquisa e análise de Luiz Eduardo Soares, antropólogo e ex-subsecretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro de 1999 à 2000 e Secretário Nacional de Segurança Pública em 2003.

MV Bill e Celso são de origem humilde. Um é da Cidade de Deus e o outro nasceu na Favela do Sapo, respectivamente. Em 1999, foi o encontro com Luís Eduardo, quando acompanhou a repercussão do clipe do rapper "Soldado do Morro", que foi censurado em 2000 sob a alegação de fazer apologia ao crime. "Escrevi e dei entrevista defendendo o clipe. Não conhecia direito seu trabalho, mas não demonstravam apologia ao crime. Pelo contrário, revelava a realidade. Isso nos aproximou até que em Porto Alegre nos encontramos e nasceu uma amizade e uma interação, já que temos valores comuns", conta.

No final de 2002, o livro foi aceito pela editora Objetiva e os três autores se reuniram para desenvolverem melhor o projeto e discutirem as pesquisas. "Esse livro é um documento importante principalmente por não ficar somente debruçado nos acontecimentos, mas assumimos o nosso lado marginal e nossas contradições. Ler esse livro é mesmo que fazer uma viagem ao próprio corpo, que estão tão perto, mas ao mesmo tempo é tão desconhecido", afirma MV Bill.

O livro mostra a realidade de jovens negros, pobres que convivem com a violência e que muitas vezes são recrutados pelo mercado do narcotráfico ou acabam em outro tipo de atividade criminal. Celso e MV Bill acompanharam bocas de fumo, batidas policiais e a pobreza de muitas comunidades das cidades visitadas. "Para mim, a cena mais marcante foi uma mãe que vendia drogas de dia e à noite vendia comida para as bocas de fumo para sustentar sua família. Dormimos na casa dela e, na manhã seguinte, eu a acompanhei no mercado. Ela disse: É meu rapaz, né mole não! É aqui que eu lavo meu dinheiro. A questão é mais séria se pensarmos que essas pessoas nunca deveriam ser chamadas de traficantes. Elas são só sobreviventes. Como um traficante pode fazer lavagem de dinheiro numa padaria comprando pão para seus filhos?", conta o rapper.

Para Luís, a cena marcante foi a morte de Márcio Amaro de Oliveira, conhecido como Marcinho VP, pois seu corpo estava numa caçamba de lixo da penitenciária, onde cumpria pena, coberto de livros e um cartaz: "Nunca mais vai ler". Márcio voltou a ler com a ajuda do cineasta João Salles há pouco tempo de sua morte. Estava aplicado em obras de Machado de Assis, Lima Barreto, Sergio Buarque de Holanda e outros."Isso significa que o livro tem um papel revolucionário, pois é um instrumento que permite uma mudança social do homem. Isso é uma coisa intolerável para quem vive com o rótulo de marginal, que a pessoa possa mudar", declara. Companheiros de prisão não permitiram que ele transgredisse a única lei inviolável: não serás outro (para que eu permaneça o que sou)".

Na opinião do antropólogo, a situação descrita pelo livro deve ser resolvida de uma forma multidimensional. Ou seja, uma união de todos os níveis sociais, econômicas e simbólicos. "Nós tendemos a rotular o jovem que comete um crime como um criminoso e o lacramos numa instituição de internação. Não admitimos a mudança desse jovem", aponta.

"Precisamos customizar as políticas sociais, ou seja, adaptá-las a cada caso, respeitando a individualidade do jovem e sua vontade. A expressão artística promove o aumento da auto-estima do jovem. "A arte, a cultura, a criação estética e cultural. Seriam os pontos principais a serem desenvolvidos. Por isso, tem uma importância o hip hop, grafite e outras alternativas, pois são populares e vinculados a idéia de cidadania, respeito e paz", concluí Luiz.



Fonte: Setor 3