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     INTERNET

Vários idiomas, a mesma língua

Por Marcelo Medeiros

Presidente da organização não-governamental dominicana Funredes, o marroquino Daniel Pimienta é um estudioso da Internet e defensor do uso social das novas tecnologias de informação e comunicação. Há oito anos à frente da organização, ele é um dos responsáveis pela implementação da rede mundial de computadores no Caribe e também pesquisador da variedade cultural presente nela. Mais especificamente, da presença das línguas latinas na Internet. O estudo mostra que há dez anos o inglês era a língua predominante nas páginas e trocas de mensagens, com mais de 80% do conteúdo sendo publicado nesse idioma. Hoje esse percentual já diminuiu bastante, mas ainda continua alto.

Para Pimienta, esse quadro é reflexo do pioneirismo dos norte-americanos e também do perfil dos usuários da rede, cuja maioria fala inglês. Porém, ressalta, é importante estimular a presença de outras línguas. Afinal, “como no campo biológico, é esta mesma diversidade que assegura ao planeta as melhores possibilidades de se adaptar e sobreviver”. Por isso defende o uso das novas tecnologias de maneira ativa, com produção de conteúdo próprio e não apenas de absorção do que é feito pelos outros.

Esses e outros temas são debatidos em uma lista de discussão com mais de 400 latino-americanos vindos de todos os setores e interessados no uso social das tecnologias de comunicação e informação. A Mística, como é conhecida, além de ser espaço de troca de experiências, também desenvolve metodologias de aplicação das possibilidades das TICs nos países em desenvolvimento.

Nesta entrevista, Pimienta comenta a importância da Mística e fala sobre como é possível aumentar a diversidade cultural na rede.


Rets - A lista Mística agrega gente de diversos países da América Latina e do Caribe para debater o uso das tecnologias de comunicação e informação na região. Como ela nasceu e qual seu papel hoje?

Daniel Pimienta - A rede Mística significa “Metodologias e Impacto Social das TICs na América Latina e no Caribe (http://funredes.org/mistica). É formada por pouco mais de 400 especialistas em TICs para o desenvolvimento, principalmente da sociedade civil (em proporção equilibrada, acadêmicos e ativistas), para se manterem informados sobre tudo o que acontece neste campo e debater o impacto social da Internet e das TICs para o desenvolvimento ou sobre a sociedade da informação, que preferimos chamar de sociedade dos saberes compartilhados.

Nos últimos anos, foi incorporado um número crescente de pessoas de governos e do setor privado, o que poderia evoluir progressivamente para um fórum multisetorial. Os números de composição da rede estão disponíveis em www.funredes.org/mistica/castellano/emec/produccion/estadisticas.html [em julho, havia 409 pessoas inscritas na lista].

A rede nasceu em 1998, quando Ricardo Gómez, recém-chegado ao Centro Internacional de Pesquisa para o Desenvolvimento [entidade canadense que apóia diversos projetos pelo mundo] como oficial de projetos, ofereceu-se para apoiar um projeto com essas mesmas linhas. A Funredes a atualizou e propôs vários projetos que havia formulado sem sucesso no período de 1996 a 98 e respondeu que preferia um grande projeto articulador. Assim nasceu esse projeto ambicioso tanto no plano metodológico, com várias experiências inovadoras [por exemplo, a Emec, metodologia utilizada na lista para manter o foco das discussões e evitar o excesso de informações] como no plano de conteúdo, procurando fortalecer os atores do campo (com a colaboração como eixo transversal).

É uma articulação de uma rede humana e de uma rede de informações com um laboratório de metodologias para a construção coletiva do sentimento de uma comunidade virtual. A Mística tem sido um dos faróis do setor, produzindo consensos sobre temas na região e explorando terrenos desconhecidos na colaboração. Um modelo do que se pode chamar de “projetos de processo”, de onde o caminho para atingir os objetivos às vezes importa mais do que os próprios objetivos, o que aumenta a importância de um tipo de avaliação permanente. A Mísitca criou uma cultura própria de trabalho em grupo e, nesse sentido, também é uma comunidade virtual de aprendizagem.

Há documentos coletivos que têm moldado poderosamente o pensamento da região e influenciado em nível global, como o “Trabalhando a internet com uma visão social” [a versão em português está disponível em http://funredes.org/mistica/portugues/ciberoteca/participants/docuparti/por_doc_olist2.html]. Há também esforços coletivos originais que envolvem de maneira criativa as pessoas [como "Utopista de la información", ver www.funredes.org/mistica/castellano/ciberoteca/tematica/utopista]. Atualmente, a Mística está buscando sua autonomia e sustentabilidade. Ruma em direção à constituição de um Centro Virtual de Aprendizagem sobre o impacto social das TICs, tratando de se orientar para contribuir para a brecha educativa neste tema tão importante para o futuro da região.

A Mística também terá em breve uma nova página (www.mistica.net) e pretende, em coordenação com a Rits, aumentar sua presença, seus conteúdos e impactos no Brasil e no Caribe, criando pontes de articulação com a rede Civic (www.dgroups.org/groups/icacaribbean).


Rets - Como foi feita a pesquisa sobre a diversidade de idiomas na Internet?

Daniel Pimienta - Esse é outro projeto pioneiro da Funredes (http://funredes.org/lc), pois desde 1996 somos praticamente a única entidade que publica uma medição da presença de idiomas na web, com metodologia documentada.

A metodologia combina o uso dos motores de busca da web com um trabalho lingüístico e estatístico. Tornou-se um conjunto de conceitos de significado e alcance equivalentes nos idiomas da pesquisa e mede seus pesos respectivos com os motores; a partir desses dados se constroem resultados pelo método estatístico. Para atingir esta quase equivalência de sentido e alcance foi feito um denso trabalho lingüístico, o qual está documentado em www.unilat.org/dtil/LI/#pt.

Também temos uma primeira aproximação a uma medida de culturas na Internet, consultável no mesmo endereço, e que oferece dados de tendências interessantes de observar, ainda que com uns critérios de medição aproximativos.


Rets - Há anos a Funredes faz pesquisas sobre o uso das línguas latinas na Internet. No início da rede de computadores, o inglês era praticamente a única língua utilizada no ciberespaço. Como está a situação de outros idiomas na Internet hoje? Seu crescimento tem acompanhado a inserção dos países latino-americanos na rede?

Daniel Pimienta - A evolução é que o número de usários anglófonos das redes, que já chegou a 80%, hoje em dia representa menos de 40%. Paralelamente, a porcentagem de páginas em inglês ultrapassou uma cifra superior a 90% no nascimento da Web, em 1994, e tem representado menos de 50% nos últimos anos.

O que não tem mudado, apesar do fato de a Internet ser um fenômeno caracterizado pela extrema velocidade de evolução, é a imagem que os meios de comunicação tradicionais oferecem de que este espaço foi criado pelos EUA e reflete seu domínio em todas as suas vertentes (aliás, continua circulando a cifra de 80% das páginas em inglês, contra todas as evidências). As duas afirmações são incorretas.

Se por um lado é certo que o protocolo TCP-IP (Internet) nasceu no Departamento de Defesa dos EUA, por outro as redes (da Internet) se constituíram historicamente sob uma variedade de protocolos e os aportes sociológicos na história da rede (como a “netiqueta” ou as diversas ferramentas de conferência eletrônica que permitiram o surgimento das comunidades virtuais, aportes mais importantes que o substrato técnico) são historicamente globais e de origens diversas.

À medida que os usuários de diferentes países e línguas se apoderam do meio, a demografia da rede muda. Assim, o crescimento do espanhol e do português foi obtido em um segundo momento (depois que Espanha e Portugal começaram) pela América Latina e no Brasil, que permitiram que a porcentagem de páginas nesses idiomas crescesse de menos de 2,5% para 5%, no caso espanhol e de menos de 1% para 3%, no português.

Um dos resultados surpreendentes de nosso estudo foi que há um tipo de proporcionalidade entre o crescimento de usuários em uma língua e o de páginas na mesma língua. Outro resultado inusitado foi descobrir que o Brasil, em 2001, produzia mais páginas em espanhol do que muitos países da região! [os dados estão em www.funredes.org/LC/L5/valladolid.html]


Rets - É possível dizer que o inglês, hoje, é a língua oficial da internet?

Daniel Pimienta - “Língua oficial” no sentido de que os organismos de governo da internet usam exclusivamente esse idioma apesar de os organismos internacionais tratarem, em geral, de oferecer mais opções? É possiível dizer que sim, mas também é evidente que isso será mudado a curto prazo.

“Língua de fato”, no sentido de que é preciso usá-la para trocar mensagens ou navegar na Web? Não é o caso, ainda que haja interesses em levar adiante esta confusão sobre a presença do inglês na Internet. Creio que é, para muitas línguas, hoje em dia, totalmente razoável usar seu idioma para participar de muitos fóruns virtuais e para publicar informação na Web. Não é o caso, infelizmente, para todas as línguas e, em particular, para as línguas indígenas, tanto na África quanto na América Latina. É preciso trabalhar isso.

Não se pode esquecer que só 11% da população mundial entende inglês (apesar de ser certo que, segundo as características socioeconômicas dos primeiros internautas, esta cifra deve ser muito mais alta na população da Internet). Na medida em que o acesso à Internet se democratiza, o espaço do inglês terá um valor, talvez, não de 11%, pois é uma língua de veículo entre populações em muitos países, mas bastante inferior a 50%.

Há uma forte contradição que muitas pessoas assumem sem se darem conta ao pretenderem lutar contra a brecha digital e, ao mesmo tempo, pensarem que o inglês deve conservar seu predomìnio como língua da rede.


Rets - Como se encontra o debate sobre a diversidade das línguas na Cúpula sobre a Sociedade da Informação?

Daniel Pimienta - Em minha opinião, se possível, apenas dois temas deveriam ser tratados e o resto, esquecido na Cúpula. São eles: “propriedade intelectual” e “diversidade cultural”. Porém esses dois temas essenciais são justamente os que provocam mais reações por parte dos EUA.

Em primeiro lugar, porque os interesses econômicos globais preferem o status quo, apesar de a cada dia ser mais evidente todo o sistema de proteção de direitos autorais e das patentes ter sido inventado em uma época muito distante do paradigma de espaço-tempo que estamos vivendo. Eles deveriam pelo menos ser repensados para adaptá-los à nossa nova realidade em que produtos ficam obsoletos em um ou dois anos e em que a Internet dá um sentido extraordinariamente concreto ao conceito de domínio público de conhecimento como motor de desenvolvimento da humanidade.

Segundo, porque é um mal-entendido fundamental sobre o qual se fixa a política dos EUA, em que, como conseqüência do predomínio econômico, muitos cidadãos não se deparam devidamente com a realidade da diversidade cultural deste planeta e não estão sensbilizados sobre o fato de que, como no campo biológico, é esta mesma diversidade que assegura ao planeta as melhores possibilidades de se adaptar e sobreviver.

Em relação ao desafio da diversidade cultural (note que prefiro esse termo mais amplo do que o da língua, pois, embora a língua seja um dos fatores-chave das culturas, não é o único e há pessoas que podem compartilhar as línguas, sem terem culturas similares), sou muito otimista e creio que a Internet será mais parte da solução do que do problema. O futuro imediato da rede é para refletir a diversidade e para permitir que seja percebida como uma riqueza. E não só como freio ao imperialismo da economia liberal em busca de tornar tudo mercadoria, em todos os espaços e todo o tempo.


Rets - Como é possível aumentar a diversidade das línguas na rede de computadores?

Daniel Pimienta - A resposta está, primeiro, no tema do acesso, entendido em seu sentido verdadeiro. Dar acesso à rede não é somente disponibilizar soluções técnicas e financeiras. É também educar para a cultura de rede e permitir funcionar dentro de sua cultura e seu idioma. Parte essencial desta cultura é possibilitar a compreensão de que ser usuário não é somente consultar informação alheia.

É também, e antes de tudo, produzir seus próprios conteúdos, que devem refletir sua língua e sua cultura. Ao mesmo tempo, a necessidade de pontes entre línguas e culturas é sentida e a rede é um lugar propício para criá-las na consciência de que o estabelecimento dessas pontes dentro de um marco de respeito mútuo entre culturas é a maior contribuição que pode ser feita à paz e à harmonia do mundo.


Rets - Quais são os maiores obstáculos para o acesso dos latino-americanos à rede?

Daniel Pimienta - A região obteve muitos progressos em relação à diversidade de opções de acesso tecnológico à rede (em particular com os telecentros). Sigo convencido de que a falta de educação é um obstáculo maior ao uso da rede com um sentido, à apropriação social das TIC, enfim, a uma aproximação da rede passível de carregar promessas de mudanças de paradigmas políticos e sociais. Não me refiro a uma simples capacitação técnica para o uso dos computadores em rede, mas sim a uma real educação da cultura da rede, que integra e inclui conceitos muito mais além da simples conectividades.

Estamos diante de uma profunda mudança de sociedade, as apostas são maiores e estou me referindo a uma educação que abrange tudo isso. Não se pode subestimar a necessidade e amplitude deste esforço, ainda que cada dia eu pense mais que isso não é um problema só para o Sul, mas uma situação igual em todos os países do mundo e que concerne aos cidadãos do mundo inteiro.

O mundo está mudando em alta velocidade, há apostas maiores ligadas à rede e com impacto potencial tremendo em nossas sociedades que estão decididas sem maior participação cidadã. A educação é o obstáculo maior quando o acesso físico está resolvido e o que está em jogo é a democracia participativa que a rede deveria permitir apoiar e transformar a realidade – uma aposta essencial para o futuro deste planeta e sua capacidade de superar os tremendos desafios ecológicos (uso este conceito em um sentido muito amplo, que inclui a ecologia da informação e uma ecologia das culturas), sociais e econômicos que estão à nossa frente.


Rets - Como estimular a produção de conteúdo nos países em desenvolvimento?

Daniel Pimienta - Duas linhas de ação – ou melhor: uma bem integrada: dar acesso aos usuários e educá-los, em particular, sobre a importância da produção de conteúdos. É possível adicionar muitos projetos de acompanhamento tratando de sistematizar a produção universitária na Web, concursos nacionais e regionais para capacitar pessoas de destaque etc.


Rets - Como a Internet pode ajudar a integrar a América Latina?

Daniel Pimienta - A cultura de rede é composta por uma cultura de colaboração. À medida que se consegue aumentar a massa de “usuários educados”, a colaboração fará progresso. O desafio passa, evidentemente, por um respeito mútuo às línguas: se o castelhano é a língua mais utilizada, o português está pouco atrás, o inglês e o francês são também línguas da região e é preciso dar espaço às línguas indígenas e ao creole, no Caribe. O Caribe, sempre esquecido, tem seus próprios desafios de integração e articulação com a América Latina.


Fonte: Rets - Revista do Terceiro Setor