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     URARIANO MOTA

Questões sobre literatura e Internet


Por Urariano Mota
La Insignia. Brasil, 2004.

Em recente debate público sobre literatura e Internet no Brasil, as questões a seguir foram postas à mesa. Ainda que eu não seja um conhecedor de literatura ou Internet, menos nesta que naquela, ou o contrário, não sei, o certo é que não resisti à tentação de compartilhar o quase nada que sei com as pessoas que me honram com a sua leitura.
A nova literatura vem da Internet?

Sim, vem e virá, mas não exclusivamente. Aliás, não há nem pode haver meio exclusivo para a manifestação do pensamento. A pergunta, se eu bem a compreendo, deve querer dizer:

a) Existe uma literatura que se tornou possível pela Internet?
b) Essa literatura possível nesse meio é o novo, é a nova criação?


Para a pergunta do item "a" respondemos:

- Sim, existe uma literatura que se tornou possível pela Internet. Ela vem nos blogs, nos sites, nos diários eletrônicos, nos mais diversos nomes com que se abre na rede. Sim, existe, porque a Internet abriu e fendeu e fez incisão no mundo fechado das comunicações. Ela, Internet, é um extraordinário avanço nas diversas tentativas que a criação fez para demolir o espaço antidemocrático de jornais, livros e editoras. Do folheto de cordel ao mimeógrafo, deste às edições independentes, destas ao livro do eu sozinho. E essa literatura existe porque ela somente pode se beneficiar da democracia do pensamento. Ainda que haja um argumento, que eu diria escandaloso e cínico, de que a criação é filha da repressão e da censura, e que sempre lembra os autores surgidos nas ditaduras, ou em regimes atrasados, eu, com os mesmos autores cujos nomes são insultados nesse argumento, sempre me lembro de que eles são o primeiro sinal de agonia do velho regime. Assim é a grande e imortal literatura russa, com Tolstoi, Dostoiévski, Turgueniev, Tchecov. Assim também, reconheçamos, a grande literatura é sintoma, quando não a própria agonia de um pensamento que não suporta o dirigismo. Os períodos mais férteis de mudança, de ares democráticos, sempre deram margem ao nascimento do que antes não podia viver. Na literatura, na música, nas artes em geral.

Para a pergunta "b" respondemos:

Não, a literatura surgida na Internet ainda não é o novo. Primeiro, porque nos falta ainda a distância do tempo - seria preciso um grande dom de adivinho, uma rigorosa intuição de bruxos, para ver o futuro que nos olha no presente. Segundo, porque não poderemos jamais cair na tautologia do dizer que o novo está na rede, porque está na rede, porque a rede é o novo, porque o novo é a rede... Terceiro porque o fazer literário exige, como todo fazer, um longo, muito longo aprendizado, que passa pelos livros tradicionalmente impressos, que passa pela maturação em silêncio, pela reflexão, pelos esboços e fracassos, pelo amadurecer físico e sentimental, pela vida, enfim, e isto não está on-line.

1) Que livros sairão da Internet?

Melhor seria perguntar, que livros têm saído da Internet? Seria mais sensato, ainda que mais cansativo, porque a resposta exige uma pesquisa com uma ferramenta muito além do Google. (E caberia aqui uma breve dissertação sobre os limites das ferramentas de busca em geral e do Google em particular, uma dissertação que Jesús Gómez, editor de La Insígnia, ainda nos deve.) Porque não bastaria listar os títulos, e esse "bastar", ainda que bastasse, traria algumas complicações, porque os títulos seriam listados a partir de palavras-chave, que são o complicador dos complicadores em qualquer busca. Supondo, mesmo assim, que vencêssemos esse obstáculo, ou seja, que nos disséssemos, "pronto, aqui tenho os livros publicados na Internet nos últimos 2 anos", ainda aqui levantar-se-ia, com perdão da desusada mesóclise, um obstáculo mais alto. A saber : que gênero é predominante, que visão, que mundo, que fazer é dominante entre os "n" livros que se publicam. E isto, por sua vez, remeteria a uma indagação que ainda não está resolvida on-line: o que é mesmo literatura? Desde Aristóteles, o que é literatura? E outra, mais adiante: e isto, o que se publica, é literatura? Outra, por fim: mudou a literatura, a Internet mudou o conceito de literatura?

Homem, quer saber do mais? O diabo inventou a pergunta.

2) Que escritos serão (e estão sendo) publicados on-line?

Acredito que a "resposta", dizendo melhor, as perguntas se encontram nas linhas imediatas à pergunta 2.

3) É possível se falar sobre uma nova geração de escritores brasileiros, em que a tecnologia teve um papel fundamental na criação (e propagação) de suas obras?

Os levianos responderão de imediato que "sim", que "sim", e já têm pronta a sua lista dos novos escritores revelados na Internet. Eu, que não sou menos leviano, mas tenho mais idade, prefiro diminuir a marcha do andor. Devagar, devagar, um pouco mais devagar, vamos analisar, enquanto tomamos fôlego. Vejamos.

É geral, é lei geral, ainda não enunciada, mas com freqüência observada, que as novas invenções, que as novas tecnologias sempre acabam por criar uma arte adaptada ao uso do invento. Assim foi com a máquina de Gutenberg, assim foi com a fotografia, assim foi com o cinema. O que antes era alumbramento, pura distração, novidade, pura máquina, transforma-se como uma insuspeita metamorfose, quando o homem geral, e com ele o artista, tem o domínio técnico da máquina. Ou seja, o homem passa a falar a partir daquela limitação, e de tal maneira fala que o anterior limite se transforma numa libertação, de linguagens e formas antes e jamais vistas. Que distância, e nos perdoem pelo amor de Deus o óbvio, que distância dos irmãos Lumière para Buñuel! E vejam que a distância no tempo entre o invento do cinema mecânico e a sua arte não foi tão grande. Se assim foi e tem sido com o cinema, com o saxofone ou com a fotografia, e nos perdoem a mistura heterogênea, assim será, ou tem sido com a Internet

Por enquanto, até onde a vista alcança, há uma geração de escritores on-line que faz do imediato, do instantâneo, um gênero - o que vale dizer, uma geração que usa, e usa com um sinal invertido, o que talvez seja a maior libertação do meio Internet: escrever como a luz de uma estrela, que muitos anos depois poderá ser vista como uma luz absolutamente nova. Ou seja, antes de ser imediato, o meio pode ser perene, como tecnologia unida à qualidade do pensamento. Que não pode ser, para assim ascender à luz que vemos tempos e muitos tempos depois, algo oposto e contrário ao amor do verso de Dante, aquela força não descrita por Newton, que move o universo e as estrelas.

Estas foram as respostas que pensei, e mal escrevi. Há uma outra interrogação, levantada pelo editor de La Insígnia: "Há dias, Saramago declarou que ninguém pode chorar sobre um teclado.... uma pergunta a ser feita aos escritores seria: mudou sua forma de escrever, ao passar da máquina ao computador?" Bueno, tomemos uma cerveja, ou um cafezinho. Comecemos pelo mais fácil.

O grande escritor português somente poderia estar brincando, ao dizer que a emoção, a comoção, rejeita o meio Internet. As lágrimas não vêm em transmissão direta de linhas em um papel. Sofremos ou nos comovemos com o que fala à nossa história. Talvez, quem sabe, procuremos sempre um meio confortável para abrigar o nosso corpo surrado. Uma rede física, nordestina, a se balançar num alpendre, um assento isolado num trem, uma cama, uma noite de chuva sem ninguém. Nesses casos, para o leitor, esse criador que lê, pode ser melhor de ouvir uma voz nas linhas escritas em um papel. Mas essas possibilidades ainda são precárias, porque é do nosso feitio o ambicionar mais. Queremos saber o sentimento e a dor que ainda não se escreveu numa folha. Então saímos da cama, e mergulhamos no que este computador mediatiza.

Vendo a coisa por outro lado, talvez Saramago se refira ao criador que escreve, e, à luz da própria experiência, generalize, porque acha que diante de um computador o homem é um impedido. O computador não tem a extensão do corpo que tem uma folha em branco. Não é o papel onde escrevemos cartas, alegrias, desabafos, maquinamos ternura e projetamos bombas. O fato elementar, se nos permitem uma observação prosaica, é que a folha se umedece com o que sofremos porque as lágrimas caem, ao passo que a tela diante do escritor somente seria atingida se chorássemos lágrimas de jacto, em jorro perpendicular aos olhos. Que nos perdoem a comparação. Mas para chorar não precisamos nos vestir a caráter. Também sofremos no banheiro, numa festa, no ar, nas nuvens ou na lua.

"É diferente", poderia ser dito. "Os lugares, as coisas, dialogam diferentemente conosco. O avião, o quarto, a cama, o teclado, o papel, comportam diferentes formas de sofrer". Bueno, aí a coisa realmente complica. Os escritores com mais de cinqüenta anos de idade sabem o quanto tiveram de amargar adaptações a meios diversos de expressar o pensamento. Ainda que não me sinta à altura de responder à pergunta do editor de La Insignia (e por que o faz?, um demônio me pergunta - mas não o escuto, e continuo), ainda assim, ao refletir sobre diferentes adaptações que travei, posso dizer:

A escrita no papel é mais íntima, em letrinha ilegíveis, quase cifradas. Vem daí a sua vantagem e desvantagem. Se todo escritor ouve uma voz, que lhe dita, "vai, desgraçado, é por aqui, vamos, infame, quem manda?", a voz que sopra ao ouvido quando se escreve numa folha é a de um demônio embrionário. Um diabinho revolto, a se contorcer, ainda sem forma definida. Uma coisa feia ou bela que ainda mal se apresenta. O protesto do carinho que não fizemos, o tiro que imaginamos lembrar - coisa bem indefinida, já se vê. A sua vantagem é que esta voz é o início da forma do que antes andava, perambulava, deambulava, à sombra vago vagava como um feto do que seria. A sua desvantagem é que esta é uma voz que tem de ser traduzida para o leitor. Tem que ser reescrita, e em mais de uma vez, reescrita, e reescrita. Quando escrevo, "amei naquele dia como nunca houvera amado", isto é nada, isto diz nada para quem me lê - isto é apenas uma declaração formal de cartório. No entanto, ao escrever isto, o demônio está a me dizer também um mundo de imagens e sentimentos que não têm escrita e gravação imediata. Uma luz, um paladar da pele, uma frase que se repete num eco, uma distensão do tempo que é um mergulho além dos minutos físicos do relógio mecânico. Se obedeço à voz que me grita esse mundo, farei como os surrealistas uma escrita automática, de registro. Mas isto, sabemos hoje, ainda não é para ser lido. Uma coisa, disto sabiam muito bem os tipógrafos dos originais de Balzac, uma coisa é a palavra escrita, outra, bem distinta, é a palavra límpida, clara, digamos, a palavra para o mundo. Nós não vemos o que pensamos antes de escrever, é certo. Mas também é certo que alcançamos a transmissão do que pensamos quando a letra deixa de ser a nossa caligrafia. Entre esses dois passos vai uma grande mudança, mais funda que a forma.

Então chega a máquina de escrever, e com ela, pelo que escrevemos até aqui, poderíamos dizer: então passamos a pensar claro! Se a coisa, que é a luta para expressar o pensamento, se a coisa fosse mecânica, tudo estaria resolvido. Aqueles passos primitivos, da letrinha miúda, manuscrita, que nem o autor entendia, agora se faz ao bater das teclas, que se imprimem num papel com a tinta de uma fita. Penso "amar", e bato nas letras do teclado, "Amar". E continuo, "Amar é....". Que belo, está bem claro e escrito, "Amar é...". Muito bem, muito mal, porque escrevo a seguir a maior vulgaridade. Por onde anda o meu diabinho íntimo? É o diabo, ele era um diabinho associado à letrinha do manuscrito. Concentro-me, naquela ocasião como agora, concentro-me como um médium a esperar uma possessão, que não vem. Vem, o mais safado dos idiotas sujos da lama dos infernos a completar a frase com toda sorte de porcaria. Mas tudo de modo muito claro, sem nenhuma dúvida. Então vejo que me sinto como um homem que faz amor diante do respeitável público. E por isto me sinto censurado, impedido. O pensamento, como o amor, não flui. Nem a frase, qualquer frase. Então acordamos, depois de muitas tentativas e papéis rasgados e jogados fora: o pensamento corre quando esquecemos o meio. Se alguém se diz, estou a escrever à máquina, entre mim e o papel existe esta máquina, ah, perca a esperança de ouvir o demônio, porque somente existirá o diabinho safado da máquina.

É claro que abstrair o meio ainda não é suprimi-lo, materialmente, nem tampouco fugir das diferenças que ele inaugura. Quem já viu uma prova tipográfica do livro de um escritor exigente pode imaginar o novo tipo de escrita que a máquina trouxe, para a fala de todos os demônios. São borrões, cheios de rabiscos, de puxadas, de setas, de imensos "xis" anulando, de acréscimos e riscos manuscritos. Em lugar da antiga voz do diabinho, o escritor ganhou um mapa dos infernos. Feito a quatro mãos. Com as duas primeiras que datilografam, e com as outras duas depois, uma a segurar o papel, outra a emendar, a cortar, a riscar, com a caligrafia desperta do sono. O grande e maior inconveniente dessa escrita foi o escritor perder a sua privacidade, o seu silêncio (o seu maior tesouro), porque mostrava a toda a gente que estava a escrever no momento mesmo em que escrevia. Toda a vizinhança acordava, devido às batidas violentas do teclado. E então ele voltava a fuckar em público. O que era uma desgraça, porque nem todo escritor tem o nome e natureza de Bukowski.

E vem o computador. A primeira conseqüência foi o desaparecimento do rastro, da pista, do registro das transformações da escrita até chegar à forma em que ela se publica. Antes, o escritor possuía rascunhos, papéis amassados, provas documentais do que penou para atingir um estágio legível. Agora, não. "Deleta-se", apaga-se, o que não se quer. E com isto perdem-se documentos importantes, as falhas, os erros da criação, que podem ser iluminantes do caminho final. A última conseqüência, e não menos importante, foi a de esgotar as forças de quem não está preparado para responder à pergunta, "o que mudou na sua forma de escrever, ao passar da máquina ao computador?"

Resposta, afinal: - Eu não sei bem se foi a passagem da máquina de escrever ao computador, da máquina à Internet. Eu não sei, amigos. Mas depois de 30 anos entre uma coisa e outra, eu posso dizer da excelência da qualidade que nunca tive. Acreditem, amigos, acreditem como acreditam nas possibilidades infinitas do inferno: creiam-me, este autor que lhes fala já foi muito pior.



Fonte: La Insignia