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     INTERNET

JORNALISMO ONLINE
Dez anos de esperanças e frustrações


Por Carlos Castilho (*)

A descoberta, uma década atrás, de que o jornalismo também podia ser praticado na (e pela) internet fez com que muitos fanáticos por tecnologia e alguns jornalistas visionários vislumbrassem, na época, cenários futuros revolucionários para a profissão.

Foi neste ambiente que, em abril de 1995, um seminário reuniu no Instituto Poynter, na Flórida (EUA), 17 pioneiros na produção online de notícias preocupados em separar o joio do trigo na avalancha de previsões que então variavam de um nirvana na comunicação à uma catastrófica Babel informativa.

A professora Nora Paul foi uma das organizadoras do seminário "Novos produtos noticiosos" e, agora, uma década mais tarde, ela abriu nova polêmica ao fazer um balanço comparando as expectativas de abril de 1995 com a realidade de 2005.

Nora selecionou oito grandes previsões de 1995:

1. A internet permitiria publicar um número infinito de notícias, coisa impossível na imprensa tradicional nos anos 1990;

2. Haveria uma demanda inesgotável por informações por parte dos usuários da web;

3. O uso do hiperlink permitiria saltar de uma notícia para outra entre diferentes publicações;

4. A informação jornalística deixaria de ser unidirecional para ter ida e volta;

5. A produção de notícias jornalísticas seria um processo cada vez mais transparente;

6. A popularização da internet geraria uma nova estrutura narrativa apoiada na não linearidade, na convergência de mídias e no abandono da pirâmide invertida com técnica para montar textos jornalísticos;

7. A notícia na web não morreria no dia seguinte e teria uma duração praticamente ilimitada;

8. Novos softwares permitiriam uma integração quase total entre palavras, texto e imagens.

Nora Paul tem uma visão pessimista em relação às expectativas criadas em torno do jornalismo online. Ela acha que, na maioria dos itens selecionados, as expectativas não se confirmaram e a realidade ficou aquém do previsto pelos participantes do seminário que ela idealizou, em 1995.


Troca de figurinhas

Não é preciso fazer muito esforço para perceber que nos itens 4, 5, 6 e 8 as expectativas alimentadas há dez anos não se confirmaram. Em compensação, os prognósticos foram ultrapassados na questão da avalancha informativa, no crescimento da demanda de informações e na durabilidade da notícia.

O problema da avaliação da professora é que todas as referências estão relacionadas à performance dos veículos de comunicação na migração do ambiente analógico para a internet. Em 1995, os gurus reunidos pelo Instituto Poynter criaram cenários baseados na expectativa de que o desenvolvimento do jornalismo online aconteceria basicamente dentro da estrutura das empresas de comunicação existentes na época – e de uns poucos empreendimentos novos exclusivamente digitais.

Ocorre que houve um fato novo – os blogs – que mudou tudo. A avaliação da professora Nora Paul é perfeita se ignorarmos que os blogs estão ocupando um espaço cada vez maior na oferta de informações em detrimento do espaço antes dominado pela imprensa convencional, que detinha o monopólio da produção e distribuição de notícias jornalísticas.

Quando incluímos os blogs dentro das opções informativas atualmente disponíveis, o quadro fica um pouco diferente do esboçada pela diretora do Instituto de Estudos sobre Novas Mídias, na Universidade de Minnesota (EUA). Os sites dos grandes jornais ainda evitam fornecer hiperlinks que permitam ao usuário visitar outros sites, mas isto é praticado intensiva e rotineiramente nos blogs, que não temem perder visitantes só porque remetem a outras fontes de informações.

O mesmo acontece com a ida e volta das informações, pois os blogueiros transformaram a produção de informações numa verdadeira conversa, ou troca de figurinhas, cuja velocidade é muito maior do que a dos processos investigativos normais praticados numa grande empresa jornalística.


Espaços ocupados

No item transparência os blogs também deixaram para trás a mídia convencional, embora ainda não tenham conseguido superá-la em matéria de certificação da credibilidade. A mídia convencional tornou-se mais transparente, entre outras coisas, pelo patrulhamento implacável dos "jornalistas de pijama" – segundo definição de um executivo da rede norte-americana de televisão CBS.

Nem os profissionais e nem os amadores conseguiram avançar muito na exploração e pesquisa de formas não lineares de narrativa, pois o texto na maioria esmagadora dos sites ainda é fortemente influenciado pela cultura da pirâmide invertida. Isto porque ninguém conseguiu, até agora, oferecer uma alternativa melhor na produção de textos noticiosos.

As previsões foram confirmadas, e até superadas, no item durabilidade da notícia. Os bancos de dados dos jornais transformaram-se em ativos altamente valorizados, a ponto de muitos investidores afirmarem que o empoeirado arquivo morto das redações tem mais valor comercial hoje do que o parque industrial dos jornais.

A esperada convergência de imagens, sons e texto ainda é um sonho porque os avanços nesta área dependem de pesquisas e experiências que custam muito dinheiro. Os jornais se mostram pouco interessados em investir na convergência porque acham que sairão perdendo e, além disso, já optaram por usar todos os recursos disponíveis para tentar garantir a sua sobrevivência.

As universidades teriam um papel-chave no desenvolvimento da convergência, mas com exceção de algumas instituições acadêmicas norte-americanas, em quase todos os demais países as faculdades de comunicação mostram-se lentas e indecisas na hora de definir pesquisas na área de novas mídias.

Restam os blogs, que também não podem ser considerados protagonistas-chaves na busca de convergência porque uma de suas características é a fragmentação, sem falar que são raríssimos os casos de sites pessoais que conseguiram chegar a auto-suficiência financeira no dia-a-dia.

Mas, apesar das limitações, os blogs estão se tornando peças obrigatórias na nova estrutura informativa que começa a ocupar cada vez mais espaços (antes dominados pela mídia convencional) no mundo contemporâneo.


O artigo "‘New News’ retrospective: Is online news reaching its potential?", de Nora Paul, publicado na Online Journalism Review, pode ser lido aqui, () (em inglês).


(*) Jornalista e editor do blog Código Aberto [em fase experimental]


Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br