:: institucional           :: projetos           :: serviços           :: sala de imprensa          :: parcerias          :: loja          :: contato     

CANAIS WOOZ

artigos
agenda cultural
artes visuais
cultura
cinema
dança
entrevistas
fotografia
internet
literatura
música
teatro
terceiro setor



Alberto Cataldi
Fernando Fogliano
Roseli Pereira
Valmir Junior



clique aqui e faça um cadastro para receber informações Wooz
     INTERNET

"Internet é aliada, não inimiga"

Copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 22/04/05

Carlos Chaparro


"O XIS DA QUESTÃO - Em tempos dominados pelo fascínio da imagem, a Internet representa o resgate do texto. E o que importa à discussão é o jornalismo de texto, qualquer que seja o seu suporte material (ou digital). Mas, para a organização das idéias, considero cada vez mais importante a separação conceitual entre ‘Jornal’ e ‘Jornalismo’. Jornal é negócio, tem de ser planejado e gerenciado com a perspectiva do lucro. Jornalismo é processo e linguagem com aptidões particulares, para que os embates da cultura e da democracia se realizem com sucesso.


1. Internet aliada, não inimiga

Volto ao assunto da semana passada (o fim do reino hegemônico dos grandes jornais) por impulso irresistível, devido ao alto nível e à intensidade do debate criado em cima do texto anterior. Um debate marcado pelo empenho em agregar idéias. E idéias que, convergentes ou divergentes, enriqueceram, e muito, a discussão sobre questões novas que as novas tecnologias, e seus efeitos culturais, colocam ao jornalismo.

Ficou demonstrado: em proveito das idéias, sem medo da exposição inerente à participação em debates públicos, e sem renúncias à demarcação de lugares próprios no espaço da polêmica, é possível discutir com polidez, inteligência e senso crítico.

Para aprender com o debate, imprimi os comentários. Reli-os mais de uma vez. E cheguei à conclusão de que, por falha minha, algumas questões colocadas no texto transitaram mal entre o implícito e o explícito, gerando, aqui e ali, equívocos de entendimento - razão suficiente para voltar ao tema e às idéias da semana passada.

Em primeiro lugar, devo esclarecer que em nenhum momento pensei, propus ou defendi o fim do jornalismo impresso. Ainda assim, foi ótimo que a provável ambigüidade do meu texto tenha levado o colega Antonio Goulart a nos dizer que não acredita no fim do jornalismo impresso em curto espaço de tempo. Nem eu, Goulart.

Entretanto, aproveito a deixa para dizer que considero essa uma questão menor. O que importa não é o jornalismo impresso, mas o jornalismo de texto, qualquer que seja o seu suporte material (ou digital) e o seu cheiro. Também sob esse ponto de vista, a Internet não representa qualquer ameaça ao jornalismo impresso. Ao contrário: em tempos dominados pelo fascínio da imagem, a Internet representa, de alguma forma, o resgate do texto. Por outro lado, é sempre bom lembrar quer a Internet deve ser entendida e tratada como aliada, não como inimiga do jornalismo impresso. Estou até convencido de que, graças à Internet, aproxima-se o tempo em que poderemos, de alguma forma, ‘imprimir’ em nossa própria casa o jornal que nos convém, contendo apenas o que nos interessa ler.


2. ‘Jornal’ e ‘Jornalismo’

Há outras razões para entender e tratar a Internet como aliada do jornalismo impresso. E uso como argumento de demonstração a realidade nova em que o sempre surpreendente Talis Andrade toca, ao nos lembrar, naquele comentário escrito em elegante francês, que, por apenas dois euros por mês, é possível a qualquer cidadão europeu ler diariamente Le Figaro no telefone portátil. Isso é a Internet: uma fantástica tecnologia de difusão que favorece, particularmente, os meios impressos - porque lhes garante a possibilidade de alcançar leitores em qualquer parte do mundo, simultaneamente. Essa maravilhosa possibilidade, que já faz parte da ‘realidade digital’ do nosso tempo, sinaliza uma definitiva ruptura cultural com os velhos costumes de busca e leitura da notícia. E anuncia uma nova possibilidade de economia de escala, para o ‘negócio jornal’.

Ao falar em negócio jornal, aproveito para propor a separação conceitual entre os objetos ‘jornal’ e ‘jornalismo’. Para a organização da discussão em que estamos envolvidos, considero cada vez mais importante essa separação conceitual. Se não separarmos os conceitos, corremos o grave risco de produzir uma discussão confusa e insolúvel.

Jornal, tal como o conhecemos, é objeto concreto, material, negócio. Como negócio, tem de ser planejado e gerenciado com a perspectiva da viabilização econômica. Ou seja: tem de dar lucro. E aqui se encaixa, com perfeição o comentário de Thomaz Magalhães, quando diz: ‘O risco, na verdade, é faltar patrão, faltar empresa que sobreviva’.

Jornalismo é outra coisa, objeto abstrato, processo de aglutinação e elucidação dos conflitos que constroem a atualidade - e, como tal, linguagem com aptidões e características particulares, para a narração socializadora do que de relevante acontece, e para a elucidação dos fatos, pela polêmica entre argumentos. E assim serve os embates da cultura e da democracia, para que aconteçam e se realizem com sucesso.

Ou seja (parafraseando o velho companheiro Talis Andrade, que há anos não revejo): jornal é tarefa para empresários e empreendedores; jornalismo se faz com jornalistas.


3. Relações de poder

Claro que a relação entre os dois objetos (jornal X jornalismo) é uma relação conflituosa. No Brasil, como no resto do mundo. No fundo, no fundo, trata-se do conflito entre as razões da sociedade (à qual o jornalismo pertence, assumindo-a como razão de ser) e as razões dos empresários (aos quais o ‘negócio jornal’ pertence). Conflito complexo, diga-se, que exige normas mediadoras, para estabelecer e organizar, por exemplo, relações de poder entre a redação e as diretorias das empresas. Usando o exemplo, é o que acontece na Europa, com as Comissões de Redação, os Estatutos Editoriais e a chamada cláusula de consciência.

No Brasil, onde infelizmente ainda faltam instrumentos desse tipo (precariedade grave da democracia brasileira), o jornalismo está desprotegido, o que explica boa parte da amargura e da desilusão com que tantos de nós olhamos e comentamos o nosso cenário jornalístico.


E por aqui fico, deixando para o próximo texto a discussão sobre a preponderância das formas no atual jornalismo impresso brasileiro - outra questão fundamental desta nossa discussão, levantada por Iracema Torquato, Pérola Cardozo, Júlio Roldão, Guilherme Cardoso, Talis Andrade e outros debatedores do texto anterior."


Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br