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     ENTREVISTA

O Consultor do Sebrae/SP, Ary Scapin, fala sobre parcerias, resultados e a atuação da entidade no Mercado Cultural nos últimos quatro anos


Por Marcos Fávero

divulgação Wooz - Para começar, gostaria que você falasse um pouco sobre a sua experiência profissional na área Cultural.

Ary Scapin - Eu sou formado em administração de empresas, mas antes disso sou formado em teatro. Não exerço a profissão de ator, mas juntei os meus conhecimentos na área de cultura que vivenciei na década de 80 com a administração e canalizei para a gestão da área cultural, (projetos e carreira). Isso me deu ferramentas para desenvolver esse mercado, disponibilizando aos interessados, serviços e produtos específicos para que vejam a cultura como negócio. Sem querer generalizar, a maioria das pessoas que trabalham com cultura não tem noção de como é fazer uma gestão ou entende o ciclo de vida de um projeto.


Wooz - Qual a função exata do Núcleo de Cultura dentro da entidade Sebrae/SP, e qual a relação com o mercado cultural?

Scapin - Não existe mais um Núcleo de Cultura. Esta área faz parte de um departamento setorial. Isso é bem legal porque o Sebrae deixa de discriminar a cultura, inserindo-a dentro da economia formal, passando a enxergá-la como um setor produtivo. Até quatro anos atrás não existia essa visão, mas hoje, para nós, está muito claro que cultura gera negócio, gera divisas e tem grande poder de criação de emprego e renda. Nosso diferencial é que não somos produtores e sim capacitadores, catalisadores, disseminadores e principalmente, geradores de informação. Quando fazemos seminários, mesas redondas, cursos e consultorias, estamos alimentando este mercado carente com dados específicos sobre ele.


Wooz - Há alguns anos atrás houve uma aproximação entre a Associação Brasileira da Música Independente (ABMI) e o Sebrae/SP, fale um pouco sobre essa parceria, se ela ainda existe e quais os resultados que já podem ser medidos?

Scapin - Existe. E a idéia é ter cada vez mais parcerias como essa. A ABMI representa um grupo de gravadoras independentes, em sua maioria, sediadas em São Paulo, mas com representantes no pais inteiro, que se aproximou do Sebrae/SP para trabalhar e disseminar o conhecimento em conjunto. Isso acontece não só com a AMBI, mas também com a Liga Brasileira das Editoras (LIBRE) que possui mais de 70 associados e a Central de Circo. Especificamente com a ABMI, a parceria já dura três anos e está baseada em três fortes pilares: informação, formação e mercado. No primeiro pilar, o Sebrae aglutina, produz e dissemina informação; no segundo, oferece cursos específicos para a área; no terceiro busca fórmulas de ampliar o escoamento da produção dessas empresas. Portanto, o resultado pode ser medido através do fortalecimento da comunicação entre elas, da troca de experiências e da ampliação do canal de escoamento da produção, como na Feira da Música de Fortaleza, no Midem, na França, onde participamos duas vezes, e no projeto Rumos Itaú Cultural, através de encontros para disseminar a importância da capacitação, do conhecimento e de uma postura mais profissional para esta área.


Wooz - Você acha que esse mercado tem potencial de crescimento e qual será a postura do Sebrae/SP no decorrer desse processo?

Scapin - Tem muito a crescer. Nós somos o grande fomentador desse mercado mesmo não detendo o conhecimento dessa área. Dependemos das informações trazidas pelo setor para que possamos trabalhar corretamente. Para se ter uma idéia, o Sebrae/RJ patrocinou juntamente com a PUC, o Instituto Gênesis e uma série de outras entidades, um estudo da cadeia produtiva da música no Rio de Janeiro, que é um projeto importantíssimo para se conhecer profundamente o mercado e que queremos aplicar aqui em São Paulo e encontra-se em fase de negociação. A ABMI tem muito para crescer porque, tirando as grandes gravadoras (majors), todo o restante do mercado é ocupado pelas independentes, sejam elas com um ou mil títulos no catálogo. Imagine o potencial de crescimento do selo que possui poucos títulos. Veja o exemplo do grupo Barbatuques: eles eram conhecidos por poucas pessoas até lançarem um Cd por uma gravadora independente, a partir dai, passaram a ter uma projeção impressionante tanto no Brasil como no exterior e já estão produzindo o segundo Cd. Se vender muito, podem ser absorvidos por uma major, aí, a independente terá cumprido um de seus papéis que é lançar novos talentos, área abandonada pelas multinacionais.


Wooz - Todos sabemos que o grande gargalo da produção musical nacional está na distribuição. A ABMI está preocupada com este fato? O Sebrae/SP está dando algum apoio logístico?

Scapin - Essa é uma responsabilidade da ABMI mas, se for preciso, terá o apoio do Sebrae/SP, afinal, apoiamos o projeto como um todo. Hoje estamos desenvolvendo uma parceria de longo para a identificação e desenvolvimento de novas formas de distribuição. É sabido que a venda de Cds diminuiu muito, por isso a ABMI precisa desenvolver novas estratégias de atuação para não perder mercado. Tal fato gerou uma aproximação com os independentes da Inglaterra, do Japão e da Espanha, com o objetivo de juntar forças para a divulgação de artistas brasileiros.


Wooz - Há uma participação institucional do Sebrae/SP no imbróglio entre músicos, Ordem dos Músicos e Ecad?

Scapin - Não. Existem outras pessoas e instituições atuando nessa área. Mas se houver necessidade, sem dúvida daremos apoio.


Wooz - O Sebrae/SP desenvolve parcerias com a área de moda. Este seguimento está se transformando num exportador de talentos? Para você moda é Cultura?

Scapin - No setorial, nós trabalhamos com cadeias produtivas. E a confecção é muito atraente, o Sebrae/SP dedica esforços para que essa área tenha a melhor evolução possível. Eu não posso falar para você sobre produção ou industrialização, pois é uma área que eu não domino, mas posso falar sobre a criação, que é o início da cadeia produtiva da confecção. A criação de moda é encarada pelo Sebrae/SP como cultura, acreditamos que pode ser criado um grande diferencial da moda brasileira a partir do momento em que novos estilistas abram os olhos para a diversidade cultural brasileira. Por exemplo, o I Sebrae Moda que aconteceu em 2003, foi todo voltado para a disseminação do que é feito no Estado de São Paulo com o artesanato, cultura e turismo. Convidamos o estilista Mário Queiroz, que conheceu todo o trabalho que o Sebrae/SP faz de resgate histórico e cultural e desenvolveu duas oficinas para alunos de universidades de moda, transformando o evento num grande sucesso. Além dele, todos os palestrantes vieram com esse briefing sobre o diferencial para novos estilistas. Outro exemplo está na parceria com o consórcio de moda praia na região de Santos, que já negociou a produção de um estudo da iconografia da mata atlântica, que envolve toda a região do litoral, para ser aplicado nos tecidos que serão usados na confecção dessas peças. Apoiamos também o Fábrica Morumbi, que é um projeto da Faculdade Santa Marcelina, Morumbi Shopping e Sebrae/SP. Acreditamos que se bem elaborado o trançado estrela, que é produzido na cidade de Olímpia, pode se transformar num acessório de moda, ou a cerâmica de Apiaí pode vir a fazer parte da coleção de um estilista. Quando um estudante sai de uma universidade de moda, pode inserir uma comunidade como a de Apiaí na cadeia produtiva nacional, melhorando a qualidade de vida, interferindo de forma positiva nessa comunidade. Então, para nós do setorial, moda é um grande nicho pois, se bem direcionado, pode criar um diferencial para a moda paulista e evidenciar o nosso trabalho, cumprindo a missão do Sebrae que é desenvolver novos postos de trabalho e renda.


Wooz - Você acha que uma das saídas para a produção cultural é a união de artistas e produtores em associações ou entidades representativas?

Scapin - É a grande saída. Existem outras formas, mas eu entendo que se você não fizer junto, você está fadado a fazer menos. Portanto, quando eu penso numa associação ou entidade, vejo a oportunidade de se formar uma grande rede de relacionamento, como a Rede de Agentes Culturais de São Paulo (RAC). Se o seu negócio é moda, você pode muito bem fazer negócio com um profissional da área de teatro ou arquitetura. Isso te dá a possibilidade de diversificar seu trabalho, sair dos guetos. O segredo é digerir o conhecimento de outras áreas e aplicar no seu trabalho. Se você fizer isso, estará anos luz a frente de outros profissionais. Essa é a vanguarda. Eu não consigo enxergar alguém crescendo trabalhando sozinho. É lógico que existem talentos natos que se desenvolvem sozinhos, mas são exceções. Os produtores culturais que procuram o Sebrae/SP não são pessoas com destaque na mídia, são profissionais que estão começando, pequenos agentes culturais em busca de apoio, para eles, o caminho é sem dúvida uma rede de relacionamento.


Wooz - Quais as características básicas para que alguém se torne um bom produtor cultural?

Scapin - Ele tem de ser um profissional em constante processo de formação. Um produtor cultural não pode estagnar e achar que sabe tudo. Ele tem de investigar, buscar informação, tem de se superar, ter uma postura empreendedora. Eu sinto, depois de quatro anos de atuação na área de cultura dentro do Sebrae/SP, que as pessoas que chegavam não imaginavam o que era ter uma postura pró-ativa, não entendiam o funcionamento do mercado cultural, que aliás, é exatamente igual a qualquer outro segmento da economia, se você não se colocar de forma profissional, você não chega a lugar nenhum. Na realidade, o produtor cultural deve possuir um mix de conhecimentos específicos e gerais, que possibilitem a ele a navegação por qualquer segmento dessa área. É impossível formar um produtor cultural na universidade, ele se forma na experiência do dia-a-dia. Há quatro anos atrás, quando perguntávamos a um produtor que nos procurava se ele tinha um plano de trabalho, um planejamento estratégico do seu projeto, um estudo de mercado para saber se o seu projeto seria bem aceito, todos achavam que estávamos burocratizando. E está provado que se um produtor não tiver esses conhecimentos, seu projeto correr sérios riscos de naufragar. Pegue o exemplo de um selo que quer lançar um Cd de música gospel. O produtor deve saber se o mercado está consumindo esse tipo de música. Se qualquer um que entre no mercado é bem visto. Se o canal de distribuição é fácil e quais são os números desse mercado. São perguntas básicas que o produtor deve saber responder para não correr o risco de cair no ostracismo total antes mesmo de existir. Portanto, para ser de ponta, o produtor deve ter uma postura pró-ativa, buscar informações e, acima de tudo, ser um empreendedor.


Wooz - Os produtores que atuam no mercado cultural estão suficientemente capacitados?

Scapin -Acho que não, pois, como já afirmei, o produtor deve reciclar seus conhecimentos constantemente, deve se capacitar sempre. Se eu usar o Sebrae/SP como exemplo, posso afirmar que existe uma percepção maior sobre o nosso papel no mercado, que é o de capacitação e disseminação de informações e não o de produtor. Portanto, só nos procuram, produtores que tenham entendido que o mercado cultural é muito mais que o desenvolvimento de um projeto, e sim, a junção de vários conhecimentos específicos que podem viabilizar a execução de uma idéia. Partindo-se desse pressuposto, houve, sem dúvida, uma conscientização maior desses profissionais, mas não podemos esquecer que nossa área de atuação ainda é muito limitada e que para um produtor querer crescer, ele tem de ter a consciência de que há muito a aprender. Não dá para capacitar quem não quer ser capacitado, ou se acha pronto para enfrentar o mercado.


Wooz - Você acha que a cultura está atrelada irremediavelmente a patrocínios apoiados em Leis de Incentivo?

Scapin - Infelizmente acho que sim. Nossa função é demonstrar que não. É claro que não devemos negar as leis de incentivo, elas estão aí, são importantes ferramentas e acho legal que elas existam, mas devem ser melhor trabalhadas. O ministério da Cultura vem tentando melhorar a Lei Rouanet, mas ela não deve ser encarada como política cultural e sim como incentivo. Nós temos um curso aqui no Sebrae/SP que se chamava Leis de Incentivo, e agora, depois de uma grande reformulação, passou a se chamar Investimento em Cultura, para que as pessoas entendam que a lei é um caminho, negociação é outro, investimento é outro e empréstimo outro. Nossa intenção é desmistificar a teoria de que sem lei de incentivo não se faz cultura. Ela é importante? É. O Estado falha em suas políticas? Falha. Então vamos procurar novos caminhos.


Wooz - Você entende que a Lei Rouanet deve mudar?

Scapin - Tenho certeza que sim. Eu participei, com muito empenho e carinho, do início da gestão do Ministro Gilberto Gil, através de vários encontros para a discussão de mudanças na lei. Acho que seu formato atual beneficia poucos e o retorno é elitista. Acredito que recursos públicos devem trazer resultados públicos. Uma peça de teatro que tenha incentivo de uma lei não pode custar R$60,00 ou R$ 90,00 o ingresso, ela tem de chegar para mais gente. Temos parceria com o MinC aqui de São Paulo para o desenvolvimento de estudos mais detalhados para os pequenos empreendedores que nos procuram, mas ainda não foi aplicado.


Wooz - Existe algum dado que mostra o tamanho mercado cultural, ou seja, quantas empresas investem em cultura e quantas tem condições de investir e não investe? Quanto representa do PIB? Até onde pode crescer?

Scapin - A última pesquisa que temos é de 1998. Ela demonstra que a cultura representa 1% do PIB nacional, mas como se vê, esses dados já estão desatualizados. Saiu uma matéria na Folha de S.Paulo há um tempo atrás, em cima de uma pesquisa da Price Waterhouse, mostrando que a economia gerada pela cultura crescerá quatro vezes mais que a economia mundial nos próximos quatro anos. Isso mostra a importância que ela tem no mundo todo. Nessa pesquisa eles citam música, games, moda e literatura. Isso nos dá o parâmetro exato sobre o aquecimento do mercado. Nós desenvolvemos uma pesquisa no Estado de São Paulo, que deve estar pronta logo, que analisa o investimento em cultura de pequenas e medias empresas, por que investem ou não. O resultado foi surpreendente. Essa pesquisa vai nos dar subsídios para desenvolver produtos e serviços para esse mercado e fazer que o pequeno e o médio entendam que é necessário ter um canal de comunicação com a cultura e usar isso como um diferencial, que é um dos benefícios do marketing cultural, mesmo sem a tutela da Lei Rouanet. Todos devem procurar outros caminhos, outras alternativas de investimento, outra forma de aplicação nesse mercado.


Wooz - Muito obrigado pela entrevista.

Scapin - Eu é que agradeço.