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     ENTREVISTA
EU CONTO HISTÓRIAS
por Eduardo Maretti


O fotógrafo Sebastião Salgado é, com certeza, um dos brasileiros globalizados. Já retratou a vida de todas as partes do planeta. A em situação de miséria e desencanto. Mas nesta entrevista especial para Fórum o tema é outro: esperança

É comum ouvir que a um dado momento de sua vida (em 1973), num lance aparentemente casual, ele trocou a economia pela câmera. Não é bem assim. Sebastião Salgado reconhece que sua obra fotográfica é o trabalho de um contador de histórias. Mas suas preocupações não se dissociam do ideário do homem que fez doutorado em economia pela Universidade de Paris, concluído em 1971. Ao discorrer sobre suas esperanças de que o Brasil, com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, esteja iniciando um processo histórico que indique a direção de uma verdadeira democracia pela redistribuição de renda, não deixa de enfatizar a lógica perversa que move o setor agrícola brasileiro, segundo ele o grande problema do país: "Temos que exportar soja, e para exportar temos que produzir em agrobusiness , que destruiu grande parte do cerrado brasileiro para produzir soja". Ao contrário do que reza a cartilha do economês atualmente em voga, Salgado contesta: "o agrobusiness é retrógrado".

Sua obra fotográfica é extensa: trabalhou para as agências Sygma (1974-1975), Gamma (1975-1979) e Magnum (1979- 1994). De suas milhares de fotos de povos indígenas da América Latina, populações em êxodo e trabalhadores humilhados resultaram os livros Outras Américas, Trabalhadores (esgotado) e Êxodos , todos pela Companhia das Letras. Sebastião Ribeiro Salgado nasceu em Aimorés (MG), em 1944. Mora "meio em Paris, meio aqui", mas seu trabalho exige deslocamentos permanentes pelo planeta. Nesta entrevista exclusiva, concedida por telefone de Vitória (ES), na véspera de mais um de seus muitos embarques a Paris, no final de novembro, explica por que está otimista com os rumos apontados pelas eleições de 2002.

Lula e a esperança
Vejo com muito boas perspectivas a eleição do Lula. Inclusive, foi muito interessante, porque quando ele se elegeu eu estava nos Estados Unidos, participando de um fórum de fundações progressistas chamado Bioneers, que reúne pessoas ligadas às questões ambiental e social. Apesar de a gente ter uma crítica muito forte em relação à posição oficial do governo norteamericano, existe grande quantidade de norte americanos seriamente preocupados com o problema de distribuição de renda no mundo, com o problema social, o problema da posição do governo deles em relação ao resto do mundo. A expectativa, a esperança é muito grande, porque, na realidade, é o governo que foi melhor eleito de todas as esquerdas do mundo, o que acontecer aqui vai ter influência, necessariamente, na América inteira. E hoje há uma expectativa, de todo mundo que está preocupado com a justiça social, de que a gente possa, talvez não ter uma solução já nos quatro anos próximos, mas pelo menos começar a visualizar em que direção podemos ir numa perspectiva melhor para este país. Isso, para mim, dá muita esperança. Não é só uma questão para a esquerda, é para o país como um todo, uma questão para o mercado, para os investidores e, claro, de uma outra maneira de viver do nosso povo. É a primeira vez na história do Brasil que temos um presidente eleito que não vem das elites, porque mesmo um presidente originário da esquerda, como no caso de Fernando Henrique Cardoso, que é alguém que respeito, que tem uma formação brilhante, que poderia ter feito um governo colossal, mas é uma pessoa que vem das elites, com certa deformação de classe. Esse homem que chega ao poder hoje [referindo- se a Lula] já foi proletário, passou dificuldades imensas, sofreu toda a pressão do sistema, sabe onde é que dói.

A minha grande esperança é que a gente vá em direção a um modelo de agricultura familiar. Milhões de pessoas participando do sistema produtivo, recebendo renda desse sistema, sendo integradas como cidadãos no sistema de mercado. Que passem a consumir educação, saúde, cultura e bens de consumo

O fotógrafo contador de histórias
Quando fiz as fotografias do atentado ao presidente Reagan [março de 1981], já era fotógrafo da Magnum, a maior agência de fotografias do mundo. Na realidade, sempre fui contador de histórias. Minhas histórias sempre foram ligadas ao momento histórico. Fui um dos fotógrafos que mais publicou sobre a Bósnia, porque estava trabalhando com refugiados, e a história principal na Bósnia era de deslocamento de população. No caso do atentado à Ronald Reagan, foi muito especial, estava fazendo uma reportagem pontual, o balanço dos cem primeiros dias dele como presidente dos Estados Unidos. Toda a história aconteceu um pouco por acaso; e eu estava lá, claro, na hora do atentado. Mas não posso dizer que na minha vida fui um fotógrafo de atualidade, que trabalhei em jornalismo puro e duro. Sempre trabalhei em histórias, e elas vão se anexando umas às outras, formando assim a maneira de viver do fotógrafo.

Distribuição de renda
Quando se toma o PIB brasileiro e se divide pela população tem-se uma renda per capita considerável. Em Moçambique e Zambia é em torno de 200 dólares, no Brasil é próxima de 2 mil dólares. O nosso problema é a divisão de renda. Nesse ponto, Lula terá um apoio internacional enorme. Os mercados do norte estão saturados, e nosso país oferece ainda uma perspectiva de desenvolvimento muito grande. Temos um setor secundário bastante importante, e com grande agressividade comercial, capaz de produzir aviões, navios, automóveis etc. Temos um setor de serviços colossal. Um sistema comercial interessante, um sistema de empresas brasileiras prestando serviços no mundo inteiro. O nosso grande problema está no setor agrícola, que ainda têm características feudais. Existe um engano que as pessoas cometem no Brasil, imaginando que os EUA e os países da Europa, pelo fato de tradicionalmente serem conservadores, irão apoiar as forças de direita do nosso país. De forma alguma vão apoiar, porque a direita tradicional no Brasil é concentradora de renda. Então, se a futura política governamental for no sentido de uma redistribuição de renda, Lula vai ter apoio. Durante a visita ao Brasil do senhor James Wolfensohn, presidente do Banco Mundial, no final de novembro 2002, todo seu discurso foi em torno da luta contra a pobreza. E a luta contra a pobreza é necessariamente pela redistribuição de renda.

A cultura não pode ser dissociada do mundo em que vive. Precisa ter comprometimento. Não estou falando em comprometimento militante, mas tem de servir para informar, para integrar. Acho que essa idéia difundida aqui no Brasil de uma cultura puramente elitista tem de mudar

O agrobusiness é retrógrado
Tomando como exemplo o agrobusiness no Brasil, muitos dizem que é interessante para o país, que é moderno, e que é nesta direção que temos de ir. Eu não creio. Na Europa nunca se foi nessa direção. Mesmo nos EUA não se foi nessa direção. Os EUA, na Segunda Guerra Mundial, quando impuseram uma reforma agrária na Itália, foi no sentido da participação familiar. Também no Japão atuaram para acabar com um feudalismo que existia, no sentido de uma redistribuição de renda. Possivelmente teremos que modificar essa idéia imposta aqui no Brasil, já há alguns anos, de que o interessante é o agrobusiness das propriedades gigantes, difíceis de gerir. As tecnologias agrícolas evoluem muito rápido, ficando quase impossível atualizálas nas propriedades gigantes, como foi o caso dos Kolkozes na União Soviética; porém a evolução tecnológica e as exigências de mercado encontram plena adaptação dinâmica nas pequenas propriedades, como é o caso da Califórnia. Essa mobilidade é que vamos ter de encontrar. Temos um rebanho bovino que é o maior do mundo, deve estar em torno de 170 milhões de cabeças. Temos mais gado no Brasil que população. O Brasil, de 1970 até agora, deve ter mais que dobrado o seu rebanho. Se tomarmos um preço médio em dólares, a arroba de boi para o quinquênio de 1970 a 1975 foi superior a 40 dólares; hoje essa média é inferior, de 20 dólares. A oferta brutal de carne não encontrou demanda no interior do país e não existe mercado internacional para o produto. O mundo inteiro produz carne em excesso. Essa monocultura do capim, parte do agrobusiness, destruiu de maneira brutal boa parte de nossos ecossistemas de Mata Atlântica e Amazonas.
Depois entrou a soja. Não somos consumidores tradicionais do produto. O Brasil é hoje o segundo maior produtor do mundo. Essa produção é realizada normalmente em enormes propriedades utilizando como mão-de-obra, principalmente, bóias-frias, que é quase trabalho escravo, também em algumas regiões devastando o meio ambiente (cerrado de Minas Gerais e Mato Grosso). É um produto, da forma que foi desenvolvido no Brasil, que responde, na sua maioria, a uma lógica de exportação e concentração de renda. O mais recente desenvolvimento de "café do cerrado" é outra marca do agrobusiness na direção da concentração de renda, da utilização de trabalho semi-escravo, da destruição do ecossistema e da exportação. Para mim o agrobusiness é uma direção retrógrada da agricultura, ao contrário do que sempre se apresentou no Brasil. Nos discursos de todos os candidatos à presidência (inclusive Lula), muito ouvimos falar da necessidade que temos de exportar. Pouco se comentou das necessidades de ampliar a renda familiar. Porque o modelo que o Brasil tem é inteiramente baseado nas exportações, não no consumo interno. Tudo aqui dentro está voltado para a entrada de divisas necessárias a um modelo econômico deformado.

Agricultura familiar
A minha grande esperança é que a gente vá em direção a um modelo de agricultura familiar. Milhões de pessoas participando do sistema produtivo, recebendo renda e sendo integradas como cidadãos no sistema de mercado, consumindo educação, saúde, infra-estrutura, cultura (e também bens de consumo). E isso vai fazer viver a indústria e os serviços, e fazer rodar o país. Porque só assim criaremos um mercado participativo, com efeito multiplicador para a indústria, serviços e setor público, que contará com maior entrada de impostos (para investimentos sociais e na infra-estrutura). Nesse momento, tenho certeza absoluta de que a pressão da violência que existe hoje nas grandes cidades brasileiras vai reduzir- se, porque as cidades menores, no momento em que passarem a participar de um sistema de geração de renda, começarão a criar empregos nas farmácias, nas lojas de tecido, nas lojas de bicicleta, nas lojas de rádio. Vamos precisar de mão-deobra nos sistemas de limpeza pública, na saúde pública, na criação de infra-estrutura. A exemplo do que já ocorreu em municípios com forte concentração de assentamentos de reforma agrária, o número de pessoas que havia imigrado para as grandes cidades começou a retornar com o aumento da oferta de empregos das pequenas cidades.

Culturas particulares dos povos
Em viagem recente ao Rio de Janeiro, relembrando com Lélia [companheira de Sebastião Salgado e produtora gráfica de seus trabalhos], de quando estudávamos sobre os acidentes geográficos em torno desta cidade, tais como o Dedo de Deus, os Dois Irmãos, considerávamos isso como dados da mais alta importância na geografia e até sentíamos um tremorzinho quando víamos uma dessas referências. Hoje não temos mais essas sensações, houve uma padronização, uma harmonização de tudo; claro, através de um sistema informativo incrível, de um brutal acesso às informações. Mas a questão que me coloco é: como é que vamos voltar atrás, será que tem jeito? Será que isso não é uma opção, que foi feita de uma parte, imposta de outra? Trabalho muito no mundo inteiro. As primeiras vezes que fui à Índia, todos os homens usavam calça branca amarrada na cintura com um blusão que chegava até o joelho, indumentária muito elegante. As mulheres todas de sári. Hoje, parte das mulheres ainda continua usando sáris, mas os homens já estão todos de jeans e camisa, exceto durante as festividades, ou ainda muito no interior do país. Nós podemos sair desse sistema? Essa questão já prova uma parte do sofrimento que nós estamos tendo com a pressão de padronização. Talvez a gente pudesse, num país como o nosso, fazer outra globalização, um pouco mais humanizada. Não acredito que o governo Lula vá poder sair do sistema global, do qual o Brasil faz parte, e teve que fazer parte. Não podia fazer caminho separado. Mesmo países como a Índia e a China, que não aceitam a pressão do FMI, estão todos também padronizados, talvez com margem pouco melhor de manobra, mas no que diz respeito aos hábitos e costumes, sofrem do mesmo problema. Se nós mesmos respeitássemos a nossa singularidade cultural, seguramente viveríamos mais em conformidade com nossa auto-estima. Mesmo na música, o Brasil que foi tão forte em música popular, perdeu muito de sua influência. Os lançamentos nacionais muitas vezes são pressionados por um sistema global que informa, massacra e indica o que é importante. É como se a gente não tivesse identidade cultural.

A questão da fome zero
Tenho uma posição muito especial em relação a isso. É um caso emergencial. É necessário encontrar rapidamente a solução, porém se for só isso é muito pouco, como dar um tapa na água, aquele movimento na superfície que acaba logo. Os representantes do novo governo estão solicitando junto a instituições internacionais, como o Banco Mundial, recursos para o programa Fome Zero. Acho que isso de forma alguma deveria ser feito, isso é uma responsabilidade nossa, dos brasileiros. Daria uma sugestão, criar um imposto emergencial de solidariedade, pago proporcionalmente a cada nível de renda; é nossa emergência, cabe a nós encontrarmos a solução. Mas, além da emergência, temos que encontrar a solução para uma redistribuição de renda, primordial para o nosso país.

A arte e a transformação social

Para mim, sinceramente, a cultura não pode ser dissociada do mundo no qual vive. Acho que tem de ter um comprometimento. Não estou dizendo um comprometimento militante, mas tem que servir para informar, para integrar. Acho que essa idéia que foi difundida aqui no Brasil de uma cultura puramente elitista tem que mudar. A referência teria que passar do "crítico de arte" para a "maioria da população". Inclusive essa idéia de que os museus pertencem a uma superestrutura, à classe dominante, e que só se discute em meios sociais muito sofisticados, acho isso um erro profundo. Tínhamos que difundir essa idéia da cultura para a maioria. O que são os museus? São nossas referências, referências da nossa história, do passado de todos nós. Os bens materiais acabam, as carruagens acabaram, os automóveis acabarão, os bens de consumos cotidianos desaparecerão. O que fica? Um pouco de literatura, de pintura, de música, isso é que é a nossa história, que é a história da humanidade, a verdadeira história, e de todos nós, não só de uma elite dominante.


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