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     ENTREVISTA

Bom Combate


Por Fausto Rêgo

A revista Cadernos do Terceiro Mundo foi criada na Argentina, em 1974, por um grupo formado por jornalistas que combatiam os regimes ditatoriais em seus países. Entre os fundadores estavam Neiva Moreira, brasileiro exilado em Buenos Aires, o argentino Pablo Piacentini e a jovem uruguaia (hoje naturalizada brasileira) Beatriz Bissio. A proposta editorial era abordar as questões mais sensíveis aos povos que lutavam contra a colonização – na América Latina, na África ou na Ásia –, oferecendo o olhar de um jornalismo social. Foi assim que suas páginas retrataram histórias, personagens e cenas que praticamente não apareciam na mídia convencional: as guerras civis em Angola e Moçambique, os conflitos no Oriente Médio, a resistência ao apartheid na África do Sul. Sempre com enviados especiais ou jornalistas e especialistas dos próprios países, para evitar a prática comum na grande imprensa de reproduzir sem uma visão crítica os materiais enviados por agências internacionais de notícias.

Por conta desse espírito combativo, Cadernos conviveu desde sempre com muitas dificuldades. A pressão da ditadura argentina forçou a equipe a uma retirada estratégica, com a revista sendo relançada no México, em 1976. Em 1980, a publicação passou a ser produzida no Brasil. Durante anos, foi mantida também uma sede em Portugal.

Cadernos do Terceiro Mundo foi editada em três idiomas – espanhol, português e inglês – e chegava a leitores de 70 países, construindo um espaço de reflexão para a sociedade civil, de fonte para historiadores, cientistas sociais e políticos e de referência para um jornalismo socialmente responsável.

Participante ativa de toda essa história, a jornalista Beatriz Bissio lamenta que a trajetória de Cadernos do Terceiro Mundo tenha sido interrompida – faz um ano que não é lançada uma nova edição – e critica a distribuição não democrática de verbas do Estado para a mídia. A memória desses mais de 30 anos de jornalismo, no entanto, parece garantida por um convênio firmado com o Departamento de História da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), que está ajudando a digitalizar todo o acervo.

Beatriz sonha em retomar a revista, talvez até com outro nome. “Se, por um lado, Cadernos do Terceiro Mundo é uma marca forte, é um nome que para várias gerações diz muito, por outro está muito vinculado a uma determinada época”. Enquanto esse sonho não se realiza, ela trabalha em outras frentes. Uma delas é a coordenação editorial do projeto RitsLAC, que envolve nove organizações não-governamentais da América Latina. O primeiro resultado dessa iniciativa será conhecido em breve, com o lançamento do portal Mosaico Social, que pretende ser uma seleção de notícias e informações a partir de um olhar da sociedade civil latino-americana.



Rets – Os Cadernos do Terceiro Mundo são uma referência histórica, particularmente para a mídia alternativa, há mais de 30 anos. Mas já faz algum tempo que não temos uma edição nova. Há quanto tempo a publicação não sai? E em que situação ficou o projeto?

Beatriz Bissio – Não sai há um ano. E acredito que o projeto não morreu. Há um vazio que Cadernos do Terceiro Mundo deixa que ninguém preencheu. Se tivesse sido preenchido, eu me sentiria muito feliz, porque teríamos feito escola, a nossa semente teria germinado em outros projetos. Poderíamos, então, dizer: missão cumprida, temos “filhotes”!

Mas isso não aconteceu. Há revistas muito importantes que surgiram, mas sem o perfil de Cadernos, no sentido de priorizar a informação da América Latina, África e Ásia – sempre relegada na grande mídia – a partir da visão de jornalistas desses países, e não filtrada pelo olhar das agências de notícias transnacionais. Eu sou otimista e acredito que, de alguma fora, o projeto vai continuar. A minha dúvida é: deveremos continuar com o nome Cadernos do Terceiro Mundo, já que, com o fim da guerra fria, essa questão do Terceiro Mundo parece anacrônica? Eu, sinceramente, não tenho uma resposta. Se, por um lado, Cadernos do Terceiro Mundo é uma marca forte, é um nome que para várias gerações diz muito, por outro, está muito vinculado a uma determinada época. Sem dúvida é uma questão para pensar; e não é uma questão menor. Caso, no futuro, a gente se decida por adotar outro nome, encontraremos formas de mostrar a continuidade do projeto.


Rets – Mas por que não tem saído?

Beatriz Bissio – Por problemas financeiros que decorrem de duas razões básicas: por um lado, sempre fomos um grupo de comunicadores com um projeto de jornalismo alternativo, comprometido com as questões sociais e com a inserção soberana, no contexto internacional, dos países do Sul. Não somos empresários da comunicação. Então, possivelmente, o projeto careceu de uma visão empresarial, que no mundo de hoje é indispensável. A falha nossa, pela nossa formação, foi não termos nos juntado a alguém com visão empresarial que pudesse partilhar os mesmos ideais.


Rets – Que tivesse uma visão de negócio?

Beatriz Bissio – Que tivesse uma visão comercial do projeto, no bom sentido, isto é, estando atento à necessidade de sobrevivência do empreendimento, mas também e fundamentalmente, que partilhasse os mesmos princípios e valores.

Por outro lado, eu não diria que apenas nós, mas todo o leque da comunicação alternativa está vivendo uma crise, porque falta um projeto para a mídia de parte dos governos que estão no poder desde a redemocratização. Essa é uma falha que sinto no Brasil muito concretamente, mas também em outros países da América Latina: é necessário entender que qualquer projeto de consolidação democrática tem de ter uma mídia também democrática. A mídia tradicional, comercial, é necessária – não vamos pensar em modelos antigos, como o que propunha a estatização dos meios de comunicação, que já mostraram o seu fracasso. Não é por aí. Mas os meios de comunicação democráticos, alternativos, não comerciais, como seja que os chamemos, não sobrevivem se não houver algum mecanismo oficial para alavancá-los. Mesmo a grande mídia teria enormes dificuldades para sobreviver se não fosse pela publicidade do Estado. Se isso é um problema para os grandes, imagine para os pequenos! Esse cenário poderia ser mudado através de políticas adequadas. Os jornalistas têm dado uma grande batalha nesse sentido, com pífios resultados. Uma dessas políticas seria a democratização do acesso à publicidade oficial, já que se trata de uma verba com a qual todos contribuímos, como cidadãos, pagando os nossos impostos. Poderia ser objeto de uma lei, como já existe em alguns países. Um percentual “x” desses recursos deveria alimentar as rádios comunitárias, os jornais surgidos dos movimentos sociais, revistas e publicações segmentadas – a mídia ambiental, por exemplo, que hoje enfrenta sérios problemas de sobrevivência –, publicações como Cadernos etc., seguindo critérios estritos de idoneidade que estariam previamente definidos.

Cadernos careceu do apoio que deveria ter tido, se houvesse uma compreensão diferente do sentido de existência desse tipo de mídia. Mas encontramos essa compreensão por parte do meio acadêmico, que estendeu a mão para ajudar o projeto. Uma dessas iniciativas está em curso. É do Departamento de História da Uerj [Universidade Estadual do Rio de Janeiro], que está nos ajudando a digitalizar todo o acervo das revistas, a começar pelo número 1, lançado em Buenos Aires, em 1974. O projeto caminha lentamente, porque só foi possível contratar poucos bolsistas. Mas o importante é que eles estão trabalhando e já digitalizaram numerosas edições antigas de Cadernos, que poderiam ser destruídas com o tempo. A meta é resgatar a memória desses 30 anos de trabalho jornalístico cobrindo a realidade latino-americana, africana e asiática.


Rets – O material estará disponível para o público como um acervo estático ou se pretende transformar Cadernos em uma publicação para a internet?

Beatriz Bissio – O projeto conjunto da Uerj e da nossa editora é que esse acervo informativo – nas três línguas em que Cadernos circulou: português, espanhol e inglês – esteja disponível em um grande banco de dados para consulta pública na internet. Isso quanto ao material já publicado, entre 1974 e 2005. Porém há um outro projeto, ainda em fase embrionária, que seria, paralelamente ao processo de resgate do acervo documental de três décadas, assegurar a continuidade do projeto de Cadernos, na internet.

Uma coisa, está clara: o ideal que nos levou a lançar Cadernos há mais de 30 anos continua vigente. Essa vigência decorre do fato que continua faltando interesse de parte da mídia comercial em entender a luta dos nossos povos e os seus anseios de construção de um futuro diferente para os seus filhos.


Rets – Quando você faz a crítica à distribuição de verbas do Estado para os veículos de comunicação, menciona que o problema não é exclusivo do Brasil. Essa situação é comum nos países da América Latina?

Beatriz Bissio – É comum. Quase não existe reflexão sobre esse tema nos níveis político e partidário. Não é um tema discutido por aqueles que têm um projeto de poder. Existe uma reflexão acadêmica sobre o poder da mídia, existem observatórios da mídia, mas as experiências pós-ditadura mostram que o apoio à democratização da mídia não tem sido um tema de interesse dos partidos, pelo menos um tema relevante, nem dos governos que se alternaram no poder em todo o continente. Existe uma iniciativa na Venezuela, com a Telesur. Ainda é muito pouco o tempo que temos para poder avaliar o alcance dessa proposta, que está em construção. Mas pelo menos existe. Alguém pensou, alguém destinou verba e viabilizou o projeto. É uma televisão que se propõe a fazer uma cobertura alternativa à que a TV comercial está oferecendo.


Rets – Mas o fato de ser uma alternativa de governo não compromete a credibilidade?

Beatriz Bissio – Essa é a grande questão. O fato de ter surgido como iniciativa de governo não necessariamente deve levar a pensar que será uma televisão atrelada a políticas governamentais. Poderá ser, é uma possibilidade. Porém também pode ser que tenha surgido a partir de uma proposta mais democrática e plural. Nesse caso, será um instrumento de complemento do que oferece o modelo capitalista, de exploração comercial dos meios de comunicação, e não um apêndice do poder político ou do governo. Eu confio que seja isto o que está sendo colocado. O tempo dirá.


Rets – Você falou há pouco sobre a necessidade de uma visão de negócio para o produto editorial e disse que hoje isso é indispensável. A grande mídia se preocupa cada vez mais com temas que vendem, pautando sua linha editorial pelo mercado. Você acha que esse caráter de mercado pode acabar comprometendo uma visão mais socialmente responsável?

Beatriz Bissio – Na minha experiência com os Cadernos, comprovei que apenas sonhar com uma imprensa livre e alternativa não é suficiente para assegurar que ela possa sobreviver. Porém atenção! Quando eu afirmo que deve existir uma visão empresarial, não quero dizer que o projeto tenha de ser visto como negócio, no sentido de ter como meta ganhar dinheiro. Quem pensa nisso tem de ir para uma outra área. A informação não é um produto a mais, é um serviço que se presta à sociedade. No entanto é necessário ter uma base empresarial que permita a sobrevivência do veículo. Mas que empresa seria essa?

Uma empresa informativa se sustenta com a comercialização do seu produto, seja na venda ao público ou na venda de publicidade. Essas são as duas formas que um veículo de comunicação tem para se financiar. E como em qualquer campo da vida humana, nesse terreno é necessário agir com ética e seguindo princípios dos quais não é possível se afastar. Essa ética implica independência de critérios. É inadmissível ficar à mercê de alguém que, por exemplo, anuncie em determinada publicação com o intuito de interferir na linha editorial. Há certos valores que não podem ser negociados. Isso não é admissível no caso de um veículo de comunicação. No entanto acontece.

Não se deve lidar com uma empresa de comunicação como se fosse uma empresa qualquer. A informação é também um direito humano, um direito do cidadão. Lamentavelmente, como acontece com outros direitos humanos, também esse é sonegado.


Rets – Qual seria o papel da mídia alternativa?

Beatriz Bissio – Contribuir para a construção da cidadania, no sentido mais abrangente. Daí a necessidade que ela tem de levantar questões que não interessam à grande mídia e de utilizar fontes que não são as que costumam ser consultadas pela grande mídia. A cidadania se constrói com informação, com educação, com oferta de trabalho digna, com respeito aos direitos humanos, com participação política. Eu acho que esse é o grande papel da mídia alternativa. Há ainda um outro papel a desempenhar: contribuir para que a sociedade faça um acompanhamento crítico da atuação da mídia comercial. Porque os meios de comunicação tradicionais podem às vezes se exceder de certos limites éticos. Uma sociedade mais consciente e mais atenta reagiria de forma mais enérgica a um tipo de mídia com essa conduta. Eu diria que a mídia comercial reflete um pouco o nível de consciência e de cidadania de uma sociedade. Vemos isso claramente quando se compara a atitude de determinados jornais, rádios e televisões em países da Europa e na América Latina. Onde há um controle cidadão maior se cobra muito mais a transparência da mídia. Na verdade, isso não ocorre só com a mídia. Os níveis de corrupção que existem na América Latina, assim como outros problemas, são sintomas da imaturidade da nossa democracia. Nós conquistamos a democracia formal, mas há uma estrada longa ainda por percorrer até que estejamos diante do que poderíamos chamar de sociedade de cidadãos. Mas é um processo em construção, não há por que ter um tom amargo. O desafio do presente na América Latina é completar o processo de construção da cidadania.


Rets – Temos hoje um cenário em que grandes empresas de mídia controlam jornais, televisões, rádios e provedores de acesso à internet. Ao mesmo tempo, a internet tem um potencial imenso de democratização da comunicação. Qualquer pessoa pode veicular sua informação, criar um blog ou veículo alternativo. Como você vê esse cenário e, particularmente, as possibilidades para a mídia alternativa?

Beatriz Bissio – Essa é a grande diferença que existe no mundo de hoje em relação ao mundo no qual Cadernos surgiu. É lógico que sabemos que o acesso à internet ainda é restrito a uma elite, então não podemos achar que já é uma ferramenta das grandes massas. Daí a importância de todas as iniciativas para democratizar o acesso à internet.


Rets – Ela incide sobre os formadores de opinião.

Beatriz Bissio – Incide sobre os formadores de opinião e faz com que os grandes meios tenham de se cuidar, porque poderá vir imediatamente uma resposta para determinadas questões mentirosas ou tendenciosas. Nesses casos, a denúncia desse desvio percorrerá rapidamente os círculos que estão mais atentos aos acontecimentos políticos. Sem dúvida, isso constitui uma diferença muito grande em relação ao passado. De fato, estamos tão imersos nessa nova realidade que não temos ainda a noção do que significa essa mudança. É um trabalho para os historiadores do futuro verificar a extensão das transformações geradas pela internet e por todas as novas tecnologias da comunicação.


Rets – Você está começando a participar agora de um novo projeto editorial, realizado em conjunto por uma rede de organizações não-governamentais da América Latina chamada RitsLAC. Você vê semelhanças entre esse projeto e os Cadernos do Terceiro Mundo? Qual sua expectativa em relação a ele?

Beatriz Bissio – Acho que é um projeto belíssimo e deposito muita confiança nele. Cadernos também era uma rede, mas uma rede de jornalistas – com as melhores intenções e pessoas maravilhosas. Mas RitsLAC, ao se propor a produzir material informativo a partir de um conjunto de organizações, muitas das quais já são redes, parte de uma representatividade muito mais interessante e significativa. Por mais bem intencionados que fôssemos no momento de lançar Cadernos e no nosso trabalho, éramos um em cada país – claro que cada um com sua rede de contatos pessoais. Mas a riqueza informativa e de capacidade de análise que decorre do fato de já surgir como projeto de uma rede de organizações da sociedade civil, com diferentes tipos de abordagens do trabalho social, é infinitamente maior. Imagino que viabilizar o boletim informativo não será um processo fácil e que só daqui a um ano estaremos chegando perto do formato desejável. Será um aprendizado. Mesmo assim, o ponto de partida é auspicioso pela representatividade que já tem cada instituição no seu país e pela credibilidade que isso nos aporta, além da visão plural gerada pelo leque amplo de pessoas e organizações que estão trabalhando conosco.

Por outro lado, trata-se de um boletim virtual, circulando na internet, com toda a riqueza que ela permite. Espero que a gente possa atingir a meta que nos colocou o companheiro da equipe que representa o Paraguai na iniciativa: a de sermos a melhor seleção de material informativo da América Latina. Eu diria, baixando a bola um pouco, que aspiramos a nos transformar em uma referência para quem procura boa informação da América Latina. Se a gente conseguir isso, já poderemos ficar orgulhosos. E eu confio que vamos conseguir.


Fonte: www.rits.org.br