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     ENTREVISTA

Doutora Pankararu


Por Maria Eduarda Mattar

No Dia do Índio a pernambucana Maria das Dores Pankararu, 42 anos, foi dormir sabendo-se a primeira indígena com título de doutorado. Defendeu neste 19 de abril sua tese de Lingüística sobre o Ofayé, língua ameaçada de extinção e falada atualmente apenas por 11 pessoas da etnia de mesmo nome, que vive no Mato Grosso do Sul. Pertencente a um povo – os Pankararu, que vivem na cidade de Tacaratú, interior de Pernambuco – que já perdeu sua língua original, Maria das Dores é particularmente sensível à questão da perda desse fator cultural. Ser pouco estudada e estar ameaçada de extinção eram seus dois critérios para escolha da língua a ser pesquisada.

O projeto de doutorado - defendido na Universidade Federal de Alagoas, cidade onde mora - começou em 2002, com impulso de uma bolsa recebida da Fundação Ford. Ao longo de quatro anos, Maria das Dores visitou e conviveu com os Ofayé, o que já lhe rendeu a produção de um dicionário fonético sobre a língua. O contato com a história da etnia se deu em 2001, em um encontro da Fundação Nacional do Índio, órgão no qual trabalha como coordenadora de atividades e projetos relacionados à educação escolar indígena para os estados de Alagoas e Sergipe. Sua trajetória acadêmica já mostra o gosto por letras, línguas, educação e tradições históricas: graduou-se em Pedagogia, ainda quando morava em Pernambuco, e em História, já em Alagoas. Em seguida, fez mestrado sobre a variação do português na fala dos Pankararu.

Maria das Dores conversou com a Rets na manhã da quinta-feira, 20 de abril, ainda sob o impacto da defesa da tese. Nesta entrevista, ela fala sobre a alegria de ter concluído o doutorado, mostra-se atenta ao contexto atual das lutas indígenas e questiona a lógica das políticas públicas em execução. Funcionária da Funai, critica o presidente do órgão, que em janeiro fez declarações polêmicas sobre a concessão de terras a índios. Quanto aos próximos passos, diz que pretende continuar ajudando os Ofayé a preservarem sua língua, o que incluirá a confecção de um dicionário completo. “Tenho um compromisso político e étnico com os Ofayé”, completa.



Rets - Hoje é o primeiro dia após a defesa da tese. A emoção ainda está grande?

Maria das Dores Pankararu - Tô super feliz. É o término de uma fase importante. Agora tem um trabalho de continuidade. Mas ainda estou elétrica, o dia de ontem foi uma correria e bastante marcante, é um ritual grande. O interessante é o reconhecimento e a visibilidade que a questão indígena conseguiu ganhar.


Rets - Aproveitando que você tocou no tema da visibilidade da questão indígena, que importância você acredita que o seu sucesso na defesa da tese pode ter para os povos indígenas em geral? A data de 19 de abril – Dia do Índio – foi escolhida de propósito?

Maria das Dores Pankararu - Acho que um dos principais ganhos é quebrar o esteriótipo, incentivar, com o êxito, os indígenas mais jovens a tomar esse caminho de estudo. Pode ser referência. A escolha da data foi feita pela minha orientadora, aliado ao fato de vários professores da banca só poderem nessa época. O Dia do Índio não é propriamente uma data comemorativa para os povos indígenas. Temos inúmeros problemas que precisam ser melhor pensados, receber mais atenção pelo governo.


Rets - O que te levou a escolher esta língua como objeto de estudo?

Maria das Dores Pankararu - Quando comecei a pensar em me inscrever para doutorado tinha dois critérios definidos: queria que fosse uma língua pouco ou nada estudada e que estivesse ameaçada de extinção. Por um lado, porque para a Ciência é interessante, a fim de ter o registro histórico, permitir comparações etc. Por outro lado, o que é mais importante para mim: se a língua está ameaçada, precisamos trabalhar para tentar reverter. As línguas indígenas merecem isso. Podemos ajudar tecnicamente o povo a manter a língua.

Sou professora da Fundação Nacional do Índio (Funai) e conheci a história dos Ofayé um ano antes de começar o doutorado. Participei de um encontro em Brasília, em 2001, onde alguns técnicos da Funai falaram da dificuldade dos Ofayé, que estavam perdendo sua língua, sua cultura etc...


Rets - Aproveitando o assunto, como é que se consegue salvar um língua como essa, que é falada hoje por apenas 11 pessoas?

Maria das Dores Pankararu - Eu não vou ser a salvadora da língua. Depende dos próprios índios. Depende deles entenderem que a língua tem um papel fundamental, de se sentirem estimulados a falar e preservar a língua, utilizando no dia-a-dia. Os Ofayé são um povo que fala quatro línguas, inclusive o português, que tem sido predominante. Assim, acabam falando mais esta língua que a sua tradicional.

Meu papel é técnico: estimular, conscientizar as pessoas da aldeia, incentivar os pais a falarem em Ofayé com seus filhos, principalmente na fase de aquisição da fala, mostrar que é uma marca de identidade fundamental. Sou muito sensível a isso pois estão passando pelo processo que meu povo passou. Perdemos a língua por causa do contato com o português. Apesar disso, os Pankararu ainda mantêm muitas das tradições culturais.


Rets - Você se torna doutora em um momento em que organizações e povos indígenas acabam de realizar o Abril Indígena, que concentrou diversas críticas das políticas destinadas a essa população, especialmente no que se refere às ações de saúde e de demarcação de terra. De que forma sua tese pode se encaixar e contribuir neste contexto?

Maria das Dores Pankararu - O momento é bom para reivindicarmos. Aliás, devemos sempre reivindicar. As populações indígenas são esquecidas. As políticas públicas de fato não funcionam. Para isso, bastaria a lei funcionar, ser posta em prática. Temos uma Constituição que data de 1988 e até hoje há índios morrendo de fome, são mal atendidos nos serviços de saúde etc. O que o governo tem que fazer é dar as ferramentas para que cada povo se desenvolva segundo seus critérios e costumes. Projetos de cima para baixo não funcionam.

Sou tímida, não estou acostumada a essa exposição que tive recentemente. Mas já que estou tendo o espaço, aproveito para falar que estamos precisando de atenção. Precisa que o governo dê políticas públicas. Precisamos de respostas plausíveis para questões prementes. De certa forma, com o doutorado coloca-se a questão indígena em foco. Se eu puder ajudar a levantar o debate indígena - para as pessoas saberem quem somos, como vivemos, nossos anseios – já é muito bom. Sim, pois existe um esteriótipo grande: as imagens passadas dos índios é sempre na selva, caçando, pescando, como se todos os índios seguissem o mesmo modelo. Ser indígena não é definido pelo fato de onde a pessoa mora simplesmente, se na floresta ou na cidade. O que conta é o espírito de pertencimento, a manutenção e incorporação dos valores e da cultura da etnia. Posso até ser uma decepção para quem defende o esteriótipo de índio predominante.


Rets - Você trabalha na Funai. E o presidente do órgão, Mércio Pereira Gomes, declarou à imprensa em janeiro deste ano que o Supremo Tribunal Federal a impor limites às reivindicações fundiárias dos povos indígenas. Como isso repercutiu no órgão?

Maria das Dores Pankararu - Acompanhei esta história muito en passant, pois estava afastada. Ganhei uma bolsa da Fundação Ford, através do Programa Bolsa [tema da matéria “Novo perfil de lideranças” desta edição da Rets. O link está disponível na área Veja também, ao lado], e fiquei afastada da Funai durante o tempo do doutorado. Não acompanhei de perto, portanto. Pelo que eu soube, essa administração da Funai não está agradando: não há verba pra quase nada, a educação não é prioridade. Declarações desse tipo são lamentáveis pelo fato de ele ser antropólogo, e deve respeito à profissão, e pelo cargo que ocupa.

Quando índio pensa em terra, não é para ter propriedade, vender. Nem é só para subsistir ou se reproduzir biologicamente. É para manter a cultura. No meu povo, por exemplo, chamamos a terra que ocupamos - com seu relevo, árvores etc. – de Palácio dos Encantados, que são os nossos antepassados. Ou seja, eles estão ali representados, nos protegendo. Então, proteger a terra trata-se também de proteger quem nos protege, trata-se da manutenção de um povo. Os indígenas têm toda uma visão cultural da terra, e eu acredito nisso. Cada parte do território tem uma razão de ser. Terra não só tem valor econômico. Tem valor cultural, histórico e econômico.

Não vejo críticas aos grandes latifundiários, que reúnem imensas quantidades de terras – o que não é o caso dos povos indígenas. Meu povo, por exemplo, tem 8.100 hectares demarcados, ao passo que originalmente tinha 12.246 hectares, se não me engano. Essa diminuição se deu para favorecer os coronéis da região. Tem uma briga grande envolvendo a questão. E mesmo hoje em dia, com a área demarcada, ainda há um monte de posseiros. É uma idéia equivocada essa de que tem muita terra pra pouco índio.

E, concluindo, uma declaração dessas, vinda de uma pessoa na posição dele, é um absurdo. E revoltante.


Rets - Quais serão seus próximos passos?

Maria das Dores Pankararu - Sou funcionária da Funai, vou voltar para lá. A Funai infelizmente não reconhece muito esses títulos, nem há um ganho salarial com isso. Acho, sim, que há uma expectativa de uma responsabilidade em cima de mim, no sentido de ter mais voz lá dentro.

Paralelamente, tenho um compromisso grande com os Ofayé, de ajudá-los a manter a linguagem. Há uma proposta de elaboração de um dicionário da língua. Estou estudando essa possibilidade. Eu e a minha principal coloboradora da pesquisa do doutorado, Marilda de Souza, preparamos um material experimental, com o qual ela está ensinando as crianças da aldeia, testando para ver se funciona. Afinal, os Ofayé é que têm que testar, eles é que são os donos da língua. A partir disso vamos melhorar, inclusive para elaborar o dicionário completo. O que já tenho pronto é um dicionário fonético da língua. Vou continuar tentando ajudar a manter a língua viva. Tenho um compromisso político e étnico com os Ofayé.


Fonte: www.rits.org.br