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     ENTREVISTA

Canal para a paz


Por Mariana Loiola

Quando se discute o acesso à mídia de qualidade para crianças e adolescentes, é fundamental considerar a importância de uma boa narrativa. É o que afirma Regina de Assis, coordenadora do Rio Mídia - Centro Internacional de Referência em Mídias para Crianças e Adolescentes. “A narrativa é a matéria-prima da mídia e da comunicação”, diz. O tema foi o centro dos debates do 2º Encontro Internacional Rio Mídia, realizado de 18 a 20 de outubro, no Rio de Janeiro, promovido pela Prefeitura, por meio da Multirio - Empresa Municipal de Multimeios. O encontro teve o objetivo de analisar e debater a natureza e o lugar das narrativas na mídia e sua relação com o público infanto-juvenil.

Para a coordenadora do Rio Mídia e também presidente da Multirio, pais, professores e toda a sociedade podem e devem cobrar do governo ações para garantir à população o direito de acesso à informação de qualidade. Assis defende também discussões e debates sistemáticos sobre a programação da televisão e todo o conteúdo veiculado pela mídia.

Com o apoio do Rio Mídia, grupos de todo o Brasil que atuam em defesa do direito de crianças e adolescentes e professores a uma mídia de qualidade têm consolidado uma comunidade em rede que deverá se expandir, através de uma parceria com o projeto inglês Eurokidnet. “Vamos criar uma grande rede de trocas de narrativas. Isso pode contribuir para a paz, a não-violência e compreensão entre os povos”, afirma.


Rets - Qual a importância da narrativa e por que esse tema foi escolhido para o Encontro Rio Mídia deste ano?

Regina de Assis - Porque narrar é uma forma de estar no mundo. É uma forma de nós, seres humanos, garantirmos a nossa própria história, memória, valores e heranças no sentido cultural, aquilo que compõe a cosmovisão de cada um de nós. É a narrativa que registra isso tudo, seja de forma oral ou registrada. Por isso é muito importante expor as crianças desde pequenas a boas narrativas, desde a forma mais tradicional, que é a contação de histórias – oral ou intermediada por um livro, que as crianças adoram, mesmo hoje em dia –, até as linguagens da televisão, internet, celular e jogos eletrônicos.

Como estamos no início do terceiro milênio, vivendo uma revolução em termos de comunicação, cada vez mais permeada pelas linguagens da mídia, seja audiovisual, digital ou impressa, isso se torna uma questão da maior importância para quem produz mídia para crianças, adolescentes e seus educadores, sejam os professores nas escolas ou os familiares em casa. Por outro lado, o grande mercado internacional de produção de mídia voltada para crianças e adolescentes, como Nickelodeon e Discovery Kids –que não estão preocupados necessariamente com a qualidade, do ponto de vista dos valores a serem preservados ou constituídos pelas novas gerações, mas com o lucro –, também está preocupado com a necessidade de boas narrativas. A narrativa é a matéria-prima da mídia e da comunicação.

Rets - Como você analisa a produção da TV brasileira voltada para crianças?

Regina de Assis – A produção que existe é medíocre. Lá fora, a BBC e o Channel 4 têm dado bons exemplos, dedicando várias horas de programação para crianças, sem propaganda e indução ao consumo e com muito estímulo à imaginação. Aqui, a TV Cultura de São Paulo fez um grande investimento na década de 90 com a criação do Rá-Tim-Bum, mas hoje esse programa só pode ser visto por quem tem acesso à TV paga. Deveria haver um investimento muito maior no canal aberto, porque é o que atinge a maioria da população. As TVs comerciais, em geral, tentam se safar com o chamado horário infantil, que é matinal. Mas na maior parte do tempo a criança brasileira vê programação adulta.

Rets - Você acha que deve haver um controle dessa programação?

Regina de Assis - Sem dúvida! E acho que o governo brasileiro vem dado passos importantes nesse sentido. Nós, que realizamos a 4ª Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes, no Rio de Janeiro, em 2004, e nos responsabilizamos pelas Cartas do Rio, que reúnem os compromissos do evento, ficamos satisfeitos com a criação do novo sistema de classificação indicativa pelo Ministério da Justiça, que está começando a trabalhar da mesma forma com os jogos eletrônicos. Isso não é censura. É um indicador para os pais decidirem se seus filhos podem ver ou não um programa e se devem estar acompanhados.

Deve haver também a preocupação com a discussão sobre os programas com as crianças, que têm um limite de compreensão, pela experiência que têm e pela informação que recebem. Na novela das oito, por exemplo, aparecem muitas cenas com sexo, violência, alcoolismo e discriminação. Como a criança reage vendo isso? É papel de pais e educadores discutir com as crianças o que está sendo veiculado.

Para os produtores, a Lei do Audivisual, que voltou ao Congresso com uma nova versão, produz algumas saídas interessantes, como a autogestão e a responsabilização de uma forma que não promova censura, mas um dado de responsabilidade social pelos canais, que são concessões públicas.

Rets - Além dessas ações, o que mais pode ser feito para garantir o acesso à comunicação e à informação de qualidade para crianças e adolescentes?

Regina de Assis - A lei das comunicações deverá entrar na pauta novamente depois das eleições. Todos nós que lidamos com mídia e com crianças e adolescentes temos que acionar os deputados e senadores que forem eleitos, porque trata-se de uma questão do interesse de toda a população. Qualquer um, na sua cidade, pode pedir o texto da lei, analisar e se organizar em grupos para fazer abaixo-assinado e mandar propostas em relação à votação dessa lei. Devemos “entupir” o email do Ministério das Comunicações, que é hoje absurdamente omisso e irresponsável em relação a esse tema. Cabe também a veículos como a Rets e outros que lidam com a questão dos direitos do acesso à informação de qualidade trazer informações sobre o assunto para a sociedade. Os canais comerciais e a cabo, e sobretudo os canais educativo-culturais, também podem criar debates sistemáticos para o grande público, a serviço da cidadania, sobre novelas, noticiários, programas infantis etc.

Rets - O Rio Mídia é um dos desdobramentos da 4ª Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes. Você pode destacar outros? Como esse debate tem avançado de lá para cá?

Regina de Assis - Através do Rio Mídia, temos dado apoio a grupos de diversos estados: Pará, Amazonas, Ceará, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, que participaram da Cúpula, em 2004. Alguns representantes desses grupos vieram pela segunda vez ao Encontro Rio Mídia. Assim estamos sedimentando uma comunidade em rede de produtores, pesquisadores, artistas, criadores, professores e consumidores e colocando na agenda da sociedade brasileira o direito de crianças, adolescentes e professores a uma mídia de qualidade.

Pretendemos também expandir essa rede. Estamos estudando uma proposta de parceria com o projeto Eurokidnet, uma rede criada com o apoio da Comunidade Européia, com o objetivo de criar e difundir produtos audiovisuais baseados na imaginação de adolescentes europeus. Eles propõem que nós coletemos produtos feitos a partir de narrativas de adolescentes do Brasil e da América Latina para incluir nessa grande rede. Com uma base tecnológica que vai permitir a tradução simultânea desses produtos, vamos criar uma grande rede de trocas de narrativas. Isso pode contribuir para a paz, a não-violência e a compreensão entre os povos, na medida em que crianças e adolescentes começam a se descobrir como narradores da sua própria história e a conhecer histórias de crianças de outros países e culturas. A visão de um menino de uma favela do Rio de Janeiro, por exemplo, poderá dialogar com a de outro que acabou de sair de um conflito étnico-religioso no Oriente Médio. Esse diálogo pode criar formas de interação e encontrar outras formas de solucionar problemas diferentes da guerra e da violência. Se essas novas gerações começarem a dialogar entre si, de forma democrática e respeitosa, independentemente de conflitos antigos que não têm tido solução, poderemos mudar muita coisa. E isso só será possível quando nós, adultos, entendermos o imenso poder narrativo das mídias.


Fonte: www.rits.org.br