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     ENTREVISTA

Junção entre o antigo e o novo está presente no mais recente CD do quarteto de violões Quaternaglia


Por Marcos Fávero

divulgação Antes de lançar seu quarto Cd 'Presença' e excursionar pela quinta vez pelos Estados Unidos, o Quaternaglia, um dos mais importantes representantes da nossa música de câmara e um dos principais quartetos de violões do mundo, fala com exclusividade para o portal Wooz sobre o mercado da música erudita, projetos e parcerias.

Wooz - Para começar, gostaria que cada um se apresentasse.

Sidney Molina - Sou violonista, professor de violão da Universidade Estadual de Belém-PA e de estética musical na FAAM-SP. Comecei meus estudos com sete anos. Entre meus professores estão: Manoel Fonseca, Armando Vidigal e Edelton Gloeden. Sou bacharel em filosofia com especialização e mestrado, e agora, sou doutorando num trabalho de pesquisa envolvendo a área de estética musical, com reflexão e crítica em música, análise musical e o interstício entre música, filosofia, literatura etc.

Fernando Lima - Sou formado em violão pela Faculdade Carlos Gomes, tive orientação por muitos anos do professor Henrique Pinto, ingressei no Quaternaglia em 2002, tenho uma carreira solo estável, com três turnês pela Europa e um duo com a violonista uruguaia Cecília Siqueira.

João Luiz - Sou bacharel em violão, comecei a estudar com o professor Henrique Pinto, toco no Quaternaglia desde 2002, sou arranjador, tenho um duo com o violonista Douglas Lora e um trio com Henrique Pinto e Douglas Lora chamado Violão Câmara Trio.

Fabio Ramazzina - Estou no quarteto desde 1993, sou formado em violão pela UNESP com o professor Giácomo Bartoloni, também estudei com Edelton Gloeden, sou professor de violão e contraponto na Fundação das Artes de São Caetano do Sul.


Wooz - Falem um pouquinho do Quaternaglia.

Sidney Molina - O Quaternaglia é um quarteto de violões que existe desde 1992. Começou e continua sendo formado por um grupo de amigos que gosta de tocar violão, de pesquisar e acima de tudo, de estar junto fazendo música. O grande desafio no início, era a não existência de muitas composições para essa formação, mas, nos últimos doze anos, fomos garimpado, convencendo grandes compositores e arranjadores a criarem para quarteto de violões e o resultado está registrado nos nossos quatro Cds. Em 2005 faremos nossa quinta turnê pelos Estados Unidos, além da gravação de um DVD. Ganhamos alguns prêmios nacionais e internacionais. Somos um grupo, que dentro da música instrumental brasileira, junta a experiência erudita da música de câmara com uma busca de compreensão do Brasil, da música brasileira e da utilização de elementos da linguagem do país, e o que nos deixa mais orgulhosos, é que estamos nos transformando em referência mundial dentro dessa formação.


Wooz - Qual a concepção do quarto Cd que será lançado ainda este ano?

Sidney Molina - Nosso trabalho fonográfico tem uma grande diversidade. O primeiro Cd, Quaternaglia (JHO), traz obras do século XX, entre transcrições e algumas peças originais de Stravisnki, Villa-Lobos, a obra completa de Leo Brouwer além de Estércio Marques Cunha, ou seja, um repertório mais erudito. O segundo, chamado Antique (Paulinas Comep), foi basicamente uma experiência com peças antigas, escritas para outras formações e adaptadas para quarteto de violões, com repertório que vai do renascimento ao classicismo. O terceiro, batizado de Forrobodó (Carmo-ECM), foi lançado na Europa e produzido por Egberto Gismonti, é inteiramente dedicado a música brasileira, onde, excetuando-se Ernesto Nazaré, conta com compositores vivos que escreveram peças especialmente para nós, como o próprio Egberto, Paulo Belinati, Sérgio Assad entre outros. O mais recente, Presença (Paulus), é um novo projeto de música brasileira que se propõe a dois movimentos simultâneos, o primeiro é o resgate de algumas peças para a nossa formação e o segundo é a apresentação de jovens compositores que estão desbravando caminhos interessantes da música no início do século XXI. O Cd conta com composições de Radamés Gnattali, Tom Jobim, Sérgio Molina, Paulo Tiné, Rodrigo Vitta e Douglas Lora.


Wooz - O Quaternaglia é considerado um dos mais importantes quartetos de violões do mundo. Em 12 anos de atividade, ter quatro Cds gravados não é pouco? Se vocês fossem europeus ou americanos não teriam um número maior de gravações?

Fabio Ramazzina - Essa é uma questão interessante, porque os quatro Cds tem uma história particular, um tema. Talvez fosse necessária uma certa lentidão para o amadurecimento da formação. Afinal, as primeiras experiências com quartetos de violões apareceram apenas na década de 1960.

João Luiz - Acho que se grava pouco, e não vejo muitas condições para que aconteça o contrário. Eu, por exemplo, tenho vários Cds gravados com o duo e o trio, todos independentes.

Sidney Molina - Acredito que para o amadurecimento do nosso repertório e para que tivéssemos uma produção compatível com a nossa idéia estética esse ritmo tenha sido adequado, mas deve acelerar, graças ao grande número de peças que estão surgindo e que precisam ser registradas. Por isso, com certeza, gravaremos um número maior de Cds nos próximos doze anos. Além disso, temos vários projetos possíveis, que dentro de condições adequadas, devem se concretizar, entre eles o DVD e um songbook, pois acreditamos que faz parte da nossa missão, alimentar o desenvolvimento dessa formação.


Wooz - Vocês acham que o mercado de música instrumental é pequeno?

Fernando Lima - Acredito que sim. Me parece que na Europa e Estados Unidos as dificuldades são menores.

João Luiz - É pequeno por falta de interesse das gravadoras que não são especialistas em musica erudita ou instrumental.

Sidney Molina - Só não é pequena para as produções sazonais como músicas natalinas, por exemplo.

Wooz - Existem muitas peças escritas para a formação de quarteto de violões?

Fabio Ramazzina - Se compararmos com quarteto de cordas, piano ou violão solo, não existe muita coisa escrita.


Wooz - A formação de quarteto de violões é aceita pelos puristas?

Sidney Molina - Por princípio, tem sentido ser aceita, já que grande parte da estrutura da música ocidental, seja popular ou erudita, trabalha com essa idéia, por ser uma formação equilibrada. Veja o exemplo do quarteto vocal (soprano, contralto, tenor e baixo), ou do quarteto de cordas (1º, 2º violinos, viola e violoncelo) que são formações eruditas tradicionalíssimas, ou também piano, baixo, bateria e saxofone no jazz. A nossa aposta em 1992 foi justamente essa. Mas por ser uma coisa nova, não era muito aceita não. O cubano Leo Brouwer é um nome chave para essa mudança. Compositor consagrado nos anos 1980, como o principal nome da composição para violão da segunda metade do século passado, dedicou três obras especiais onde usa esteriofonicamente os efeitos violonísticos, ao contrário do que se fazia nos anos 1960 e 1970, onde compositores se inspiravam nos quartetos mais tradicionais. Outro que talvez tenha um peso similar é Egberto Gismonti.

Fabio Ramazzina - Podemos perguntar também quem são os puristas? Quem nos interessa, ou seja, grandes compositores brasileiros não ligados ao universo violonístico, tem escrito para quartetos de violão. Os principais exemplos são Almeida Prado e Ronaldo Miranda, ou seja, os principais nomes da música erudita brasileira já abraçaram essa formação como mais uma forma de arte.


Wooz - O Quarteto tem uma característica interessante, que difere da maioria dos músicos eruditos, que é tocar sem partitura. Vocês acham que isso traz mais naturalidade as interpretações?

João Luiz - Isso nos dá uma capacidade maior de improvisação. Pelo que eu já vi de grupos de câmara, só o Quaternaglia toca sem partitura. Garanto que isso assustou as pessoas.

Sidney Molina - Geralmente o solista toca sem partitura e o músico de câmara com. O nosso conceito de música de câmara não é o de juntar um ou dois nomes para um concerto, mas sim, o de trabalhar dia-a-dia até alcançar um integração total.

Fernando Lima - Isso traz uma liberdade para nós, seja na comunicação entre os componentes durante o espetáculo ou com o público.

João Luiz - A gente gosta de se olhar bastante.

Fabio Ramazzina - Talvez isso traduza uma tentativa de entendimento mais profundo da obra.

João Luiz - Por princípio tocamos sem partitura mas ensaiamos com ela.


Wooz - O repertório do grupo é composto por várias obras escritas e arranjadas especialmente para o quarteto por músicos do naipe de Egberto Gismonti, Ivo Pereira e Paulo Tiné. Qual a motivação em tocá-las?

Fernando Lima - É gratificante. O mais legal ao pegar uma composição nova, onde não se tem uma referência é dar corpo a ela, fazê-la soar, transformá-la numa obra fechada, audível. É um desafio muito legal.


Wooz - Vários países produzem importantes festivais de violões e o Brasil não. Existe espaço na agenda mundial para um festival assim no nosso país? Se bem organizado, atrairia grandes nomes?

Sidney Molina - Não caiu a ficha dos produtores brasileiros de música erudita, onde impera um certo amadorismo, o apelo de público que o violão tem, quando se programa alguma coisa com violão o evento lota. Nós estreamos num domingo de manhã chuvoso, num teatro importante de São Paulo, uma obra contemporânea para quatro violões e orquestra, sem nenhuma gravação anterior, e ficaram 250 pessoas para fora. Todas as experiências com festivais feitas no Brasil foram bem sucedidas, mas infelizmente não tiveram continuidade. Acredito que bem organizado atrairia grandes nomes e o melhor de tudo, não é muito caro. O Brasil já é uma referência mundial em intérpretes de violão, já tem um perfil próprio desde antes da bossa nova, e mais recentemente, com Turíbio Santos, Duo Abreu e Duo Assad, nomes fortes no cenário internacional. Temos Sérgio Abreu um lutier de renome internacional e um bom repertório, além do principal nome do repertório violonístico do século XX que é Villa-Lobos. Portanto, é inexplicável não ter um grande evento de violão no Brasil e principalmente em São Paulo. E sem dúvida existe vaga na agenda mundial para um evento assim.


Wooz - Quais os próximos projetos?

Sidney Molina - Num primeiro momento, vamos lançar o novo Cd em São Paulo, Campo Grande, Curitiba e talvez no Rio, no início do ano que vem nos Estados Unidos, e, em meados de 2005 na Europa, existe também a possibilidade de lançamento no oriente. Estamos fechando parcerias para a gravação do DVD, além de vários concertos com orquestra.

Wooz - Obrigado pela entrevista e boa sorte.


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