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     ENTREVISTA

Lutero Rodrigues, Maestro da Sinfonia Cultura, fala sobre mercado e música brasileira


Por Marcos Fávero

divulgação Apaixonado e pesquisador da música erudita brasileira, Lutero Rodrigues, afirma que nenhum outro país teve um músico tão importante no Século XX como Villa-Lobos


Wooz - Gostaria que você começasse com um breve currículo.

Lutero Rodrigues - Trabalhei com regência e coral até ir para a Europa dar continuidade aos estudos que iniciei na ECA/USP. Já na Alemanha conheci o professor, Martin Stephani e o grande maestro, Sergiu Celibidache. Quando voltei, fui regente por doze anos da Orquestra de Câmara de Curitiba, mais tarde, da Orquestra de Câmara do Teatro São Pedro, de Porto Alegre e diretor, durante um ano, da Orquestra da Paraíba, depois, desenvolvi projetos no Conservatório de Tatuí. Desde 1998, sou Coordenador Musical da Sinfonia Cultura, além de pesquisador de música brasileira.


Wooz - Como começou seu interesse pela música brasileira?

Lutero - A ECA dava preferência aos estudos da música contemporânea, da chamada "Escola de Viena" e, de tanto estudar, acabei me transformando num expert no assunto, mas, completamente alheio a tudo o que se fazia no Brasil. Essa orientação deixava de lado a música "nacionalista" brasileira, que tinha a ver com as nossas raízes. Até que numa das bienais de música que fazíamos na universidade, resolvi organizar um seminário sobre Villa-Lobos, assunto que infelizmente, desconhecia quase que completamente, mas que passou a me interessar, a partir do momento que recebi um monte de livros e outros materiais de Arminda Neves d'Almeida, a Mindinha, viúva do compositor. Depois que eu fui para a Alemanha, acabei descobrindo que eu conhecia mais sobre a "Escola de Viena" do que eles. Todos viviam me perguntando porque nós brasileiros dávamos tanta importância a esse período da música, já que o interesse deles era relativo. Eles sempre me perguntavam sobre a musica brasileira. Voltando ao Brasil, fui me informando sobre as principais correntes filosóficas e estéticas da nossa música e entrando de cabeça nesse mundo, onde acabei descobrindo toda a riqueza e importância dela.


Wooz - Nós damos menos valor à nossa música do que eles?

Lutero - A questão é cultural. Nós brasileiros, temos a tendência de desvalorizar o que é feito aqui. Tudo que é produzido no Brasil é visto com desconfiança, a não ser quando tem aprovação no exterior. E como não poderia deixar de ser, a música produzida aqui, padece do mesmo mal. Há um grande interesse na Europa pela produção musical de outras partes do mundo, principalmente em locais considerados exóticos.


Wooz - Egberto Gismonti, Dino Krieger e Marlos Nobre já não possuem esse reconhecimento tanto aqui como no exterior ?

Lutero - Mais ou menos. Dos que você citou, o que tem nome dentro e fora do país é o Egberto Gismonti, em função da sua própria natureza de compositor, instrumentista e divulgador de sua própria música, que tem penetração não só na esfera da música erudita como na popular. Tudo isso acabou abrindo as portas das gravadoras internacionais transformando-o num artista diferenciado. Dos eruditos, além de Villa-Lobos, o compositor que tem um nome relativamente conhecido é o Marlos Nobre.


Wooz - E Carlos Gomes?

Lutero - É conhecido pelos aficionados por ópera. Acho isso uma injustiça, pois na minha opinião, ele fazia uma música muito moderna para a sua época, que não foi entendida por quem mandava na música, os editores.


Wooz - E por que compositores como Villa-Lobos, Marlos Nobre e Carlos Gomes, não são reconhecidos como gênios pelos especialistas internacionais?

Lutero - O motivo está no poderio econômico e cultural que os países do primeiro mundo exercem sobre o gosto internacional. Além disso, a maior parte da música brasileira não está editada ou gravada, nem para o interesse exótico desses paises. Já, grande parte da produção internacional, encontra-se acessível e com uma sólida estratégia de marketing trabalhando a seu favor. Isso acaba gerando discrepâncias. Em minha opinião, apesar de toda essa força, nenhum outro país teve um compositor no século XX como Villa-Lobos. Nossa produção nesse século foi fantástica, com um número imenso de obras, porém desconhecida. Se você pegar qualquer catálogo de música erudita, você vai ver uma lista imensa de compositores americanos e uns dois ou três brasileiros. Isso nos deixa fora da história da produção erudita nesse século. E posso garantir, depois de muita pesquisa, que a música erudita brasileira é tão ou mais rica que a nossa música popular, que tem aceitação no mundo inteiro.


Wooz - E por que a música popular é mais conhecida lá fora?

Lutero - Se pegarmos a bossa nova como exemplo, veremos que ela estourou nos Estados Unidos por possuir uma linguagem familiar a eles. Wooz - Mas o crítico de música, José Ramos Tinhorão, afirma que a Bossa Nova é um subproduto do jazz americano.

Lutero - O artista não é impermeável as influências. Nos anos 50 muitas músicas e filmes vinham para o Brasil, como acontece até hoje, Radamés Gnatalli, músico maravilhoso e sensível, foi um dos precursores em usar harmonias muito próximas ao jazz americano, assim como Tom Jobim e João Gilberto. Eu acho que tal influência é inevitável, seres urbanos como nós, são bombardeados a todo momento por outras culturas. Não vejo isso como uma desgraça, mas como uma contingência desse mundo globalizado em que vivemos. Agora, isso não impede que preservemos nossas raízes e valores culturais. O Tinhorão é um defensor voraz do purismo na MPB e por isso se bate contra isso. Pessoas como ele são importantíssimos para que não nos transformemos em outra coisa, em um país dominado por culturas que não são nossa.


Wooz - Eu queria que você falasse um pouco sobre a Sinfonia Cultura.

Lutero - Em primeiro lugar ela é a única orquestra de rádio e TV da América Latina e isso é muito relevante. Essa condição possibilita a gravação de todas as atividades da orquestra, que é retransmitida num programa semanal na Rádio Cultura, transformando-se num documento precioso. Em segundo lugar, a TV Cultura já gravou 28 programas diferentes de música brasileira, e isso não é pouco em sete anos de vida. Fizemos também vinhetas para a Rádio e TV Cultura. Mas a grande função da orquestra, é sem dúvida, pesquisar e apresentar o vasto repertório brasileiro, vácuo imenso, existente na cultura nacional que a Sinfonia Cultura vem trabalhando para preencher. Para se ter uma idéia, já interpretamos mais de 300 obras de compositores brasileiros, sendo mais de 50 em primeira audição.


Wooz - A parceria com o Sesc Belenzinho seria uma outra vertente da função da orquestra que é a formação de público?

Lutero - Sem dúvida. Essa parceria batizada de Concertos Sesc e Sinfonia Cultura já está no seu quinto ano de existência. Isso é importantíssimo, pois é a única série de concertos oferecida para a maior região de São Paulo, a Zona Leste, que contabiliza mais de 160 programas temáticos produzidos. Ela é a que mais dá oportunidade de atuação aos artistas brasileiros, sejam solistas ou regentes.


Wooz - Existe um rank de orquestras no Brasil e em qual lugar está a Sinfonia Cultura?

Lutero - Eu, por princípio, sou contra essa forma de classificação, pois acho que a qualidade está atrelada aos recursos destinados para cada uma e a proposta estética adotada, mas para não fugir da sua pergunta, coloco a OSESP em primeiro lugar, seguida pela Orquestra do Teatro Municipal de São Paulo, que evoluiu muitos nos últimos anos. A partir daí, todas as outras orquestras profissionais estão no mesmo patamar, inclusive a Sinfonia Cultura.


Wooz - E quais as perspectivas de sustentabilidade das orquestras nacionais?

Lutero - As orquestras no mundo estão cada vez mais dependentes dos governos, mesmo nos países ricos. Para se ter uma idéia, na Itália, a RAI, que possuía várias espalhadas por muitas cidades, ficou apenas com uma em Torino, as outras foram extintas. Na Alemanha, muitas cidades estão fundindo orquestras. Com isso, a principal característica das que são ligadas a rádios e TVs, que é a de dar espaço a artistas contemporâneos, está diminuindo, e, consequentemente, a produção da nova música erudita será prejudicada.


Wooz - Vocês já trabalharam em um projeto educacional do governo do Estado, correto?

Lutero - Nós fizemos em 1998, 2001 e 2002 um projeto com a Secretaria Estadual de Educação, onde a Sinfonia Cultura visitava escolas estaduais mostrando para quem nunca havia tido contato com esse tipo de música, a riqueza sonora de uma orquestra. Foram 100 apresentações na periferia da capital e no interior, que acabou contribuindo com o esforço para a formação de público.


Wooz - A orquestra já trabalhou em projetos de teatro, dança e cinema?

Lutero - Sim. Eu chamo isso de atuação artística interdisciplinar, ou seja, é a interelação da Sinfonia Cultura com outras áreas da cultura. Por ser uma orquestra de rádio e TV, possuímos uma versatilidade natural para atuar em outros lugares, que não uma sala de concerto. Já acompanhamos quatro óperas, o Ballet Bolshoi por duas vezes, sonorizamos, ao vivo, filmes mudos e gravamos trilha de filmes, como Ilha Rá-Tim-Bum, O Cangaceiro e Pelé Eterno entre outros, além de espetáculos contemporâneos que exigem atuação cênica do maestro e dos músicos.


Wooz - Quais são os projetos futuros da Orquestra?

Lutero - Estamos trabalhando num programa educativo para a TV, com participação do Marcelo Taz e do Henrique Dourado, diretor da Escola Municipal de Música, onde eles conversam sobre assuntos relativos a música, orquestra e instrumentos enquanto a gente toca, e, por enquanto, sem previsão de lançamento. Além deste, eu tenho muitos projetos baseado no meu compromisso com o repertório brasileiro. Um deles, é gravar e editar sistematicamente o repertório musical brasileiro, especialmente, composições do século XIX e XX.


Wooz - Quantas obras seriam?

Lutero - Mais de mil obras sinfônicas brasileiras.


Wooz - Mas são mil obras importantes, que mereçam ser registradas?

Lutero - Talvez só a Alemanha tenha tanta produção com qualidade. Mas eu garanto que há um número muito grande de obras excelentes.


Wooz - E quanto tempo seria necessário para completá-lo?

Lutero - Pelo menos dez anos para que um panorama geral fosse traçado, e mais alguns para completá-lo.


Wooz - Você tem idéia de quanto custaria um projeto desse porte?

Lutero - Um estimativa exata eu não tenho, mas garanto que não é muito se comparado a bons projetos culturais que acontecem no país.


Wooz - Você quer falar mais alguma coisa?

Lutero - Quero comentar outro projeto. Uma ou duas vezes por ano, a orquestra gravaria em áudio e vídeo óperas brasileiras que seriam apresentadas pela rádio e TV Cultura, e que, depois de algumas edições, se transformaria num importante acervo da produção operística nacional.


Wooz - Eu te agradeço pela entrevista e espero que possamos aprofundar alguns desses temas em outra oportunidade?

Lutero - Eu é que agradeço e estou a disposição.