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     ENTREVISTA
A CAMINHO DA INTELIGÊNCIA COLETIVA
por Anselmo Massad


"A cooperação e, mais particularmente, a troca de idéias, a cooperação intelectual, é algo importante para o desenvolvimento cultural e social. A Internet é uma das ferramentas para esse desenvolvimento e é por isso que ela tem, em todo o mundo, um tal sucesso", acredita Pierry Lévy.

Ele nasceu em Tunis, capital da Tunísia, descobriu a pesquisa na Sorbonne (em Paris) e é professor da Universidade de Otawa, no Canadá. Aos 46 anos, autor de livros como O que é o virtual? e Cibercultura, Pierre Lévy atingiu um reconhecimento intelectual incomum para a pouca idade. Formado em História da Ciência, Sociologia e Filosofia, é um dos principais teóricos da internet, do hipertexto, das redes de comunicação, do ciberespaço.

Lévy esteve no Brasil a convite do Sesc e na unidade do bairro Vila Mariana, em São Paulo, participou de uma conferência a respeito de um de seus principais conceitos: a Inteligência Coletiva. Um dia antes, concedeu uma entrevista coletiva que contou com a participação da Fórum.

O texto a seguir é o resultado desses dois momentos, onde Lévy se mostra, como em toda a sua obra, otimista quanto às possibilidades do novo mundo que nasce com as novas tecnologias. Mas ele não é um iludido. Sabe que há muito a ser feito nas mais diferentes esferas da sociedade para que seu projeto de inteligência coletiva se torne realidade.

O infinitamente complexo Podemos comparar a nossa época ao século XVII, quando se inventou o microscópio e o telescópio e onde se descobriu todo um universo do infinitamente pequeno e todo um universo do infinitamente grande. Hoje estamos descobrindo o universo do infinitamente complexo, porque temos um meio de representá-lo, de interagir com esse universo justamente por causa da tecnologia intelectual que é a informática. É preciso ver, portanto, que se trata de uma abertura do campo do conhecimento possível porque há também uma abertura do campo de percepção, do campo do raciocínio possível.

Inteligência coletiva Há muito tempo reflito sobre inteligência coletiva e não sou o único a fazê-lo. Isso é tema de inúmeras pesquisas em muitos países do mundo, particularmente relacionadas com a utilização da Internet, de novas tecnologias. Esse é um movimento que se iniciou no domínio científico. Uma das mais antigas praticantes da inteligência coletiva é a comunidade científica, com suas jornadas, seminários e colóquios, em que cada um comenta o que faz, tentando construir um saber comum ­ ao mesmo tempo que têm liberdade de propor teorias diferentes. Não é à toa que foi a comunidade científica que inventou a Internet e que se serviu primeiro dela para trocas de idéias, cooperações etc. Mas ela não pára aí. A inteligência coletiva também é praticada no mundo dos negócios, da política ­ ou, para falar de uma maneira mais ampla, o da cidadania. Hoje, muitas comunidades locais, muitos governos de vários países estão tentando aprofundar os processos de consulta da população, os processos de democracia deliberativa através de fóruns de discussão sobre questões de política local. Seria uma ciberdemocracia.

Competição e cooperação
A inteligência coletiva não é um tema puramente cognitivo. Só pode existir desenvolvimento da inteligência coletiva se houver uma cooperação competitiva ou competição cooperativa. Trata-se de um jogo cooperativo, já que se acumula conhecimentos, há um progresso do saber etc. Mas isso só é um processo cooperativo e plenamente cooperativo porque também é competitivo. Se não houvesse a liberdade de propor teorias opostas àquelas que são admitidas, evidentemente o progresso nos conhecimentos seria muito menor. Portanto, é porque existe essa possibilidade de competição que existe a cooperação. Há, pois, dois aspectos: a liberdade ­ que é o aspecto competição ­ e o vínculo social, a amizade ­ que é o aspecto cooperação. É preciso acostumar-se a pensar nos dois ao mesmo tempo. É a partir do equilíbrio entre competição e cooperação que nasce a inteligência coletiva. Evidentemente não é a guerra de todos contra todos, nem tampouco uma cooperação obrigatória, regulada, que proibiria as diferenças de idéias, as lutas, os conflitos que são naturais e que, sobretudo, permitem ao novo se expressar.

Organização da inteligência Observemos o comportamento de uma multidão. Uma multidão é menos inteligente do que um indivíduo dessa multidão. O fato de diversos indivíduos estarem reunidos não ajuda muito. Se observarmos uma administração muito burocrática, centralizadora, com uma hierarquia rígida, dizemos que essa administração é provavelmente mais inteligente do que uma multidão porque ela pode fazer muitas operações e chegar a um certo resultado, mas ela não equivale à multiplicação de todas as inteligências das pessoas que participam dessa hierarquia burocrática. Provavelmente essa hierarquia burocrática é menos inteligente do que o grupo de dirigentes. As decisões tomadas são aplicadas de forma cada vez pior na medida em que se desce na hierarquia. Não se permite, obviamente, que a base tome decisões. Há muitas formas de organização e o desafio é inventarmos todos juntos formas de organização que não sejam nem anárquicas ­ onde não haveria nenhuma forma de cooperação ­ nem demasiadamente rígidas, mas sim as que permitam otimizar a capacidade de invenção das pessoas, suas competências, suas experiências, suas memórias.

Alcance da mudança
Eu poderia, assim, listar os campos onde se descobre que a cooperação e, mais particularmente, a troca de idéias, a cooperação intelectual é algo importante para o desenvolvimento cultural e social. A Internet é uma das ferramentas para esse desenvolvimento e é por isso que ela tem, em todo o mundo, um tal sucesso. Vocês poderão argumentar que apenas 7% dos brasileiros estão conectados à Internet. Evidentemente, temos consciência disso. No entanto, é preciso lembrar que isso é um processo histórico, uma tendência que deve ser avaliada em sua dimensão correta. Muitos séculos se passaram desde a invenção do alfabeto até a construção de uma civilização da escrita. Quando se inventou o alfabeto, por volta do ano 1000 a.C., não foi imediatamente que as pessoas aprenderam a ler e escrever. Há apenas dez anos, chegamos a ter a maioria (e não a totalidade) da população mundial sabendo ler e escrever. Foram necessários, portanto, três mil anos para se chegar a essa situação. Há dez anos, menos de 1% da população utilizava a Internet ­ pessoas nas universidades nos EUA e na Europa. Não era um fenômeno social. Hoje, é um fenômeno social e mundial. Alguns países estão mais avançados que outros, mas o movimento vai em direção do desenvolvimento. O que conta é a evolução, o movimento, a tendência. Portanto não podemos ser impacientes e nos escandalizarmos com o fato de que a maioria da população não está conectada. O que é preciso observar é a velocidade com que a curva de conexões aumenta, e isso já é notável.

Direção do esforço
Meu problema é em qual direção focalizar os esforços. Na direção da iniciativa, da autonomia, da liberdade, da cooperação, do diálogo. E como a internet oferece mais possibilidades nessa direção, é necessário trabalhar nessa possibilidade. As coisas mais horríveis podem acontecer, mas quanto mais trabalharmos nessa direção, menos chance haverá de que essas coisas horríveis aconteçam. Nós devemos, cada um a nosso modo, fazer com que o maior número de pessoas possível possam ter acesso a esse novo recurso fundamental da cultura que é a comunicação mundial interativa. Se 10% das escolas estão conectadas, é necessário trabalhar para que, isso continue crescendo e, digamos, em dois anos sejam 25% das escolas. Não se pode transformar uma realidade social de uma maneira mágica ou automática. Custa caro, exige esforços de formação, mudança de mentalidade, transformações institucionais etc. A solução não é de curto prazo. Não é do dia para a noite que vai se resolver esse tipo de problema. Os políticos têm um trabalho muito importante, que é o de fazer leis que favorecem o desenvolvimento social. É uma coisa que deve mobilizar toda a sociedade, de um modo cooperativo, tanto de um lado como de outro, bem entendido.

Suporte
A internet não tem nenhum interesse se você não sabe nem ler nem escrever. E não só saber decifrar, mas compreender um texto, saber colocar um problema, compreender o que é um problema e saber como procurar a informação. Se você não souber colocar um problema, formular a questão, mesmo que você saiba procurar a informação, a internet será menos útil. Tudo isso anda em junto a um desenvolvimento intelectual. A internet é um suporte, um meio, mas demanda aprendizados que precisam ser medidos individualmente. Se você sabe procurar uma informação numa enciclopédia de papel, 95% do trabalho já está feito. Evidentemente que na internet há milhões de vezes mais informação do que numa enciclopédia de papel, mas se você não tem a capacidade intelectual você fica fechada. Mesmo a capacidade de cooperar com os outros, de dialogar, de trocar conhecimento, essa nova civilização da inteligência coletiva passa por um esforço individual. A inteligência coletiva não vai pensar no meu lugar, justamente porque ela é o resultado da multiplicação dos esforços individuais para pensar em conjunto.

Professores
Eu não posso dar uma resposta universal sobre o que vai acontecer com os professores com a expansão da internet. A universidade vai conhecer muito mais transformações do que o ensino fundamental. A escola primária, nos próximos anos, não vai sofrer grandes modificações. As crianças pequenas têm uma autonomia cognitiva muito pequena e quanto mais se vai amadurecendo, mais pode haver autonomia. Acredito que continuará sendo necessário alguém para organizar o aprendizado, algo ligado à disciplina (risos). Isso não quer dizer que nenhuma inovação é possível. Nos EUA, há muitos pais que, utilizando a rede, ensinam as crianças eles mesmos, sem passar pela escola. Quer dizer, há recursos pedagógicos para complementar a educação.

Intelectuais e a internet
Os intelectuais são os intelectuais, os outros não o são. Com a internet, todo mundo pode publicar. Quem são os intelectuais? São aqueles que escrevem para o jornal, publicam livros, falam na TV. Na internet, absolutamente todo mundo pode fazer seu website ­ o que significa que temos muito mais liberdade de expressão. Eles perdem o privilégio da publicação. E é um universo cultural que afunda. Quando se é o privilegiado de um sistema que afunda, você se lamenta. Nessa situação, temos menos chance de ver o que está nascendo. O que tento fazer é olhar principalmente o que está aflorando. Quero olhar para a cultura que vai usar a inteligência coletiva, a cooperação intelectual como base.

Verdade e qualidade
A verdade não é uma qualidade inerente a uma proposição a priori. É resultado de um processo de pesquisa coletiva. A verdade mais prestigiosa, que é a verdade científica, é resultado do trabalho da comunidade científica. Alguns formulam hipóteses, outros as testam e há um progresso constante, uma concorrência constante de diferentes pontos de vista. Se não houver essa condição e alguma coisa é verdadeira porque uma autoridade diz que é, não haveria formas de melhorar a verdade. Outro exemplo. O que se quer com liberdade de imprensa é que nem todos os jornais digam as mesmas coisas. Se todos dizem a mesma coisa, não há interesse me liberdade de expressão. Mas se cada um diz uma coisa diferente, qual delas é a verdadeira? Não muda nada. Existem calúnias na imprensa e continuarão existindo.

Qualidade na internet
Existem várias formas de garantir a qualidade da informação na Internet. A revista Fórum tem um sítio, em que é o redator chefe da revista é quem garante as informações que estão lá. No site da USP, é a universidade que garante o que está lá. Os weblogs é um gênero novo, muito interessante, mas há uma relação de confiança e amizade entre aqueles que fazem o weblog. É um processo de conversa. Na internet, entre a publicação e a conversa, os limites são mais e mais fluídos. Em um sentido, é uma publicação. Em outro, é uma conversa. É uma "conversa-pública".

www.revistaforum.com.br