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     ENTREVISTA

ESCRITORA GIULIA MOON
(extraído do site Alan Moore Senhor do Caos)

Por José Carlos Neves

divulgação Giulia Moon é publicitária e sócia de uma agência de comunicação em São Paulo, escreve para internet desde 2000. Desde então seus contos têm se espalhado pela rede, podendo ser encontrados em muitos sites de fantasia, FC, horror e vampirismo. Giulia é moderadora de dois grupos de escritores na internet: Tinta Rubra e CryaContos, participa também dos grupos de discussão Adorável Noite e Fábrica de Letras. É co-editora do fanzine de literatura fantástica FicZine. Participa do Projeto SLEV - Suruba Literária Experimental Virtual, um grupo de escritores de Ficção Científica e Fantasia que escreve sobre História Alternativa. Especialista em contos de terror, escreve principalmente sobre vampiros, suas criaturas prediletas, embora não desdenhe lobisomens, canibais, mortos-vivos, extra-terrestres, assombrações e monstros em geral. Em suas histórias, tecla com delicadeza sobre assuntos sombrios, pois, na sua opinião, o terror deve ser antes de tudo um exercício de sutileza e inteligência.

José Carlos Neves: Giulia, o Moon certamente é um pseudônimo, né? Qual o seu nome completo? Onde você nasceu, cresceu e vive atualmente?

Giulia Moon: Na verdade, meu nome real é Sueli Tsumori, sou publicitária e diretora de arte formada pela FAAP. Sou paulistana, moro na Chácara Inglesa desde que nasci, isso se reflete nos meus contos, que geralmente se passam em ambientes urbanos. Giulia Moon é um nickname que criei para participar de grupos de discussão da internet. "Giulia" é como um amigo italiano chamava a namorada, Júlia. Gosto da maneira sensual dos italianos articularem as palavras, enchendo a boca para pronunciar o "giu", por isso adotei esse nome. E o "Moon" veio do meu fascínio pela lua e pela sua simbologia. A lua é a responsável por marés, ciclos vitais, crenças antigas sobre a fertilidade, o renascimento eterno e a dualidade de luz e sombra. E uma lua cheia, enorme, nascendo numa noite estrelada é linda, dá vontade de uivar. Adotar um nick foi também uma maneira de separar a publicitária da escritora para mim mesma, de um profissional da área promocional, é exigido muito esforço e dedicação, porque a competição é bastante acirrada. É comum dizer que precisamos matar um leão por dia para sobreviver. À noite, o período que disponho para escrever, eu queria esquecer os leões e cuidar de seres mais "amigáveis" como vampiros, lobisomens, sacis e outros monstros em geral, aí Giulia Moon entrou em cena.

Neves: Quando começou seu interesse pela Literatura e Cultura Pop? Na infância você lia muito? Pode citar autores e obras que a influenciaram?

Moon: Meu pai era um cartazista de cinema, profissão que não existe mais. Ele era o responsável pelos cartazes enormes expostos sobre as fachadas dos cinemas, telas gigantes de tecido e madeira pintados à mão, mas de curta duração, pois eram substituídas todas as semanas quando o filme saía de cartaz. Com meu pai, aprendi a gostar de desenhar e a curtir cinema, mangás e livros. Ele chegou ao Brasil com apenas 13 anos e, mesmo tendo dificuldade para ler em português, era um grande devorador de livros e de histórias em quadrinhos. Por sorte, herdei essa compulsão dele. Até hoje tenho a coleção de revistas do Asterix e dos personagens Disney que eram do seu Kazuo, como o chamavam os empregados do estúdio, ele também comprava para mim os mangás, em japonês. Li na adolescência escritores para adultos como A. J. Cronin, Somerset Maugham, Pitigrilli, Stefan Zweig, xeretando nos livros dele, hoje a maioria desses autores estão esquecidos. Na época, não era exatamente o tipo de literatura que eu apreciava, mas lia de tudo, desde livros de bolso, fotonovelas e biografias até revistas de atualidades e enciclopédias. Li muito e de forma desorganizada, misturando clássicos com HQ, Ficção Científica com terror. Mas a minha preferência sempre recaiu sobre terror, policiais, FC, romances históricos e fantasia, tive fases em que lia obsessivamente tudo de um determinado autor ou personagem, procurando nas bibliotecas e sebos. Passei por isso com as aventuras de Arsène Lupin e de Sherlock Holmes, os policiais de Agatha Christie, Ficção Científica de Isaac Asimov e Ray Bradbury, todos os livros de Tolkien, toda a obra de Edgar Allan Poe e Lovecraft e os romances de Érico Veríssimo. Depois, como queria ler mais material de determinado tipo - fantasia e terror - comecei a criar as minhas próprias histórias, desenhando mangás. Depois, meu tempo livre foi diminuindo e comecei a escrever contos, em cadernos, mas sem regularidade.

Neves: O que te atraiu para a literatura "mais sombria", algum autor e/ou obra em especial?

Moon: O que escrevo continua sendo em última instância aquilo que eu gosto de ler, e, se levarmos em consideração que comecei a escrever regularmente há 3 anos apenas, a minha maturidade como leitora supera de longe a da escritora, sempre gostei de ler contos de terror e, em livros que não são exatamente desse gênero, as partes que me atraíam tinham elementos de terror. Não saberia explicar as razões para isso, talvez elas estejam na mesma origem de meu fascínio pelos vilões e por histórias sem finais felizes tradicionais. Sem dúvida, a sensação de perigo e de medo é uma ótima fonte de diversão, e acho que é esse friozinho no estômago e que me faz gostar do gênero. Quanto à escrita, fica até difícil citar alguns escritores. Começou com Poe, na adolescência, quando percebi pela primeira vez como um texto poderia infundir no leitor um clima intenso de estranheza e ambigüidade, construindo cenários sombrios e personagens perturbadores apenas jogando com as palavras certas num ritmo determinado. Aprendi a admirar não apenas os seus textos sombrios como a Queda da Casa de Usher, mas também contos de um humor cruel e irônico, como o Barril de Amontillado. O meu conto preferido é o Gato Preto, uma maravilha de enredo, construção de clímax e estilo, talvez por adorar gatos, seja como personagem ou animal elegante e misterioso que é. Lovecraft me impressionou devido a capacidade de colocar na cabeça do leitor, um estado de espírito peculiar, uma angústia e inquietação únicas. Os Chtulhu causam essa angústia, pois parecem sempre fora do nosso alcance e de nossa compreensão, separados pelo tempo, pela natureza completamente estranha à humana, ele criou algo realmente aterrador e original. Stephen King é o grande autor moderno de terror, gosto mais de seus contos do que de seus romances, embora ele tenha escrito os grandes livros de horror do século XX. Há pérolas de observação sensível e sutil nos seus pequenos contos sobre crianças, velhinhos e mulheres de meia-idade, trazendo essa classe de costumeiros coadjuvantes para as luzes principais, transformando-os em protagonistas de histórias inesquecíveis. Ele manipula todas as emoções do leito, desde o pavor puro até sentimentos doces como a compaixão, a alegria e a nostalgia. Não poderia esquecer Bram Stoker, autor de Drácula, o clássico dos clássicos vampíricos, pois além de ter modernizado o romance vampírico, acrescentando vários detalhes e aspectos criativos aos personagens, Stoker mostra a visão da vítima de forma real e angustiante, principalmente no trecho inicial com Johnathan Harker no castelo do conde. E, claro, a rainha dos escritores de vampiros, Anne Rice, que trouxe a modernidade para os velhos Nosferatus, ela deu a cara definitiva aos vampiros sedutores da literatura, Lestat, o vampiro por vocação, bem-resolvido, predador e cruel, e Louis, o vampiro politicamente correto, arrependido e desajustado à sua condição.

Neves: E no cinema, o que você realmente gosta?

Moon: Gosto de filmes que contam bem uma história. Pode ser tudo, uma aventura de terror, de ficção científica, um romance, uma biografia, um anime, mas tem que ser uma peça eficiente de comunicação. Gosto de filmes como Os Outros, O Sexto Sentido, Pacto dos Lobos, O Homem que Queria Ser Rei, O Senhor dos Anéis, O Círculo, Laranja Mecânica, Kagemusha, Akira, Drácula, Cowboy Selvagem, Mortos de Fome, Los Angeles, Cidade Proibida, Entrevista com o Vampiro, O Auto da Compadecida, Central do Brasil, A Viagem de Chihiro e mais uma montanha de títulos que não lembro agora, mas vou sentir falta na lista, depois.

Neves: E em musica, algum gênero ou banda em especial?

Moon: Adoro rock dos anos 60, principalmente Rolling Stones, fora isso, gosto de todos os estilos, inclusive clássicos e óperas, há uma música de Saint-Saëns, Danse Macabre, que estou usando para um conto ainda inédito, eu adoro. Ultimamente tenho ouvido muito classic rock: Alice Cooper, Kiss, Metallica, Alice in Chains, Live, É uma fase.

Neves: Por que a atração especifica por vampiros? Você encara o tema como uma metáfora, mito, ou tem outra concepção?

Moon: Gosto de vampiros porque são vilões ambíguos e sutis. Semelhantes aos seres humanos na aparência e inteligência, são a versão selvagem, sem controle, sem moral. Escrever sobre vampiros é fascinante, pois estamos falando de criaturas que contradizem alguns grandes tabus: não morrer, não envelhecer, caçar o homem e cometer uma espécie de canibalismo, ao sugar o sangue humano. O vampiro é tudo isso. Claro que depende de como você os coloca no história. Os meus vampiros são predadores, é assim que os trato e os apresento, são como leões e lobos, fazem parte da cadeia alimentar onde os humanos são suas presas. Semelhantes aos humanos, têm sentimentos, neuroses, dúvidas e humores instáveis, como predadores, serão perigosos na maior parte do tempo mas não são maléficos no sentido da moral, eles apenas seguem o seu instinto e satisfazem a necessidade básica de suprir a fome. Dentro dessa premissa, descrevo as variações possíveis, contando histórias para divertir quem gosta de levar alguns sustos, não há susto maior do que saber que em algum lugar um predador está te espreitando, movido pelo desejo de comê-lo.

Neves: Alguma influência de Anne Rice?

Moon: Ah, quem não tem? Anne Rice tirou o vampiro dos porões úmidos e castelos mofados de filmes B e trouxe para os palcos, estantes de bestsellers e cabeceira dos intelectuais. Ela escreve com classe e de forma séria, pesquisando e embasando historicamente seus enredos. Escreveu alguns clássicos de literatura vampírica de valor inegável, Entrevista com o Vampiro, O Vampiro Lestat e A Rainha dos Condenados são as suas obras-primas, gostei também de O Vampiro Armand e Pandora. A maior qualidade dela foi ter descrito as emoções dos vampiros de forma consistente e crível, fazendo com que o leitor passasse a senti-los, conhecê-los, odiá-los. E a amá-los, ela tem a minha admiração sincera por ter conduzido os vampiros para esse mundo real. As Crônicas Vampirescas de Rice, aproximaram o público feminino para a literatura de terror. Eu escrevi o meu primeiro conto de vampiros, A Dama Branca, depois de ler O Vampiro Lestat, que na minha opinião, é o melhor de todos. Os últimos romances de Rice estão bem aquém da qualidade e impacto dos primeiros clássicos, independente disso, ela possui respeito e admiração dos fãs de terror.

Neves: Qual a característica dos vampiros mais nos atrai, imortalidade?

Moon: O que mais me atrai nos vampiros é a sua fome. O fato de nós, humanos, sermos sua fonte de alimento sexual e a satisfação de carências emocionais. E, claro, à simplicidade do bem-estar mais básico e também o mais universal, a sensação de um estômago cheio. O vampiro é um ser eternamente carente e esfomeado, que procura nos outros a satisfação que não encontra em si mesmo. E isso é uma procura sem fim, infelizmente. Nessa procura o vampiro joga um jogo sado-masoquista de dominação e violência com os humanos e com os de sua espécie mas esse apelo não é universal. Acredito que para alguns a imortalidade seja um maior atrativo, para outros, a juventude eterna. Para outros, ainda, a capacidade de se transformar em lobo ou névoa como descreve Bram Stoker. O vampiro pode ser um monstro, um sedutor ou um herói detentor de super-poderes, depende do seu público. É um exemplo de produto bem acabado e com mercado certo.

Neves: Como ficcionista e dotada de grande imaginação, como você acha que seria ser imortal, não seria tedioso? Moon: É o que muitos dizem e exploram na ficção, mas não acredito nisso. Acho que ser imortal deve ser a coisa mais maravilhosa do mundo. Ver o mundo mudando, os séculos passando, e saber que não é necessário correr para não perder a chance da sua vida amanhã, porque terá o depois de amanhã, o depois de depois de amanhã, e depois, e depois, isso deve ser maravilhoso. Conhecer milhões de pessoas, tentar guardar milhares de lembranças, ter medo de perder o passado, não o futuro, seria uma experiência no mínimo bem instigante!

Neves: Alem disto, somos todos sempre atraídos pelo desconhecido, pelo que "há alem", será que como imortais, não seriamos compelidos a sentir uma atração pela morte, pelo morrer, para saber o "como seria"?

Moon: Bem, não somos imortais, mesmo assim temos essa curiosidade sobre o que há após a morte. Se houvesse a possibilidade de atravessar a porta do além e voltar, talvez fosse uma boa descoberta, quem sabe, após viver muito tempo, um imortal sentiria uma curiosidade mórbida sobre o assunto.

Neves: Quais são os seus métodos criativos para escrever?

Moon: Apenas escrevo. Nada de rituais, de condições especiais, preciso apenas concentração, uma frase inicial e tocar pra frente, escrevo em frente à TV, no meu quarto, no meio de uma multidão conversando, não me importo, sou capaz de me concentrar exclusivamente naquilo que estou fazendo. Quando comecei a escrever mais freqüentemente, há 3 anos, eu ia escrevendo e o enredo ia surgindo sem muito controle, produzia aleatoriamente, geralmente contos curtos. Hoje sou capaz de escrever com um propósito definido, o tom certo e o tamanho de texto exato mas ainda prefiro escrever uma frase inicial e deixar as idéias fluírem, a única coisa que preciso é de um computador, não consigo mais escrever à mão.

Neves: De onde tira suas idéias?

Moon: De tudo. De uma frase, uma cor, um gesto, um momento do dia. Já escrevi um conto inteiro porque a coloração vermelha-acinzentada do pôr-do-sol de um dia nublado me fez pensar que seria incrível se você vislumbrasse, recortada sobre aquele cenário, a silhueta de uma vampira caminhando diretamente para você. Já tive algumas ótimas idéias observando o comportamento de formigas ou o ataque dos leões num documentário do Discovery Channel.

Neves: O que da sua ficção sai da sua própria vivencia?

Moon: Acho que tudo. Não sou uma mulher maravilhosa como Maya, a minha personagem vampira. Nem tenho repentes de crueldade como eles mas sou uma boa observadora dos detalhes da paisagem, dos gestos, das reações humanas. A maioria dos meus contos tem São Paulo como cenário, embora muitas vezes isso não seja dito. Alguns personagens têm traços de pessoas que conheço, inclusive os seus defeitos mas nenhum deles é 100% alguém. Vivo cada instante dos meus contos na minha mente. Imagino como se fossem minhas, as reações, os sentimentos mais mesquinhos dos vilões, não digo o mesmo quanto aos heróis, pois são raros em minha ficção. A maior parte do que escrevo nasce da minha imaginação. Ela dá o toque final aos dados que a minha vivência recolhe do mundo real.

Neves: Muitos escritores escrevem para tentar lidar com a desordem emocional que ele (e todos nos) vivemos e nos encontramos. O que você pensa disso?

Moon: Como dizia Hashi, uma estagiária coreana que trabalhava comigo: "cada um, cada um". Essa simplicidade traz uma grande verdade. Acho que cada escritor deve encontrar a sua razão pessoal para se empenhar não só na escrita, mas em qualquer atividade da sua vida. Eu escrevo para me divertir, eu gosto de escrever, de criar personagens, frases de efeito, diálogos engraçados. É um verdadeiro prazer sentar-me em frente ao computador e começar um novo conto, por isso, mesmo quando chego tarde do trabalho, não consigo ir para cama sem trabalhar um pouco nos meus contos. E às vezes continuo escrevendo até de manhã, para mim, escrever é lazer, não é terapia.

Neves: O que tem feito atualmente e quais seus novos projetos?

Monn: Estou trabalhando ativamente na divulgação do meu primeiro livro de contos, Luar de Vampiros, em fantasmas, monstros, canibais e até dragões e princesas. Tenho participado de um grupo literário coordenado por Rogério Amaral de Vasconcellos, que se dedica à elaboração de um universo baseado em História Alternativa: a SLEV - Suruba Literária Experimental Virtual. É um grupo de escritores e ilustradores do Brasil inteiro produzindo um ótimo FC. Já existem vários títulos em formato ebook à disposição dos leitores para download no site respeitando-se as características e o estilo de cada autor. Baseado neste universo da Slev, estou escrevendo pela primeira vez algo mais longo, que vai dar origem, se tudo der certo, ao meu primeiro romance, ainda sem nome. A convite de Marco Bourguignon e Rogério Amaral de Vasconcellos, editor e co-editor da Scarium Megazine, estou participando como jurada do II Concurso Scarium de Contos e Ilustrações, uma iniciativa que visa revelar novos talentos - e há muitos - na área da fantasia, FC e terror. Com a parceria de Martha Argel, autora do romance de vampiros Relações de Sangue e do livro de contos O Vampiro de Cada Um, estou editando um fanzine dirigido à ficção de terror, FC e fantasia, o FicZine, tivemos o nº Zero, o Um e agora já estamos elaborando o nº 2. Para quem quiser conhecer o FicZine nº Um, está disponível para download no meu website: http://www.giuliamoon.com.br/. A sua versão em papel está saindo também como encarte do Scarium Megazine. E tem também o meu trabalho na internet, coordenando dois grupos de escritores como moderadora: o CryaContos , de contos de fantasia, terror e FC e a Tinta Rubra, de contos e poemas de vampiros. Lá, os demais moderadores e eu organizamos concursos, contos coletivos, exercícios, além de comentar os trabalhos dos nossos colegas. Claro que isso tudo à noite e nos fins-de-semana, pois trabalho na minha agência, a Companhia Ativadora de Negócios, normalmente, em jornadas diárias de 10 horas, em média.

Neves: Sua ficção muitas vezes transpira um senso de absurdo e consegue falar de vampiros e vampirismo com eficiência, ou seja, "suspender a descredibilidade" - qualidade que, com certeza, é imprescindivel a todo escritor de gênero principalmente - Sabe explicar as causas, se as há?

Moon: Quando você escreve dentro de um universo ficcional específico, precisa seguir as leis desse universo, por exemplo: estabeleci um critério de determinadas características e limitações para os vampiros e, sempre dentro desse critério, vou contando a minha história, o resto é deixar as emoções fluírem, e transmiti-las aos leitores. Basta ter um pouco de bom-senso e a capacidade de levar o leitor pela mão, caminhando ao lado dele, sem se tornar um autor chato e superpoderoso. Temos que nos lembrar que estamos falando a pessoas que batalham duro no seu dia-a-dia, que vão abrir o seu livro na sua hora de descanso e querem ter uma experiência rica e interessante durante a leitura, e não aos críticos ou aos outros escritores. Ao respeitar os critérios mesmo dentro de um mundo fictício, você ganha a confiança do leitor. E ele vai aceitar jogar o seu jogo, embarcando junto na sua fantasia.

Neves: Quais foram os eventos mais importantes que já ocorreram em sua vida?

Moon: Acho que a morte de meu pai em 1992, que mudou profundamente a minha maneira de ver a vida, e a morte. Literariamente falando, houve a descoberta dos grupos de discussão de escritores em 2000, que me fez começar a escrever regularmente e mostrar o meu trabalho para um público vasto e interessante: os internautas mas acho que o grande acontecimento até hoje foi o lançamento do meu livro Luar de Vampiros no ano passado. Esse acontecimento serviu de marco na minha vida, servindo para mim mesma como um divisor de águas, a partir daí tive realmente a consciência de que sou mesmo uma escritora.

Neves: E atualmente, o que lhe é realmente imprescindível, seminal?

Moon: Ler mais, ver mais, ouvir mais e conversar mais com pessoas interessantes, e, principalmente, divertir-me muito mais com isso. Escrever, para mim, tem que ser assim, já sou uma profissional reconhecida em outra área, dura e estafante, para levar avante uma segunda ocupação, só se for para ter muito prazer. Esta condição está muito clara na minha cabeça.

Neves: Acha que a nossa Literatura de gênero tem evoluído? Quais autores, tanto de ficção quanto de fato, ensaístas, críticos, etc, você considera dignos de nota?

Moon: Peço licença para me ater ao gênero que melhor conheço: a de terror, fantasia e FC. Acho que há, sob o manto do anonimato de milhões de internautas produzindo material inédito, gratuito e de qualidade indiscutível, uma grande massa de gente com um talento surpreendente para a literatura de fantasia e ficção. Esse pessoal vai explodir na mídia logo. Não vai ter como segurar. Foi através da internet que conheci Martha Argel e começamos uma ótima parceria, trocando informações e experiências. Nos grupos Tinta Rubra e CryaContos aparecem muitos escritores de grande talento que estão se aprimorando no trato com o público e afiando suas armas para batalhar o seu lugar no mercado: Adriano Siqueira, Paulo Castro, Richard Diegues, Mônica Virgo, M. Tetsuo, Raul Tabajara, Simone Nardi, só para citar alguns. Foi também pela internet que conheci a Slev, o grupo experimental coordenado pelo Rogério Amaral de Vasconcellos que reúne bons escritores de FC ainda desconhecidos pelo grande público como o próprio Rogério, Ernesto Nakamura, Ricardo Caceffo, Gabriel Bozano, Cláudia Furtado e muitos outros, a cada instante surgem novos grupos e novos sites de literatura. O espaço virtual está sendo muito bem aproveitado pelos novos talentos como mercado de teste antes do vôo definitivo. Nas livrarias, é evidente o sucesso de André Vianco, que mesmo sem captar muita atenção da mídia especializada, é um fenômeno de vendas. Os seus livros de vampiros proporcionam diversão, muita ação em enredos movimentados e com ótimos achados criativos. O público adora o André, e isso é um ótimo sinal para nós todos que queremos uma parte desse mercado. Vou mencionar alguns autores "darks" e se você já leu algo deles, comente, por favor: Clive Barker, Poppy Z. Brite, Neil Gaiman, H.P. Lovecraft, Poe, Machen, Ramsey Campbell, Anne Rice e o popular Stephen King. Acho que já sitei a maioria desses autores nas questões anteriores, sem dúvida Neil Gaiman - é um dos meus favoritos, a sua capacidade de tecer narrativas extraordinárias unindo as imagens à prosa é notável. Eu adoro toda a série Sandman, são verdadeiras obras-primas, que espelham bem um horror desencantado e macabro, de ótimo efeito. Clive Barker é um gênio do horror explícito e sem meias-medidas. Ele cutuca as cenas mais pérfidas e cruéis com a frieza de um cirurgião, a sua prosa tem, apesar disso, um ritmo único, seco e eficiente, muito bom de ler. Eu gosto muito do seu estilo, tenho vontade de escrever algo assim. Andei também lendo alguns contos de Algernon Blackwood, um autor do início do século XX, pouco comentado aqui no Brasil, que me encantou pela prosa envolvente e delicada e a capacidade de criar o medo a partir de elementos muito sutis como o vento, os ruídos, a paisagem e pequenos objetos. Especializado em contos, como eu, sabe conduzir o timing da narrativa sem perder a fluência e o ritmo. O seu conto Os salgueiros é um grande clássico. Para quem gosta de vampiros, recomendo a leitura de A Última Vampira de Whitley Strieber, autor também de Fome de Viver. Uma narrativa envolvente para uma premissa criativa sobre a origem dos vampiros e da sua convivência com os humanos.

Neves: A atração pelo mórbido é intrinseca aos seres humanos, mas acho que os escritores principalmente, tem essa faceta mais aguçada, quais seriam as causas?

Moon: Tudo que é proibido ou perigoso exerce um fascínio irresistível, é como olhar para baixo no alto de um prédio e imaginar-se caindo, ou pegar um canivete afiado e ter vontade de passar o dedo pelo seu fio, a morte e a violência são exatamente isso. O perigo, o medo, o proibido. Nos escritores, essa capacidade de tecer hipóteses é mais aguçada, talvez por isso eles externem mais essa atração, acho que todo mundo tem esse sentimento em maior ou menor grau. Por exemplo, estou lendo um livro ótimo que se chama Histórias Perversas do Coração Humano, o autor, Milad Doueihi, é professor do Departamento de Língua Francesa da Universidade de Baltimore e o livro fala sobre as histórias sórdidas, misteriosas e estranhas do coração, o órgão. Principalmente sobre o costume perverso de se devorar corações dos desafetos ou dos inimigos, trata de lendas, da mitologia, casos verídicos e literatura sobre o tema, não é interessante constatar que existe um público para um livro tão específico e tão macabro?

Neves: Você também se sente atraída pelos serial killers por exemplo, pelo que se passa na mente de um psicopata?

Moon: Sim e não. Teria que ter algum elemento fantástico para despertar o meu interesse. Explicar atos escabrosos sob a luz de uma deformidade psicológica não me atrai por si só.

Neves: Então não deixe de ler a Entrevista com a "caçadora de serial-killers" Ilana Casoy. Você sabe que neste site, muita coisa gira em torno do cultuado autor e roteirista inglês Alan Moore. Que ele foi o criador da obra From Hell, para os quadrinhos, depois desperdiçada por Hollywood, e que ele, "para vencer a crise existencial dos 40 anos", resolveu se tornar um mago. Estudou muito Aleister Crowley, Austin Osman Spare, participou de experiências e acontecimentos no mínimo "fora-do-script", como ele gosta de descreve-los. Você acredita na Magia, na Cabala e outros desdobramentos, ou tenta também, como James Randi tupiniquim, Padre Oscar Quevedo, explicar tudo à luz da Parapsicologia?

Moon: Acho que todo mundo aqui conhece Alan Moore e o admira, suas histórias intrigantes elevaram a leitura de HQ à condição de uma atividade tão sofisticada quanto a da leitura de grandes clássicos. Quanto à necessidade de vivenciar a experiência de se tornar um mago, é uma decisão inerente ao ser humano Alan Moore, não o escritor ou personalidade pública, com certeza, isto deve ter lhe proporcionado experiências fantásticas. Cada escritor tem maneiras diferentes de encontrar a sua inspiração, a minha preferência durante a criação de um conto é apresentar o inexplicado, não o de explicá-lo, qualquer explicação, seja de um mago ou de um parapsicólogo, se aceita, traz um conforto psicológico que nem sempre tem lugar numa narrativa de terror, gosto de deixar a dúvida no ar, costumo pesquisar sobre Magia, ou rituais antigos, ou mesmo sobre biologia ou ciências médicas para encontrar elementos para compor o conto. O que procuro não é explicar algo, mas explorar possibilidades

Neves: O que pensa da Magia?

Moon: É um ótimo tema para ficção de terror, a simbologia da Magia sempre me atraiu, é um universo rico e misterioso por si só, mas como um elemento a mais do inexplicado a ser explorado. Respeito os que se dedicam a esse estudo, sou, como disse, favorável a cada um aproveitar o seu tempo para estudar e se dedicar a assuntos que sejam do seu interesse e com total liberdade. Não seria diferente com Magia.

Neves: Voltando aos seus escritos, o que você fez que considera o melhor até agora?

Moon: Em se tratando de satisfação pessoal, sem dúvida os contos do meu livro Luar de Vampiros. Reuni no livro um apanhado da minha trajetória como contista até 2003, mesclando contos antigos com novos. A boa recepção dos leitores, destacando tanto os primeiros contos que escrevi quanto os últimos, foi a melhor coisa que eu poderia esperar, mas estou convencida que os novos contos que estou reunindo para o próximo livro estão mais maduros e mais eficientes. O que espero mesmo, é sempre poder apontar o último e o mais recente como a minha melhor obra. Isso significa que estou sempre crescendo, acho que é uma ambição que devo cultivar.

Neves: O que pensa que acontece com a consciência após a morte?

Moon: Não tenho a mínima idéia. Essas questões, por enquanto, não são importantes para mim, só espero que a morte não extinga tudo, pois acho o tempo de vida de um ser humano comum curto demais para tudo o que gostaria de fazer.

Neves: Dostoyevski escreveu que na ficção, a consciência das personagens devem interagir e se debater até somente com as consciências das outras personagens, ficando o autor totalmente "de fora". Como pensa que um conto ou romance deve ser, formalmente falando, para atingir esse objetivo? Há alguns autores que fazem questão de exibirem suas próprias personalidades nas suas obras, os seus personagens nada mais são do que facetas de si mesmos, espelhando a moral, a ideologia - e as limitações, eu receio - do criador. Na verdade, eu não poderia afirmar qual é a forma ideal da escrita, mas a maneira em que me sinto mais confortável ao escrever é tentar colocar-me na pele de cada personagem e esquecer nesses momentos quem sou, ou no que eu acredito como certo ou errado. Nunca julgar, apenas tratar com absoluta imparcialidade cada personagem e ir desenvolvendo determinadas premissas da forma mais natural possível, deixando para cada leitor o seu próprio julgamento. Cada escritor não é apenas um, mas milhões. Um número infinito de personagens vivendo e nascendo ininterruptamente na sua mente, tornando a sua escrita mais original e produtiva. Somos uma legião, como diz a Bíblia.

Neves: Quais sites da web você visita com freqüência?

Moon: O site que mais utilizo é a Google. Lá eu pesquiso sobre tudo, para compor cenários, personagens, história, visito também o Yahoogrupos para dar manutenção aos grupos que modero. Claro que o meu blog O Santuário da Senhorita Moon e o meu website www.giuliamoon.com.br são as minhas paradas obrigatórias de todos os dias. Como tenho pouco tempo disponível, tenho navegado de forma bem prática, só indo a um site se tenho necessidade de alguma informação.

Neves: Qual foi a experiência mais louca que você já experimentou na vida?

Moon: Não sei se foi a mais louca, mas a mais engraçada foi em San Francisco, quando descobri nos classificados de um jornal de variedades o anúncio de um tour vampírico pela cidade, começava em frente a catedral às 20 horas da noite, claro que fui lá conferir. Uma mulher com uma capa preta e trazendo na mão um candelabro de velas com luzinhas nas pontas, acesas com pilhas, apareceu no horário, tinha mais uns cinco turistas que apareceram para conhecer o San Francisco vampírico. Ela andou por alguns locais próximos contando com caras e bocas uma História Alternativa sobre a fundação da cidade através das intervenções de antigos clãs de vampiros, era inverno e a noite estava gelada e ventando muito. Minha irmã e uma amiga desertaram no meio caminho, me deixando sozinha com a minha teimosia. Agüentei firme até o final do tour, que terminou num bar com um brinde de bloodmary, foi divertido ao final das contas mas bem trash.

Neves: Qual foi o sonho mais louco que você já teve?

Moon: Infelizmente não costumo lembrar dos sonhos. Gostaria de lembrar de todos, mas às vezes os esqueço logo que acordo. Só fico com aquela impressão esquisita na cabeça. Um dos poucos sonhos que me recordo era uma cena curta, mas bem bonita: era uma festa numa mansão do início do século e os convidados, todos vestidos de branco, circulavam no jardim cheio de flores de tons pastéis. Era umas seis da tarde, com o sol já quase no ocaso, uma música clássica, suave, era executada por um quinteto de cordas. E, no centro do jardim, 3 onças estavam sentadas sobre um pedestal de mármore rosado. Uma era toda branca, outro era uma onça pintada e a terceira, uma pantera negra. E os convidados serviam-se da carne delas, cortando nacos de suas ancas com garfos e facas de prata, elas, embora vivas, não pareciam se importar. Rosnavam e agitavam as caudas, mas continuavam ali, sendo devoradas aos poucos, sem esboçar reação.

Neves: Caramba! Já imaginei aqui uma cena destas pintada simltaneamente por Frazetta e Simon Bisley. Tem alguma pergunta que não foi feita mas que, por você ter algo realmente interessante a acrescentar, você gostaria de responder?

Moon: Ufa! Foi a entrevista mais longa que já respondi, não me ocorre nada no momento, mas estou à disposição para quaisquer esclarecimentos.

Neves: Obrigado Giulia, por dividir conosco um pouco do seu precioso tempo.

Moon: Eu é que agradeço, José Carlos, pelo espaço concedido. Espero que os seus leitores tenham curtido a entrevista. Foi divertido.



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