:: institucional           :: projetos           :: serviços           :: sala de imprensa          :: parcerias          :: loja          :: contato     

CANAIS WOOZ

artigos
agenda cultural
artes visuais
cultura
cinema
dança
entrevistas
fotografia
internet
literatura
música
teatro
terceiro setor



Fernando Fogliano
Roseli Pereira
Valmir Junior



clique aqui e faça um cadastro para receber informações Wooz
     DANÇA

Projeto Memória - Somente para lembrar

Por Eliana Caminada*

Outro dia, num e-mail, minha amiga Ana Luíza Freire escreveu: "Cami, finalmente apareceram as margaridas: encontrei, na Feira de Livros de Porto Alegre, as biografias da série Projeto Memória dos Artistas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro."

Fiquei surpresa e, confesso, entusiasmada com a notícia de que os livros, até então desaparecidos, estavam, finalmente, disponíveis para o público. Sequer me aborreci ao pensar que nós, os autores, e os biografados - os vivos ou suas famílias - não haviam sido comunicados de coisa alguma. Até porque, do desprezo com que havíamos sido tratados pela administração Antonio Grassi não esperávamos nada diferente; a direção que lhe sucedeu apenas dera continuidade à falta de educação e despreparo que norteara a anterior.

Não durou muito minha alegria. Num segundo e-mail Ana Luíza enumerava os livros que conseguira adquirir relativos à dança - Dennis Gray, Eugênia Feodorova, Maria Olenewa, Nina Verchinina e Tatiana Leskova - e tudo ficou claro: os volumes à venda pertenciam ao primeiro lote de biografados, justamente os que haviam sido lançados pela administração Dalal Achcar, em bela festa no foyer do balcão nobre do Theatro, patrocinados, então, pela Funarte.

Fora uma bonita e justa comemoração, com a presença de diferentes gerações de artistas da casa e personalidades da cidade; um lançamento que valorizava o resgate tardio, mas sempre oportuno das figuras dos nossos pioneiros, não só para nossa própria história, mas sobretudo para as novas gerações, que precisam ser alertadas para o fato de que só estão naquele lugar, integrando a orquestra, o ballet ou o coro, porque artistas idealistas e visionários os haviam precedido e construído, no passado, o presente; que lhes cabe prosseguir sua obra construindo o futuro.

Não, os livros desaparecidos eram outros, em muito maior número, inclusive; abrangiam 39 artistas, glórias nacionais e internacionais ligadas ao Theatro, como o compositor e maestro Alberto Nepomuceno, a cantora lírica Gabriela Bezanzoni, a prima-ballerina assoluta - título nunca mais concedido no Corpo de Baile - Bertha Rosanova, Aldo Lotufo, nossa maior referência masculina, padrão de vocação e amor à dança... Pessoalmente pesquisara e escrevera sobre Yuco Lindberg, a quem não conheci, e Maryla Gremo e Vaslav Veltchek, com os quais tive o privilégio de trabalhar.

Num episódio de inacreditável desrespeito, essas pequenas obras, na sua segunda fase patrocinadas pela Faperj, desapareceram depois de uma lamentável tentativa de lançamento, onde os artistas - escritores e personagens - tomaram conhecimento, dois dias antes, por telefone, de que os livros seriam doados num ensaio geral qualquer, sem revisão, sem um último olhar dos escritores. E pasmem: os artistas - escritores e personagens -, repito, não poderiam levar qualquer convidado!!!

Consternação, constrangimento, inação. O que fazer diante de atitude tão estapafúrdia, tão, tão...ignorante?

Uns ligavam para os outros, todos incapazes de realizar o que estava acontecendo. Ninguém supunha que a politicagem chegasse a níveis tão mesquinhos.

A administração Dalal Achcar, que conhece muito bem o Municipal, saíra atendendo à convocação do então candidato à Presidência da República Anthony Garotinho, deixando para trás quase quatro anos de grandes realizações que haviam contemplado os três corpos estáveis. No ballet, particularmente, ela sucedera Jean-Yves Lormeau, cuja gestão, ainda que difícil em termos de convivência humana, tinha significado um tal conjunto de acertos e tamanho enriquecimento cultural que fora plenamente aprovada pelos bailarinos. Administradores-artistas, conscientes da importância de uma casa como o Municipal, tinham deixado um legado que não imaginávamos, pudesse ser desconsiderado; e desconsiderado no que mais denigre uma direção: o desconhecimento, em todos os níveis, de sua importância para a Instituição que assumiam. Pior: o desconhecimento da própria Instituição e sua engrenagem.

Alguns episódios haviam nos dado a dimensão da falta de preparo dos novos gestores. Quando foi montado, em 2002, "Romeu e Julieta" de Vladimir Vassiliev, o ensaio geral foi aberto a comunidades carentes. Obviamente, a abertura da casa para um público que deve e merece freqüentá-la, precisa ser precedida de orientação. Quem nunca freqüentou um teatro como o Municipal não é obrigado a saber como se portar nas suas dependências, não está preparado para assistir um espetáculo sofisticadíssimo, com música de Prokofiev, compositor pouco acessível aos que nunca ouvem música erudita, longo, difícil de entender por ser construído em três planos, com o coreógrafo - um ícone - assistindo na platéia e nada mais, nada menos que outro monstro sagrado - Mstislav Rostropovitch - regendo a orquestra, colocada no palco pela própria concepção do espetáculo.

Foi uma vergonha! Como explicar ou justificar a duas figuras míticas, os assovios e chacotas, oriundos de um velho preconceito que só o tempo e a educação podem superar, com que os bailarinos foram recebidos ao entrar em cena? Como aceitar olhar o chão da bela platéia do Municipal repleto de latinhas de refrigerantes, restos de sanduíches de carne assada, chicletes, caixa de bala, etc., num evidente estrago ao prédio, como patrimônio público e como símbolo da maior da arte erudita no nosso Estado?

Políticos populistas, egoístas, ignorantes.

Não sou elitista, nunca fui. Há mais de uma década trabalho com crianças com os mais diversos níveis de carência. Inúmeras foram as vezes em que as levara ao Municipal. Na administração Dalal Achcar, inscritas no projeto Educação com Arte (1), elas assistiram até ópera. Orientadas, orgulhosamente aplaudiam o maestro na entrada e respeitavam o espetáculo observando profundo silêncio, surpreendendo Nathalia Makarova, ao lado de quem, certa vez, sentamos.

Voltando aos livros. No dia seguinte ao comunicado do lançamento soubemos que o mesmo fora suspenso. Os boatos se sucederam: ora alguém ameaçara a direção com um processo e com um escândalo público; ora um dos escritores ameaçara entrar na Justiça para garantir seu direito de rever sua própria obra antes de entregá-la ao público. Nomes foram mencionados, mas nunca chegamos, realmente, a saber o que acontecera, quem conseguira sustar a manobra de fazer média à custa da dignidade alheia. Apenas demos graças aos céus da interrupção daquele absurdo e ficamos aguardando novas comunicações.

Estamos assim até hoje.

Na Bienal do livro descobriu-se toda a coleção no stand da Faperj. Um dos autores quis adquiri-la, mas foi-lhe dito que os livros estavam expostos apenas porque constavam do catálogo da instituição. "Não estão à venda." Dias mais tarde um amigo, também autor, telefonou-me avisando que a coleção inteira havia sido encontrada por 9,00 num sebo e que ele correra para comprá-la, mas só conseguira alguns números, entre os quais os meus. Presenteou-me com eles e só por isso tenho um exemplar de cada um dos livros que eu mesma escrevi.

Cheios de erros, com legendas erradas, fotos cortadas e truncadas, disquetes com os textos finais ignorados, mas, ao menos tenho meu trabalho na minha mão.

A maioria dos que escreveram não teve a mesma sorte, nem mesmo viu seu trabalho impresso.

No dia 11 de agosto de 2003, Adriana Pavlova, no segundo caderno de O Globo, escreveu reportagem de meia página com o título "Sumiço de livros do Municipal é desvendado", tendo como subtítulo "Pagos pela Faperj em 2002, os 39 volumes da coleção Memória estavam na gráfica; responsável não prestou contas."

Ainda tivemos esperança de que algo fosse feito. Em vão. No meio de um tiroteio de acusações, ameaças de sindicância, promessas de apuração, com os livros, agora, com certeza inutilizados, aparentemente tudo foi jogado no lixo do esquecimento como as CPIs dos Valdomiros da vida, dos Silverinhas, e de outros menos votados.

O fato caiu no esquecimento; o dinheiro é público, cultura não dá Ibope, deixa pra lá. Artistas clássicos! Ora! Nem participam de comícios, nem jogam peladas (uau, Chico Buarque joga pelada, meu filho joga pelada, mas... Chico é Chico, filho é filho e...nada contra peladas) com autoridades, nem freqüentam churrascos em palácios. Também, em geral, não freqüentam templos... Não vai fazer diferença para ninguém importante, nem para o joguinho de poder em quaisquer instâncias.

Meus textos eu os disponibilizei na minha página na Internet. Não pretendo, nunca pretendi ganhar dinheiro com livros. Pretendo sim, é tornar disponível a beleza das vidas dos artistas que biografei.

Yuco Lindberg foi um estoniano que amou esse país como poucos brasileiros, que colocou a dança e o Municipal acima de sua vida. Foi o primeiro primeiro-bailarino de nossa história. Maryla Gremo, polonesa, foi considerada, quando menina, "The pocket Pavlova". Dona de uma das criações mais importantes do Municipal, dela disse o cenógrafo e comunicador Fernando Pamplona: "NINGUÉM é insubstituível, porém, certamente Maryla Gremo foi."

Vaslav Veltchek, tcheco, quando veio para o Rio já trazia na bagagem o título de diretor do Teatro da Pantomima Futurista, ao lado de Filippo Marinetti. Fundador da Escola de Danças Municipal de São Paulo, foi ainda o criador do Conjunto Coreográfico Brasileiro, grupo formado pelas crianças do asilo União das Operárias de Jesus, que impressionou, entre outros brasileiros famosos, Monteiro Lobato, Camargo Guarnieri e Paschoal Carlos Magno.

Eis aí, amiga Ana Luíza, o resumo da novela Memória dos Artistas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro em sua segunda versão. Não imaginava pensar mais nesse assunto; com minha página, eu solucionei, para mim mesma, o compromisso que tinha me imposto de divulgar a vida desses pioneiros valorosos. Já ofereci o mesmo espaço aos que se dispuserem a fazer o mesmo.

De toda maneira, concluo dizendo que não foi um tempo perdido; ao contrário, foi o início de uma pesquisa sobre a história do ballet no Rio que já me remeteu ao século XIX e que não sei onde acabará. Um abraço da Cami.

1. O projeto Educação com Arte merece um artigo à parte. Realmente, uma maravilha.



PS: Infelizmente, acabamos de ter uma demonstração explícita de falta de educação e de respeito pelo Theatro Municipal do Rio, paradoxalmente advinda de companheiros de ofício. Foi consternada que vi no segundo caderno de O Globo do dia 06 de janeiro os consagrados colegas Lia Rodrigues e João Saldanha de pé, sem sapatos, sobre as poltronas do Municipal. Não havia me manifestado antes porque estive fora e só tomei conhecimento da reportagem ao regressar; e pela profunda angústia de que fui tomada ao pensar na possibilidade de ficar contra atitudes de colegas de profissão.

Decidi-me porque o fato vai diametralmente contra o artigo recém publicado "Educação com arte", onde, justamente, se aborda um magnífico projeto no qual, administradores, professores e artistas procuram cumprir sua missão de educar acreditando, sobretudo, na sensibilidade do povo brasileiro.

Depois dessa demonstração gratuita de digamos, auto-afirmação adolescente, com que argumentos se convencerá crianças em fase de crescimento a se portar de maneira conveniente nos diversos lugares que ela ocupará enquanto ser social? Nas excelentes aulas de consciência corporal que fiz com a professora Angel Vianna, embora meu mundo nada tivesse a ver com pés descalçados, a primeira coisa que fiz ao entrar em sua sala foi, respeitando a liturgia própria de cada ambiente, sobretudo o artístico, e sua filosofia de trabalho e de vida, foi tirar meus sapatos. Por que a afrontaria?

Sobre o assunto, assim se manifestou Sandra Dieken, que foi primeira-solista do "Ballet Russe do Colonel de Basil", primeira-bailarina do "Ballet do Theatro Municipal do Rio", fundadora e diretora do Teatro de Arena da Faculdade Nacional de Ciências Econômicas da Universidade do Brasil - Diretório Acadêmico Thales de Melo Carvalho, diretora, fundadora e coreógrafa do Projektgruppe Bühnentanz do Studiobühne und Filmwerkstatt, pedagoga do Setor de Dança do Akademisches Sportamt da Universidade de Colônia e jornalista da "RádioDeutsche Welle":

"Eliana Caminada, confesso-me impressionada com seu relato sobre a falta de sensibilidade de companheiros do mundo da Dança, que deveriam servir de exemplo para os freqüentadores do nosso querido e respeitado Theatro Municipal.

O TM deveria continuar sendo um lugar sagrado, um templo de arte em cujo palco grandes nomes nacionais e internacionais do Universo Artístico atuaram e atuam perante platéias civilizadas formadas por pessoas de todas as faixas de poder aquisitivo e camadas sociais... Teatros são para mim lugares sagrados, onde a cada vez volto a celebrar a magia que deles emana. A gente deve até TRAJAR a melhor roupa domingueira para curtir um espetáculo teatral. Mesmo os mais pobres, quem sabe, talvez guardem para ocasiões especiais o que vestiram em casamentos, comunhões , aniversários ou em outras datas importantes. Receba meu abraço." Igualmente, Gisèle Santoro, mulher do compositor Cláudio Santoro, expoente da música erudita brasileira que dispensa apresentações, pedagoga, jurada nos mais conceituados Concursos Internacionais de Dança, coreógrafa e produtora cultural enviou esse libelo:

"Querida Eliana:
Sinto-me igualmente indignada com a falta de educação que permeia atualmente o povo brasileiro e a falta de respeito com a própria profissão. Para renovar não é preciso destruir e a distância que nos separa de outros países ditos de "1o. mundo" pode ser medida, não pela tecnologia ou poderio econômico e militar, mas sim pelo respeito para com seu passado, valores, história. Mas, ao ver a obra do Claudio tão abandonada e a dificuldade que enfrento para realizar o Seminário Internacional de Dança de Brasília - que tanto tem ajudado aos jovens e talentosos bailarinos brasileiros - nada mais me espanta: é preciso ser original a qualquer preço (embora tudo já tenha sido feito ou tentado) e quanto mais vulgar, melhor: há mais de 3 semanas a imprensa discorre sobre o casamento de um jogador de futebol e as fofocas dele resultantes. Um grande beijo da Gisèle Santoro"

Aldo Lotufo, principal referência da dança clássica masculina do Brasil faz questão de atribuir às administrações despreparadas acontecimentos lamentáveis como esse. Sucinto pergunta: "Caminada, a quem cabe tomar providências?"

Eu repito a mesma pergunta: A quem cabe tomar providências?




*ELIANA CAMINADA é Orientadora e consultora, escreveu vários livros sobre dança, e responde pelas disciplinas História da Dança e Técnica de Ballet Clássico no Centro Universitário da Cidade. Professora convidada no projeto "Sons Dançados do Brasil" do Centro de Artes Calouste Gulbenkian, colabora com o jornal "Dança, Arte & Ação" e participa, como palestrante, jurada ou pedagoga, de festivais e mostras de dança por todo o Brasil. Foi bailarina do "Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro", primeira-bailarina do "Balé Guairá" e solista do "Ballet da Ópera Estatal de Munique".


Visite o site: www.elianacaminada.com