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     DANÇA

Educação com Arte

Por Eliana Caminada*

"Maravilhoso, é o mínimo que se pode falar dos textos dos programas destinados às crianças nos dias de espetáculo para as escolas do projeto Educação com Arte. Sonja Figueiredo e sua equipe realizam um trabalho de primeiro mundo; todos ficam perplexos diante do trabalho de pesquisa e do direcionamento didático-pedagógico contido naqueles textos. Pessoal, o Rio fica orgulhoso dessa idéia e torce para que ela se torne nacionalmente adotada. Aliás, os próprios bailarinos não perderiam nada se colecionassem esses pequenos livros repletos de informações. "

Essa nota, que fez parte da matéria que escrevei para o jornal Dança, Arte & Ação de maio de 2001, transformou-se num artigo inteiro no número seguinte, tal a dimensão que, modestamente, enxerguei naquele projeto batizado de "Educação com Arte". Era, sem dúvida, uma proposta de primeiro mundo que o Rio ganhara de presente.

Procurando informações mais precisas tomei conhecimento de que Dalal Achcar, idealizadora da idéia, já a implementara há muitos anos; eu é que, burramente desavisada e alienada, não sabia.

Mas também, é inquestionável, que alcançara com o tempo, com o peso institucional do Theatro Municipal e com a experiência adquirida com o exercício do projeto, dimensões de modelo-exportação. Na condição de 'menina dos olhos' da direção da casa, o "Educação com Arte" foi abraçado amorosamente, no mínimo, por Sonja Figueiredo que, formando uma equipe idealista e coesa, ofereceu a maior estrutura que já vimos em matéria de projeto cultural no nosso Estado.

Eu sabia, por experiência pessoal, que tudo tinha início pela divulgação do telefone de contato da equipe do projeto para a necessária inscrição. Vinham as perguntas de praxe - Quantas crianças devem comparecer? Quantos serão os acompanhantes? As crianças têm condução própria, tem preferência de data? - e as inesperadas, ao menos para nosso padrão de falta de cuidado com situações que requeiram atenção especial: Há algum deficiente no grupo? Quantos?

O passo seguinte era a reunião com as 'tias/os', com as professoras/es que acompanhavam as crianças aos espetáculos. Recebidos, informalmente, no pequeno teatro anexo ao prédio principal do Municipal, todos eram colocados à vontade num ambiente, até então, visto com timidez. Ali tomávamos - eu me mantinha em rigoroso silêncio, convicta do meu papel de "tia" - conhecimento das primeiras e indispensáveis orientações: o que é o Theatro Municipal e seus corpos estáveis, a importância histórica do prédio e dos artistas enquanto patrimônio que é mantido pelo povo e a ele pertence, a necessidade de amá-lo, respeitá-lo e preservá-lo.

O bate-papo prosseguia com a descrição do tema do espetáculo que seria apresentado, seu compositor e coreógrafo, os personagens da obra. Mais: ficavam sabendo que os músicos da orquestra vão chegando com antecedência e começam a afinar seus instrumentos produzindo um som inesquecível que prepara para o espetáculo - a liturgia do espetáculo -, o que significam os três sinais ouvidos antes de qualquer espetáculo cênico, o momento em que se faz necessário silêncio absoluto, o aplauso quando da entrada do Maestro e seu agradecimento, assim como da entrada dos personagens principais no palco, os intervalos e sua duração. Recebiam orientação sobre o que, onde e como podiam comer ou beber líquido e sobre que peças era possível tocar ou não e porque, terminando sobre a conveniência de se vestir com simplicidade mas de acordo com o ambiente, dando preferência ao uniforme que anula eventuais diferenças e facilita a identificação da criança. Enfim: o que podia e o que não podia, o que é educado/educativo ou não.

Nessa altura estávamos todos conquistados, eu não era mais exceção; os orientadores se sentiam seguros, a auto-estima fortalecida, prontos e estimulados a levar para suas comunidades, aparentemente tão distantes dessa realidade, ou para pequenas cidades do interior do Estado nas quais sequer se ouve falar de Theatro Municipal, informações que as fazia se sentirem mais prestigiadas, dignificadas, quase privilegiadas. A magia de um espetáculo de grande porte começava a tomar conta de todos nós, professores e acompanhantes.

Os ingressos já estavam, então, separados de acordo com a ordem de inscrição e no número exato solicitado pela escola. Aos cadeirantes que preferissem era comunicado que a entrada poderia ser pelos fundos do Theatro, pelo palco, portanto, (elas logo saberiam onde ficava esse lugar sagrado), uma vez que, não só havia menos escadas, como o elevador dos artistas os levaria ao plano do palco, e aos deficientes visuais e auditivos avisava-se que os ingressos adequados a esses detalhes lhes estavam reservados. É, podem acreditar deficientes visuais e auditivos "vêem" e "ouvem". Na verdade, eu é que não conseguia acreditar no que via e ouvia.

Sugestões didáticas que complementavam o que já era didático por si, eram oferecidas em cartilhas simples, mas muito bem explanadas e reforçavam o que já havia sido explicado verbalmente. Uma coleção dos programas anteriores confeccionados especialmente para as récitas das escolas além, é claro, do programa do espetáculo daquela ocasião era distribuída.

Alguma pergunta mais? Era hora do tour conduzido pela equipe de monitores colocados à disposição dos eventos, oportunidade na qual conheciam o Theatro - alguns o faziam pela primeira vez -, passavam pelos cenários montados no palco para alguma atividade daquele dia ou daquela semana e ficavam sabendo, de antemão, onde se localizavam os lugares que lhes fora reservado; se dessem sorte assistiam até a um ensaio de luz ou a colocação de uma nova cenografia.

Logo acima falei dos programas. Os programas eram um primor de pesquisa e de orientação pedagógica. O número de informações os transformavam num pequeno livro onde tudo ligado ao espetáculo estava colocado. Se o que estava programado, por exemplo, era "A Megera Domada", localizava-se o ballet no tempo e no espaço: quem era Shakespeare, onde nascera, quando criara suas peças mais famosas, em que período histórico vivera, que outros personagens fundamentais foram seus contemporâneos. O mesmo se informava sobre o coreógrafo do ballet, se outros coreógrafos já haviam criado sobre o mesmo tema, quais os intérpretes criadores do personagem e os que o haviam celebrizado, os bailarinos principais, pequenas sugestões bibliográficas, notas de rodapé estrategicamente colocadas, caça-palavra - encontre Petrucchio(1), onde está Márcia Haydée(2)? -, palavras cruzadas. Ah, uma planta do teatro concluía o programa: as crianças deveriam localizar e colorir os lugares onde haviam se sentado com os colegas e mestres.

Chegava o grande dia, é isso mesmo, era um grande dia para todos: para as crianças que iam pela primeira vez ao Municipal, para as que estavam retornando - e o fariam para sempre, só dependia de continuidade, da tal da vontade política.

E quem teria o desplante de interromper tal proposta? pensava eu e todos os que ali estavam, observando encantados e ansiosos a reação do público.

Santa ingenuidade!!!

A organização à porta do Theatro era dez, com louvor, em gentileza e presteza, continuando a maneira delicada de se comunicar que já vinha desde o primeiro agendamento. Um convênio do Estado com o CIETH (Centro Integrado de Estudos de Turismo e Hotelaria) garantia esse atendimento - que cheguei a chamar de surrealista - irretocável às crianças fazendo com que, ao mesmo tempo em que colocava os estagiários do Centro em contato com o público, permitia que eles concluíssem sua formação assistindo o que de melhor pode oferecer a área de cultura do Rio de Janeiro. Quando a condução chegava trazendo o público mirim os monitores já os aguardavam com placas de identificação e, daí por diante, se responsabilizavam por conduzir professores e alunos aos lugares certos, distribuindo pequenos brindes alusivos ao momento, além de chamar, delicadamente, a atenção de alguma criança mais traquinas ou esperta que tentasse burlar a vigilância geral e entrar na platéia com latinha de refrigerante ou chiclete.

Eles eram diretamente responsáveis pelo sucesso e segurança do empreendimento.

Enfim, estávamos todos seduzidos. UMA MARAVILHA.

O espetáculo nos trazia outras emoções. Quando havia muita pantomima um bailarino vinha ao proscênio mostrar o significado das mímicas tradicionais dos ballets de repertório. Jamais foram confundidos com o maestro, cuja entrada era logo reconhecida e vivamente aplaudida; perguntas no meio de alguma parte eram feitas baixinho, deixando clara que tinham a noção de que não podiam atrapalhar. E como todos só pensavam em voltar... Ninguém inventava de ir ao banheiro antes de acabar um ato.

A reação dos surdos é comovente, é inesperada. Surdo é sensível e ouve, cego também é sensível e vê com outros sentidos. Não saberia dizer se se trata de uma visão e uma audição que vem do coração. Seus professores se incumbiam de narrar com a linguagem dos surdos-mudos o que estava sendo anunciado e os cegos eram colocados próximos da orquestra. Chorei!!!

O comportamento? Meu Deus, até quando se vai subestimar a capacidade e sensibilidade do homem comum, até quando vão apostar na vulgaridade como meio de persuasão, até quando vão repetir idiotamente que Arte erudita não é entendida pelo povo. Considero criminosa a política cultural, ou falta dela, que se usa nesse país há séculos e parece não ter fim.

A criança comum, a que não tem idéia, como eu, de quem é Nathalia Makarova (3), sentada numa tarde ao nosso lado, fica deslumbrada com tudo: com a beleza do Theatro, com a atmosfera de tudo o que cerca aquele lugar que algumas chamaram de castelo, com a maquiagem dos artistas.

Bailarino clássico, homem de malha vaiado? Isso é preconceito de adulto que nunca teve chance de participar de algo semelhante, é uma defesa do cidadão que nunca foi tratado como tal, que acha que precisa se afirmar através da sexualidade explícita para se impor diante de seus pares, de sua gente igualmente subestimada e desfavorecida. Ou de rico mal-educado mesmo.

O projeto, aplaudidíssimo, surpreendeu até aos mais otimistas ao consagrar óperas, encenação até então considerada pouco apropriada para público infanto-juvenil. "O Guarani" fora um sucesso, por que não experimentar "La Traviata"? As crianças permaneceram quase três horas vendo uma ópera, deixando os organizadores com o coração na mão, temendo pelos artistas. Afinal, uma voz, por vezes única, num espaço enorme, não consegue superar ruídos.

Temor inútil. Tão inútil, que os artistas inteligentes começaram a perceber que seriam eles, intérpretes dessas tardes encantadas, ou sua Arte, tão desprezada pela nossa área cultural, os ídolos do futuro, os artesãos de uma sociedade mais justa e mais pacífica. Beleza contagia e educa também. Se deixarem !!!

É preciso que fique bem claro que as récitas para as escolas públicas ofereciam exatamente o mesmo programa que o oferecido ao público pagante. Nada menos, talvez até mais.

Fim do espetáculo. Por vezes os artistas principais vinham até ao foyer do Theatro para falar com a garotada e dar autógrafos. Os professores já tinham assunto e matéria para a semana toda. Redações seriam solicitadas com as impressões daqueles momentos; algumas foram publicadas mais tarde. Por uns dias nos sentimos na Dinamarca, sem o frio, e com a beleza do Rio como companheira. A esperança vencia o medo, daquela geração não sairia bandido, ela mesma levaria seus filhos ao Municipal. Quem sabe, entraria na Escola de Danças Maria Olenewa - é de graça? - ou na Escola Nacional de Música - tia, adorei os músicos. Quem trabalharia nele - olha tia Eliana, aquele outro castelo. Leva a gente? Era o Museu Nacional de Belas-Artes, bem em frente ao Municipal. Educação e cultura gera educação e cultura, simples meu caro Watson.

Como já fizera anteriormente, não poderia concluir esta matéria sem mencionar os nomes da equipe que viabilizou um projeto que, todos esperamos, retorne depressa, tão logo cheguem a novas eleições e possamos exercer o nosso poder do voto:

Idealização extraordinária de Dalal Achcar;
Coordenação geral de Sonja Figueiredo - um Quebra-Nozes lutando pela realização do projeto;
Coordenação de recepção de Lúcia Guimarães, bailarina, querida companheira idealizadora dos tours pelo Theatro;
Coordenação Pedagógica - maravilhosa - de Regina Vassimon;
Edição de Textos de Leonardo Ladeira Mota e Daniel Puig - uma lição inesquecível; Programação Visual de Carlota Rios e Tânia Grilo - um barato total;
Colaboração: Rosita Mattos da Silva, Chiquinho Magalhães. Marta Melro, Mônica Atalla e Tatiana Oliveira - os soldados que participam da batalha;
Revisão de Texto de Carlos Manes.

A procura aos espetáculos ratificaram - deveriam ter sacramentado - o projeto. Mas tal não se deu. O sucesso não lhe garantiu a sobrevivência. Afinal, porque investir numa futura geração? Para que ensinar ao povo que a beleza, a poesia, a grande arte, popular ou erudita, é seu direito e o grande patrimônio de qualquer Nação que se pretende/a civilizada?

Civilizada? Hoje, com tanto líder civilizado assustador, confesso ter medo dessa palavra. O que significa mesmo ser civilizado?


PS.: Não resisto a colocar duas observações infantis ligadas ao Quebra-Nozes. Comentei-as com Dalal Achcar que riu e admitiu que as crianças são muito observadoras. "Há que se encontrar uma solução para o bolo", disse:

1. Prólogo: as criadas entram trazendo um bolo que ao final é retirado do palco como chegou. Comentário: "Tia Eliana, o bolo não táva gostoso. Ninguém quis comer!!!"

2. Primeiro ato: a árvore de Natal começa a subir até ultrapassar o nível das gambiarras do palco e transformar o cenário da casa num ambiente de fantasia. Comentário: "Ih, tia Eliana, o teatro não tem telhado!!!"




*ELIANA CAMINADA é Orientadora e consultora, escreveu vários livros sobre dança, e responde pelas disciplinas História da Dança e Técnica de Ballet Clássico no Centro Universitário da Cidade. Professora convidada no projeto "Sons Dançados do Brasil" do Centro de Artes Calouste Gulbenkian, colabora com o jornal "Dança, Arte & Ação" e participa, como palestrante, jurada ou pedagoga, de festivais e mostras de dança por todo o Brasil. Foi bailarina do "Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro", primeira-bailarina do "Balé Guairá" e solista do "Ballet da Ópera Estatal de Munique".




1. Principal personagem masculino da célebre peça de William Shakespeare "A Megera Domada".

2. Márcia Haydée, bailarina brasileira considera a maior atriz-bailarina do século XX, a "Maria Callas" do ballet.

3. Russa dissidente do regime comunista, tornou-se uma das mais famosas bailarinas do século XX.



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