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     DANÇA

UM BAILARINO, UM ARTIGO E VÁRIOS TÍTULOS:

Um "Onegin" brasileiro em Londres.
Já completou 23 anos?
Não é só no futebol que o Brasil tem fenômeno.
The 2004 winner is Thiago Soares.



THIAGO SOARES COMO SOLOR EM "LA BAYADÈRE"(1) COM O ROYAL BALLET DE LONDRES
Photo by Johan Persson



DANCE AWARDS OUTSTANDING MALE DANCER (CLASSICAL)

Thiago Soares: Prêmio de "artista revelação" masculino de dança clássica de 2004 pelo conjunto de suas atuações como primeiro-solista do Royal Ballet. Conferido pela crítica internacional de dança.


"BRASILEIRO, formado no Centro de Dança Rio, Thiago Soares foi admitido no Royal Ballet em 2002 e promovido a primeiro solista em 2004. Uma técnica clássica poderosa e refinada, assim como extraordinárias atuações artísticas, estão entre suas mais evidentes qualidades, a par de uma presença cênica magnetizante. De fato , todas essas qualidades ficaram mais acentuadas com o desempenho do papel título de "Onegin"(2) . Soares conferiu ao personagem uma interpretação personalíssima que, apesar de uma leitura excepcionalmente brilhante e apropriada, enfatizou a confusão emocional e o caráter sombrio e difícil do personagem".

All text is a copyright of the Critics' Circle / National Dance Awards



Senhores leitores, li a notícia acima casualmente, num site da Internet. Perplexa, sentindo enorme necessidade de dividir minha alegria com amigos comuns, de saber o mês exato em que o prêmio fora concedido, de falar com meu amigo Thiago, busquei maiores informações.

Sem saber exatamente o que fazer e certa de que eu não deixaria de registrar um feito tão inusitado na nossa história da dança, fui procurar um artigo que escrevera sobre ele ano passado, antes de saber da premiação. Quem sabe ainda faria sentido?

Reli e fiquei insegura, como sempre; como sempre, preocupei-me com um texto exageradamente emocional, com os possíveis erros "do meu português ruim", como diria Roberto Carlos. Contudo pensei: "Prefiro me expor a gracejos do que desconhecer esse fato. Sei que o ballet jamais se ombreará em popularidade com o futebol, por exemplo, cuja comunidade divulgou incessantemente o título de melhor jogador do ano concedido a Ronaldinho Gaúcho; mas daí a ignorar, como se nem existisse, um reconhecimento internacional, num ofício tão pouco difundido e estimulado no Brasil como o ballet clássico, passa dos limites."

Achei que valia a pena arriscar: temos o direito de saber e festejar um prêmio importante, concedido pela crítica internacional a um jovem brasileiro que poucos conhecem, e de tomar conhecimento de que ele é o primeiro bailarino produzido no Brasil a granjear um prestígio tão grande fora do país. Achei mais: é meu dever assinalar que apesar desse reconhecimento, no momento só temos apenas uma companhia de ballet clássico: o Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro (felizmente o Balé Guairá está retomando este lado de sua história).

O incentivo dos colegas selou minha decisão de contribuir, do jeito que está ao meu alcance, para divulgar o nome de um profissional do qual temos todos os motivos para nos orgulhar.


"Rio, julho de 2004.

Minha primeira experiência como jurada no Festival de Joinville estava sendo um pesadelo. Não por causa do Festival, mas pelos problemas que enfrentava como integrante do júri do Prêmio Mambembe Dança. Deus do céu, por que aceitara o convite para fazer parte de uma comissão, cujos membros, em geral, eu não tinha afinidade artística, estética e muito menos afetiva?

Resumindo, a organização do Festival não fora comunicada de minha presença, estava hospedada num hotel fora do circuito, sem condução, sem refeições, sem ingressos, obrigada a saltar de cadeira para cadeira durante os espetáculos a cada vez que chegava, atrasado ou não, o dono do lugar, aguardando, nervosa, as diárias que só chegariam meses depois. Que agonia!

Já estava decidida a retornar ao Rio no dia seguinte quando encontrei a amiga e diretora Mariza Estrella. Que bênção! Graças a ela, que me apresentou à própria direção do Festival, permaneci em Joinville, não diria que feliz, mas determinada a cumprir meu compromisso até o fim.

Ainda por sua causa, apesar das circunstâncias adversas, acabei desfrutando de momentos de alegria ao conhecer, no dia seguinte, um rapazinho de 17 anos chamado Thiago Soares.

Mariza me chamara: "Eliana, preciso muito de você. Viajo amanhã e Thiago - Você o conhece? Não, mas já ouvi falar - vai ficar aqui por mais dois dias para competir na modalidade de variação masculina de repertório. Ele é muito responsável, mas você é mãe e sabe: jovem é jovem. Eu ficaria mais tranqüila sabendo que uma profissional o espera, com hora marcada para fazer aula e para passar a variação."

Naturalmente concordei. Mariza nunca se envolve com gente sem talento; além disso, o pedido preenchia meu tempo e, ao que tudo indicava, me colocava em contato com um bailarino de fato.

Caramba! Bailarino de fato? Aquele menino me pareceu, desde que o vi se aquecendo na sala, um predestinado. Oriundo da street-dance começara a estudar ballet há dois anos e já conquistara uma medalha de prata no Concurso Internacional de Paris.

Quando falei com o pessoal do ballet todos acharam que era exagero. "Qual, isso é tietagem de quem gosta de acrescentar um ponto ao seu próprio conto, Caminada. Ninguém dança clássico em dois anos."

O fato é que tudo nele me impressionou de imediato. A beleza do tórax, o pescoço alongado mas masculino, a expressão do rosto onde transparecia determinação e entusiasmo. Prossegui com meu rápido exame: as proporções eram lindas, as pernas elásticas porém vigorosas, os pés pareciam uma agulha, a altura ideal. Os braços? Eram longos, enormes. No rosto, meio misterioso, que não se sabia se era bonito ou feio - a expressão dele muda tudo - se destacava o nariz, forte, mais para grande. "Deve funcionar no palco", pensei. Tinha um jeito simples, mas parecia dotado de invulgar lucidez, não parecia mais um BBB - bailarino, bonito e boboca.

Senti-me um tanto intimidada diante do que me pareceu invulgar. "Mas", tentei me acalmar, "só vendo a qualidade de seu movimento é que poderei avaliar se seus dotes físicos encontram correspondência no talento artístico, na musicalidade; se seu entusiasmo é bem recebido pela própria dança."

Colocou-se na barra. Antes mesmo de a aula começar eu não tinha mais dúvidas: Thiago era um escolhido. Tinha presença, aplomb (3) e uma explosão interna que fazia com que o suor pingasse desde o início.

Naquela tarde parecia aborrecido. Havia caído com sua partner no espetáculo da véspera.

Achei graça daquela juventude talentosa e ousada. Fiz-lhe ver que só cai que tenta superar limites e só os que os superam fazem a diferença. Contei-lhe que vira tombos memoráveis de grandes bailarinos: Galina Samtzova, Eleonora Vlassova, Eleonora Oliosi, etc. Ele não se convenceu. Se um tour en l'air (4) ou uma pirouette (5) falhavam, a própria coxa ganhava uma palmada e o movimento era repetido até ser considerado satisfatório e seguro.

Ah, como é lindo um bailarino com base clássica trabalhando; como é artesanal aquele trabalho no piso de madeira, pisando na caixa de breu, observando se o pé direito da sala é alto o suficiente para os lifts(6) dos pas-de-deux. Ah, como me "soou" familiar o cheiro da sapatilha, das outras sapatilhas espalhadas pelo chão, junto com bolsa, agasalho, malhas, garrafa de suco ou similar, bálsamo para dores, uma maçã, tangerina; o som do pianista ou do gravador tocando ou reproduzindo um som, não um ruído insuportável, as reações diante das conquistas e das falhas inesperadas de cada dia, a poça de suor no chão onde o bailarino senta para descansar, a expressão que emana de seu corpo.

Os músculos são nervosos, reagem, parecem dizer alguma coisa e, por seus meios próprios, dizem mesmo.

O tempo passou. Thiago venceu o Concurso Internacional de Moscou, - na Rússia gente, na pátria do ballet clássico -, interpretou papéis memoráveis com uma profundidade espantosa para sua idade. Um pouco à distância continuei a acompanhar sua carreira alimentando grandes expectativas de vê-lo primeiro-bailarino aos 24, 25 anos.

Dalal Achcar e Nathalia Makarova, muito mais perspicazes e sábias do que eu, sabendo muito bem o que estavam fazendo, abreviaram esse tempo. Thiago tornou-se primeiro-bailarino do Municipal do Rio aos 19 anos. Se não era de fato, era de direito.

O previsível aconteceu: deixou-nos. O Royal Ballet de Londres ofereceu-lhe um contrato e, em pouco mais de um ano, ele era promovido a solista dançando papéis de primeiro-bailarino e meses depois a primeiro-solista. Lembro-me feliz do que escrevi quando o vi estrelando a encenação carioca de "La Bayadère". Com o título "LA BAYADÈRE - UMA MONTAGEM HISTÓRICA", disse na ocasião:

"...Ao escolher "La Bayadère", uma das criações imortais de Marius Petipa, síntese da mais pura dança acadêmica e do romantismo tardio da segunda metade do século XIX, na sua versão mais bela, a de Natalia Makarova, Dalal Achcar colocou em cena um dos mais perfeitos espetáculos jamais protagonizados pela nossa única companhia clássica... Mas não ficou só nisso. Quem sabe ousa, e remontadores, ensaiadores e diretores ousaram com os jovens Roberta Marquez(7) e Thiago Soares, revelando ao público dois talentos excepcionais, jovens plenos de juventude, temperamento, musicalidade e técnica. ...As dificílimas cenas inteiras descritivas, somente mimadas de "La Bayadère", onde pernas, pés e técnica de pouco valem, nos fazem lembrar da figura histórica de Jean-Georges Noverre(8) para quem a dança era a arte de executar bem os passos e a pantomima a arte de expressar as emoções. Pois nossos artistas interpretaram a pantomima com verdade e dançaram quando a hora era a de executar passos. Thiago Soares não fica atrás e o público presente à estréia logo reconheceu e consagrou sua dança nobre, arrojada e ardente... Soares inspira qualquer coreógrafo, qualquer bailarina. Com ele e Marquez estamos diante do chamado milagre brasileiro: o de ter tudo para dar errado, o de conhecer muito pouco pela carência de espetáculos e de investimento em dança clássica, o de entrar em cena um número ridículo de vezes, o de lutar contra dificuldades financeiras, o de ser brasileiro no Brasil e, apesar de tudo, Ser..."


No ano seguinte registrei minha impressão diante da atuação de Soares dançando com a russa Svetlana Zakharova. O título da crítica era "ZAKHAROVA: DNA DE CISNE - THIAGO SOARES: A DESLUMBRANTE JUVENTUDE":

"...Jamais vi tamanha ovação a uma variação de Odette no Municipal. Amparando Svetlana Zakharova Thiago Soares, esse fenômeno brasileiro. Como pode um rapaz de sua idade assumir tamanha responsabilidade, compreender tão bem como se comporta um bailarino nobre? Soares é nobre como figura, como interior e como qualidade de dança; nenhuma concessão aparece em sua técnica pura, na escola que denota sua iniciação bem feita. Fiquei nervosa. Continuo ligada a meus companheiros, sei onde estão as dificuldades, conheço a responsabilidade de entrar em cena com um bailarino famoso e poucos ensaios. Chorei... Dalal Achcar, é preciso que se faça justiça, sempre teve coragem para lançar jovens valores, para confiar no talento do artista brasileiro. Pela primeira vez deu-se a um bailarino nacional a chance de dançar com uma grande estrela internacional. Pois que a ela, Dalal, sejam creditados os méritos devidos."


As notícias de seus primeiros êxitos em Londres vieram com os críticos. Analistas exigentes e conceituados como Clement Crisp e John Percival se surpreenderam com o brasileiro que interpretava o contido Príncipe Desiré e a histriônica Fada Carabosse, a vilã da história, em "A Bela Adormecida".

Carabosse aos 21 anos? Deus do céu, que raro talento interpretativo terá esse quase menino para construir, com sucesso notável, um personagem feminino marcado pela interpretação da atual diretora da companhia, Monica Mason, para interpretar Rasputin em "Anastacia" de Kenneth MacMillan? E para dar conta de, novamente, convencer como Solor, o galã, e como o Sumo Sacerdote, o vilão, em "La Bayadère"?

Sem falar em pas-de-deux em galas e récitas extras mencionadas com estrépito pela crítica.

Em todos os casos, as opiniões positivas se sucedem, embora, pessoalmente, ache que nem Roberta nem Thiago são bailarinos-gala. Eles possuem belas técnicas, mas sempre usaram, primeiro intuitivamente, hoje, quero crer, conscientemente, a força da interpretação para atingir a plenitude de seus desempenhos. Em minha opinião, isso só se atinge em ballets completos, de preferência compondo personagens. Como Afonso Romano de Santana, também não rezo para Nossa Senhora da Imaculada Abstração.

Ano passado fomos lanchar na Confeitaria Colombo. Cheguei adiantada e, mais uma vez, pude observá-lo. Lá vinha ele pela rua Sete de Setembro, bolsão no ombro, caminhando com o charme que bailarinos clássicos possuem (creio que não sou apenas eu quem acha isso, a julgar pelo filme Momento de Decisão, onde Barishnikov é filmado caminhando, os pés ligeiramente en dehors(9)). É educadíssimo. A tradição da minha amada Colombo, encravada nessas ruas históricas do centro do Rio (meu Rio vai do subúrbio e termina na Gávea; Barra da Tijuca, nem pensar), casa perfeitamente bem com aquele rapazinho cuca legal, consciente do que deseja para si, sabedor de que Deus, a vida, os amigos e seu talento o colocaram num grande centro onde vai adquirir, acima de tudo, cultura. Era meado de 2003, ele ainda não tinha completado 22 anos.

Enquanto tomávamos chá com torradas Petrópolis e sorvete de pistache falou-me dos ballets programados para a próxima temporada (a desse ano de 2004); contou-me que não sai do teatro, que assiste óperas, concertos, que quer saber tudo, absolutamente tudo. "Cami, aprendi a estudar meticulosamente e com um coach (ensaiador) os papéis que interpreto, por menores que sejam. Aprendi a valorizar cada pequena oportunidade."

Mas afinal, por que tudo isso agora? É que outro dia, numa grande coincidência, entrei num site do Reino Unido e o que vi: a crítica falando da atuação de Thiago em "Onegin", o mesmo maravilhoso ballet de John Cranko montado pela direção de Richard Cragun para o nosso Corpo de Baile.

Li os comentários avidamente, meu peito se encheu de orgulho nacionalista. Nacionalista? Mas Thiago nem está mais aqui! Que importa, é brasileiro, carioca, ainda por cima. Bendisse, pela enésima vez, os que o ajudaram a cumprir esse destino tão bonito: Débora Bastos, Mariza Estrella, Dino Carrera, Dalal Achcar, Emílio Martins, Yellê Bittencourt, Tíndaro Silvano, Nathalia Makarova...

Senhores, Thiago não precisa de mim; tampouco de minha opinião. Mas reservo-me o prazer de tê-lo visto no início e de falar dele. Resolvi, apesar de minhas limitações com idiomas, ajudada por amigos, traduzir algumas impressões da crítica, inclusive fragmentos da longa e consagradora crítica de Crisp. Numa análise em que a primeira observação dizia respeito à "presença cênica", expressão de interpretação bastante subjetiva, mas que artistas sabem muito bem o que significa, o crítico conclui dizendo:

"Intensamente aplaudidos em "Onegin", pode-se afirmar que o ballet constituiu-se em verdadeira recompensa para esses dois dançarinos talentosos (nota da autora: Thiago Soares e Laura Morera). Tudo o que se pode esperar em termos de interpretação estava lá. Absolutamente real, completamente crível, numa realização notável." Clemente Crisp


"... O que Soares estava me oferecendo era diferente de tudo o que eu já vira em outros Onegins, seja os daqui, do Royal Ballet, seja os do American Ballet Theatre. A vulnerabilidade do personagem, que até então eu só percebera no ato final, fora introduzida antes; a despeito de seu autocontrole, de sua insensibilidade, de seu comportamento condenável, atrás de tudo isso, pude vislumbrar o que nunca vira: um homem que era tão vítima de seu próprio passado quanto Tatiana de seu presente... durante a festa, retornando ao plano da realidade, enquanto Cojocaru and Putrov dançavam e interpretavam com vivacidade os personagens Olga e Lensky, eu me surpreendi olhando mais para Soares, simplesmente sentado jogando cartas..." Joanne Stone

"... Posso afirmar que realmente Thiago Soares brilhou na estréia de sua performance em Onegin, aproximando-se muito da interpretação que reflete a idéia que o próprio Pushkin tinha do personagem, enquanto um 'outsider' ou um leviano. Seu tempo teatral (resultado, penso eu, da decisão inteligente de lhe dar muitos papéis de caráter a cada temporada) é tão aguçado que você pode ser tocado pelos mais simples movimentos (o aceno dele para Lensky e a maneira como se volta para Tatiana aceitando sua dualidade; o segundo gesto, no começo do dueto do 3º ato, quando ele implora com as mãos que Tatiana se levante do chão), ou até mesmo pelos seus "não-movimentos" - refiro-me ao segundo a mais em que Soares permanece no espelho, que confere tal (será permitido dizer isto?) carga erótica que torna magistral sua entrada. Oh, e que dueto! A orquestra pareceu-me um pouco ralentada; sem necessidade, porque Soares estava tão seguro e potente como partner que Laura Morera parecia se derreter sustentada por ele. Pode parecer prematuro afirmar isso, mas os olhares misteriosos de Soares não lembram Anthony Dowell(10) quando jovem? (Sem esquecer de dizer que só vi Dowell jovem por vídeo.)... Chamados à frente da cortina os Morera e Soares pareciam absolutamente soberbos. Os bravos com que foram recebidos foram certamente merecidos." Ian Palmer

"…e para o brasileiro Thiago Soares como seu agressivamente "risonho" primo Tybalt. Mas Soares é um verdadeiro dançarino-ator. Então por que a produção não lhe deu a poderosa e agoniada cena da morte original?..." John Percival


Um recado:
"Thiago, você está chegando para as férias outra vez. Sei que vem por poucos dias, vai se apresentar nos EUA, não quer e não consegue parar. Mas seja sempre bem-vindo a sua terra. Até porque ela será sempre sua, você nunca precisará se despedir dela para toda a vida, apesar dos problemas graves que enfrentamos e que você até conhece um pouco.

Não sou cronista, sou bailarina que fala o que sente e como sabe se expressar. Se tiver tempo me dê uma ligada; quem sabe retornamos a Colombo para jogar conversa fora, para você me contar mais coisas maravilhosas que estão lhe acontecendo, para me dar notícias da Robertinha, que já vai definitivamente em setembro, e para tomar nosso chá ouvindo piano ao vivo. De quebra, eu relembro a você, novamente, que Machado de Assis era freqüentador assíduo desta casa e de que esse é um tipo de tradição que o Rio de Janeiro pode se orgulhar de possuir. Cami"

O artigo acabava aqui. De lá para cá, esse menino fenômeno continua sua ascendência meteórica. Ninguém pode prever até onde chegará. Sua apresentação nos EUA com Marianella Nuñez foi coberta de êxito, seu currículo está acrescido de interpretações em obras de grande peso, consagradas por críticas cada vez mais arrebatadas.

Conversando com Thiago se conclui que o povo brasileiro tem muito mais talento, ecletismo, inteligência, capacidade de assimilação e de absorção de cultura, do que supõem nossas limitadas autoridades de educação. Rapaz típico do subúrbio carioca, que dançava e dança maravilhosamente dança de rua, que começou a estudar ballet aos 15 anos, que trazia consigo todos os preconceitos e todo o desconhecimento nacional do mundo do ballet, hoje lê, fala com fluência, conhece ópera, música erudita, sabe o que deve vestir, como deve se portar em qualquer lugar, é polido e autoconfiante.

Mas não deixou de gostar, de lembrar do que ouviu e viu em sua infância, do que aprendeu com os pais e com os primeiros companheiros. Sua essência não mudou, por que mudaria? Ele está sim, mais rico de bagagem de vida, de oportunidades de conhecer muitas expressões de arte, chances que sempre são negadas a nós em nome de sei lá de que política cultural ou educativa.

Ainda terei muito material para escrever sobre Thiago Soares - e sobre Roberta Márquez - estou certa. Eis um trabalho que faço com amor, um amor que espero, possa suprir deficiências de uma escritora que não sou. Eles realmente merecem, o Brasil os merece, o povo brasileiro também.

Conclusão: Thiago Soares, o Brasil do futebol que ficou de fora das Olimpíadas se orgulha de você. Menino, diante de você, assim como diante de Pelé e de Garrincha, tenho o pretexto, tantas vezes desejado, para colocar a mão no peito e cantar, aos altos brados, com os olhos marejados, o Hino Nacional Brasileiro.

E olhe: sei a letra do nosso Hino inteirinha. Acho-a (e os ingleses também) linda!!!"




Notícias extraídas dos sites:
www.rad.org.uk/CriticsAwardsWinners.htm
www.ballet.co.uk/links/dancers_rb_soloists.htm
www.willkemp.org/dancers_page
www.thestage.co.uk/news/newsstory.php/6227
www.ballet.co.uk/magazines/yr_04/apr04/interview_thiago_soares.htm
www.nationaldanceawards.com/dance/male_classical.htm
www.ballet.co.uk/gallery/ndawards04
www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe.asp?ID_RESENHA=19281




ELIANA CAMINADA é Orientadora e consultora, escreveu vários livros sobre dança, e responde pelas disciplinas História da Dança e Técnica de Ballet Clássico no Centro Universitário da Cidade. Professora convidada no projeto "Sons Dançados do Brasil" do Centro de Artes Calouste Gulbenkian, colabora com o jornal "Dança, Arte & Ação" e participa, como palestrante, jurada ou pedagoga, de festivais e mostras de dança por todo o Brasil. Foi bailarina do "Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro", primeira-bailarina do "Balé Guairá" e solista do "Ballet da Ópera Estatal de Munique".




1. "La Bayadère", um dos mais belos "clássicos" de Marius Petipa, estreou em São Petersburgo, Teatro Mariinski, 23 de janeiro de 1877. O ballet, remontado no fim do ano 2000 para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, por Nathalia Makarova, marcou a estréia de Thiago Soares como bailarino de gabarito internacional aos 18 anos.

2. "Eugen Onegin", uma das principais obras de Alexander Pushkin, é igualmente considerada uma das obras mestras do coreógrafo sul-africano John Cranko. Inspirado pela música de P. I. Tchaikovski, Cranko evitou propositadamente utilizar a música da ópera homônima do mesmo compositor. O resultado foi uma obra dotada de excepcional liberdade criadora, rara intensidade e inusitada riqueza de construção coreográfica. A obra foi criada no Stuttgarter Ballet, em 1965, para a brasileira Márcia Haydée e remontado para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 2003.

3. Palavra de difícil tradução, pode ser, mais ou menos interpretada como postura e personalidade.

4. Giro saltado, pode ser executado simples, duplo ou até triplo, envolvendo considerável grau de dificuldade. Em geral é executado apenas por homens.

5. Giros no chão, tem uma infinidade de formas de serem realizados.

6. Movimentos nos quais o bailarino segura a bailarina no alto, por vezes apenas numa mão.

7. Roberta Marquez também nos deixou e atualmente é principal do Royal Ballet. Ambos os fatos são inéditos na história dos nossos bailarinos.

8. Maestro de danças, bailarino e coreógrafo, Noverre, a quem devemos o reconhecimento do ballet como arte autônoma, é de importância capital para a história da dança cênica. Sobre Noverre recomendo enfaticamente a leitura do livro de Marianna Monteiro "Cartas sobre Noverre".

9. Posição de pés básica do ballet. Significa "para fora" e o ballet foi construído sobre essa base de extrema estabilidade.

10. Anthony Dowell, ex-diretor da companhia, é considerado o maior bailarino produzido pela Inglaterra.



Visite o site: www.elianacaminada.com