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     DANÇA

Balanchine: 2ª parte

Photo: Paul Kolnik,'Apollon' com o New York City Ballet


"...Balanchine construiu o império do talento, da genialidade, da competência, da percepção e da capacidade de projetar o futuro da dança naquele país. Uma de suas primeiras exigências - que se tornou uma realidade palpável e importantíssima - foi criar e conferir status de alicerce fundamental à escola de formação de bailarinos - School of American Ballet e construir, a partir daquele núcleo, a base para a formação dos bailarinos adequados a sua concepção de dança acadêmica. Com eles trabalharia para sempre, entre eles encontrou todos os seus principais assistentes, a partir deles teve a certeza da imortalidade de sua obra"

Eliana Caminada


Photo © Paul Kolnik, 'Andantino' com o New York City Ballet

Ao "New York City Ballet", Mister B., como é freqüentemente chamado por seus discípulos e bailarinos, deu uma orientação tão sólida que, passados anos de sua morte, a companhia segue seu caminho sob a orientação dos membros oriundos dela mesma, razão, para que nós, artistas do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sintamos um misto de admiração, inveja e profundo desalento. A fidelidade à obra de Stravinski, sobretudo, conferiu ao repertório um peso musical de inigualável valor, fazendo com que os bailarinos entrassem em contato com uma música evoluída, bem de acordo com a afirmação do coreógrafo que dizia ser

"a música, essencialmente a base da dança" ; "sem a sugestão e o conhecimento teórico-musical, o resultado da criação é em grande parte uma improvisação que não pode ser considerada".

Não deixou de lado, porém, sua paixão por Piotr Ilich Tchaikovski e outros românticos, tais como Georges Bizet e Felix Mendelssohn, modernos como Paul Hindemith e Aaron Copland, ou barrocos como Johann Sebastien Bach; igualmente, não se revelou intransigente no que dizia respeito à música popular, desde que sua qualidade fosse indiscutível, e disso deu provas ao lançar mão da música de George Gershwin para coreografar "Who Cares?", delicioso trabalho de estilização dos movimentos de dança da Broadway, criado em 1970.

Desenvolveu também nos bailarinos a capacidade de entender novos caminhos para os movimentos e gestos, acompanhados de uma técnica soberba e musical, de uma atitude um tanto distante do público, mas inteligente, e com um claro sentimento de auto-suficiência. Propôs um padrão estético que se adaptou como uma luva ao biótipo dos artistas com os quais estava trabalhando, ou seja, pernas longas, quadris estreitos, ombros largos, estatura elevada, elegância atlética, biótipo no qual sempre coube o bailarino negro (1), que vestem com refinada beleza os trajes sumários para os quais criou, e para o público que pretendia formar e atingir. O corpo dos bailarinos de Balanchine segue

"dançando a sua própria dança",

diante dos nossos olhos, formando plásticas figuras geométricas, belas, quase assexuadas, que sugerem um ideal de pureza e também um rigoroso sentido de trabalho de equipe, marca de sua companhia.

Projetou todas as bailarinas de destaque que produziu até o limite de suas carreiras sem, contudo, se afastar da idéia de companhia como uma coletividade, numa demonstração de quão envolvente e carismática foi sua personalidade, capaz de equilibrar e minimizar algo tão complicado quanto a vaidade e o narcisismo de bailarinos.

Ao conseguir equilibrar esses dois elementos, confiar na competência dos artistas que formou e reconhecer-lhes o brilho pessoal, tornou-se quase uma figura sagrada no meio do ballet, responsável pelo lançamento de inúmeros primeiros-bailarinos e coreógrafos, personalidade cuja contemporaneidade é admitida por todos os segmentos da dança.

A dança que costumamos chamar de contemporânea já está contida, sem sombra de dúvida, na obra de Balanchine desde suas primeiras criações. Sua obra coreográfica, que ao contrário de inúmeros outros coreógrafos, inclusive Lifar, resiste ao tempo de forma surpreendente, é tão vasta que só citaremos aqui, além dos ballets já mencionados, o que tenhamos tido a oportunidade de assistir ao vivo, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, por companhias estrangeiras ou pelo nosso próprio Corpo de Baile, ou através de vídeos: "Serenade", "Concerto Barroco", "Ballet Imperial", "The four temperaments", "Orpheus", "Theme and variations", "Western simphony","O Quebra-Nozes", "Agon", "Stars and stripes", "Sonho de uma noite de verão", "Vienna Waltzes", "Ballo della Regina", "Dança Cigana, "Walpurgis Night", "Jewels", "Sylvia pas-de-deux", "Mozartiana", "Symphony in C", "Ballet Imperial" "Firebird", "La Valse", "Bugaku", Symphony in Tree Movements".

Os grandes clássicos do repertório acadêmico, em geral, ficaram de fora do repertório de sua companhia, excetuando-se o segundo ato de "O Lago dos Cisnes", "Coppélia" e alguns ballets dinamarqueses de Bournonville (2), em que pese o amor e respeito que sempre demonstrou ter por Petipa.

A quantidade de artistas que trabalharam com Balanchine e sofreram sua influência é enorme. Dentre eles podemos citar: Antony Tudor, William Dollar (3), Agnes de Mille, Alvin Ailey, John Neumeier, Robert Joffrey, Harold Lang, Arthur Mitchell, Richard Tanner, William Forsithe, Twyla Tharp e até os modernos Alwin Nikolais, Eliot Feld e Merce Cunningham, além, é claro, de Jerome Robbins (Jerome Rabinovitz), expressão máxima da criação neoclássica norte-americana, igualmente de origem russo-judaica. Dos bailarinos que vale mencionar: Maria Tallchief, Karin von Aroldingen, Diana Adams, Patricia Wilde, Patricia MacBride, Melissa Hayden, Maria Calegari, Suzanne Farrel, Tanaquil Le Clerq, Heather Watts, Meryl Ashley, Darcy Kistler, Gelsey Kirkland; novos nomes já se apresentam, entre os quais os de Wendy Wheelan, Miranda Weese, Jock Soto, Margaret Tracey e Albert Evans. Segundo alguns críticos, da metade da sua vida em diante, não só ampliou sua linguagem coreográfica como começou a se inspirar com mais cuidado na figura masculina que havia sido motivo de inspiração no início de sua carreira; Nicholas Magallanes, Edward Villela, André Eglevski, Jacques D'Amboise, Helgi Thomasson, Ib Andersen e, principalmente, Peter Martins, hoje diretor do "New York City Ballet", são apenas alguns exemplos.

A passagem de Barishnikov pela companhia significou interpretações, tão ricas quanto definitivas, para obras como "O Filho Pródigo", "Night Shadow", "O Soldado e a Bailarina", "Tchaikovsky pas-de-deux", "Tarantela" e inúmeras outras.

Sobre o despojamento das produções, discute-se se essa concepção foi provocada pela necessidade econômica de sua primeira década nos Estados Unidos ou se foi uma opção mesmo; tendemos a acreditar na segunda hipótese já que, ainda quando pôde e teve em seus espetáculos produções mais requintadas ou mesmo luxuosas, manteve a impressão de que eles não perderiam em vigor e conteúdo, mesmo despojados dos demais elementos, exceto a música e a iluminação. Leve-se em conta também, que Balanchine foi um gênio não só da criação, mas também da compreensão do povo para o qual criava, estabelecendo uma proposta de ser um coreógrafo para uma companhia e não uma companhia para um coreógrafo, como estamos tão acostumados a assistir aqui no Brasil.

Beatriz Costa, que havia pertencido ao inesquecível Conjunto Coreográfico Brasileiro primeira companhia brasileira a se apresentar no exterior, ainda na década de quarenta, sob a direção de Vaslav Veltchek (4), foi a única brasileira a integrar o elenco do "New York City Ballet" em 1950 e 1951. Seus registros sobre a companhia são considerados de grande importância histórica nos EUA.

George Balanchine foi o fundador e divulgador de uma verdadeira escola norte-americana de ballet para quem cabe a seguinte máxima:

"A linguagem de Balanchine é clássica; seu sotaque é norte-americano."

A obra de Mr. B. se projeta para o futuro, é dotada de tal modernidade que parece que o tempo, este terrível demolidor da arte do movimento, não exerce sobre ela qualquer efeito. Talvez o fato de ter-se afastado cedo da atuação como "performer", tenha lhe dado a possibilidade de observar e desenvolver com mais objetividade sua criação, tornando-a permanentemente atual.

Eduardo Sucena registrou em seu extraordinário livro "A Dança Teatral no Brasil" o seguinte comentário do "Jornal do Comércio" de 26 de junho de 1941, a propósito da primeira apresentação de Balanchine no Rio:

"Reflete-se nos bailados do American Ballet o espírito inovador da mentalidade norte-americana. Assistimos a uma espécie de revolução nos moldes da dança, que pareciam sagrados e inalteráveis."

A genialidade de Balanchine, um dos gigantes da arte contemporânea, não pode ser medida em valores; o patrimônio que deixou em termos de obras, o impulso que deu à dança nos EUA - e no mundo -, a capacidade de interpretar o sotaque e peculiaridades daquele povo e, sobretudo, sua influência sobre gerações e gerações de grandes criadores é um legado incontestável. Sua parceria com Stravinski revelou-se riquíssima, proporcionando verdadeira perplexidade pelo contraste e diversidade de estilos, formas e gêneros.

Minha primeira experiência num papel principal no Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi dançando "Paquita", pas-de-trois de Balanchine d'aprés (5)Petipa, ao lado dos primeiros-bailarinos Alice Colino e Eduardo Ramirez, primeiro-bailarino do Teatro S.O.D.R.E. de Montevidéu.

Para o Municipal do Rio foram montados, ainda, "Divertimentos nº 15" e "Serenade", uma de suas obras-primas, inacreditavelmente criada em 1934. Nós, bailarinos brasileiros, nos reunimos às festividades do mundo inteiro para celebrar esse russo genial, o grande tradutor do ballet dos Estados Unidos, uma das maiores personalidades da história da dança de todos os tempos. Finalizamos com definições do próprio Balanchine sobre a dança:

"Dança é a necessidade que temos de exprimir o que sentimos ao escutar música."
"Nos ballets de dança pura, não há libreto ou força interior, mas simplesmente a música. Sobre ela o coreógrafo trabalha exatamente como o poeta sobre a métrica."

Photo: Serenade' com o New York City Ballet



Fotos extraídas dos sites:
http://www.nycballet.com/about/rep_prodigal.html
http://balanchine.org/
National Library of Australia






ELIANA CAMINADA é Orientadora e consultora, escreveu vários livros sobre dança, e responde pelas disciplinas História da Dança e Técnica de Ballet Clássico no Centro Universitário da Cidade. Professora convidada no projeto "Sons Dançados do Brasil" do Centro de Artes Calouste Gulbenkian, colabora com o jornal "Dança, Arte & Ação" e participa, como palestrante, jurada ou pedagoga, de festivais e mostras de dança por todo o Brasil. Foi bailarina do "Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro", primeira-bailarina do "Balé Guairá" e solista do "Ballet da Ópera Estatal de Munique".




1. Arthur Mitchell, do New York City Ballet, foi, talvez, o primeiro 1º bailarino clássico negro da história da dança cênica. Para ele Balanchine criou Puck em "Sonho de uma noite de verão", além de dar-lhe a estréia de obras paradigmáticas como "Agon", entre outras. Mitchell foi o primeiro diretor da Companhia Brasileira de Ballet, de Paulo Ferraz, criador de "Rithmetron", com música de Marlos Nobre, com cuja capacidade tivemos o privilégio de conviver e é o fundador e diretor do "Dance Theater of Harlem", primeira companhia negra de ballet clássico.

2. Auguste Bournonville (1805-1879), bailarino, coreógrafo e maître-de-ballet dinamarquês, cujo método de ensino, desenvolvido a partir de seu pai Antoine Bournonville, é adotado até hoje pelo Royal Danish Ballet, com algumas atualizações que não o desfiguram. Suas criações, consideradas perfeitas, são cuidadosamente preservadas pela companhia, duas das quais foram montadas para o Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro: "Konservatoriet" e o 3º ato de "Napoli".

3. William Dollar (1907-1986) foi outro coreógrafo que nós, bailarinos do Theatro Municipal do Rio, assim como os do "Ballet do Rio de Janeiro", tivemos o bênção de trabalhar. Criador inspirado, ser humano requintadamente educado, deixou, entre outras obras de inquestionável valor, "O Combate", obra inspirada no episódio bíblico de Jerusalém Libertada.

4.Vaslav Veltchek (1896-1967) tcheco naturalizado brasileiro, foi o fundador da Escola Municipal de Bailados de São Paulo, diretor do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio e fundador do Conjunto Coreográfico Brasileiro, primeiro projeto social do Brasil. Ensinando dança e música às crianças órfãs da União das Operárias de Jesus despertou a profunda admiração de brasileiros como Monteiro Lobato, Camargo Guarnieri, Paschoal Carlos Magno, entre inúmeros outros.

5. D'aprés (segundo, de acordo com), tradicional expressão usada pelo ballet para se referir ao criador original de alguma obra revista, remontada, reconstituída ou recriada.



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