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     DANÇA

MR. B - CEM ANOS DO NASCIMENTO DE UM GÊNIO

Photo: Martha Swope/TimePix,George Balanchine ensaiando Violette Verdy


"... Balanchine foi um gênio não só da criação, mas também da compreensão do povo para o qual criava, estabelecendo uma proposta de ser um coreógrafo para uma companhia e não uma companhia para um coreógrafo, como estamos tão acostumados a assistir aqui no Brasil... A dança que costumamos chamar de contemporânea já está contida, sem sombra de dúvida, na obra de Balanchine desde suas primeiras criações."

Eliana Caminada


Balanchine: 1ª parte

Photo: Paul Kolnik, 'Quatro temperamentos' com o New York City Ballet

Georgi Melitonovitch Balanchivadze (1904-1983) nasceu em 1904 e graduou-se em dança e música na Academia Imperial de São Petersburgo em 1921, ingressando a seguir na companhia principal.

Suas primeiras coreografias foram criadas para as récitas noturnas do Ballet Jovem, destacando-se "O boi no telhado" de Darius Milhaud, datada de 1920, quando ainda não havia se formado. Pressionado e até censurado pela direção do Teatro Mariinski, em virtude de suas concepções consideradas demasiadamente revolucionárias, deixou a Rússia e imigrou para a Europa à frente de seu pequeno grupo. Do elenco constava a jovem bailarina Alexandra Danilova, que seria sua assistente por toda a vida.

1924:
O talento - muito precoce - de Balanchine não passou desapercebido ao olhar atento e perspicaz de Diaghilev (1) ; logo recebia um convite para integrar os Ballets Russes onde, em apenas um ano, já exercia as funções de maître-de-ballet e coreógrafo.

1925: Apesar do sucesso de "Les Biches", principal montagem dos "Ballets Russes" do ano anterior, o outro ballet de Bronislava Nijinska(2) - "La tentacion de la bergère" - não deixara registros. Foi a chance de Balanchine que criou então seu primeiro trabalho para a companhia: a nova versão de "O canto do rouxinol" de Stravinski. Utilizando a cenografia de Henri Matisse, já usada por Leonid Massine(3) para a mesma obra, fez estrear a bailarina inglesa Alicia Markova, que se tornaria figura de proa do ballet inglês a partir da década de trinta. Na obra, era possível reconhecer influências de music-hall e a possibilidade de admitir o ballet também como um entretenimento. As idéias de Kasian Goleizowski, famoso maître e coreógrafo natural de Moscou (1892-1970), adepto da incorporação ao ballet clássico de elementos de acrobacia e de esportes, também se fizeram sentir, assim como se observaram evidências das concepções de Fiodor Lopokov (1886-1973), bailarino, professor e coreógrafo natural de São Petersburgo. "Barabau", com música de Rieti, cenários e figurinos de Maurice Utrillo, sobre um tema proposto por Diaguilev, baseado no texto de uma poesia infantil italiana, é desse mesmo ano.

Nessa fase da companhia, Massine e Balanchine se rivalizavam expondo seus estilos: Massine trabalhando sobre a vivacidade e achados cômicos de seus tipos demi-caráter(4) , embora tivesse abandonado suas primeiras formas saltitantes e felizes; Balanchine caminhando no sentido de uma arte mais acadêmica, mais apoiada na tradição - embora nada tivesse de conservadora - e de cuja linguagem ele se revelaria, ao longo da história, como o seu mais importante renovador.

1926:
Balanchine concebeu três trabalhos bem distintos:
"O triunfo de Netuno", música de Lord Berners, cenografia de A. Schervashidze, onde elementos de shows teatrais ingleses eram sugeridos através de estampas populares que assinalavam a ironia e o burlesco, sendo aclamado com entusiasmo;

"Jack in the box", música de Eric Satie e cenários e figurinos de André Derain, criado para explorar as qualidades acrobáticas do veterano bailarino Stanisla Idzikovski, polonês discípulo de Cecchetti(5) , principal divulgador de seu método de ensino. O ballet apresentava um tipo de humor negro interpretado por um trio de bailarinas que brincavam com um polichinelo de borracha. A atmosfera fantástica acontecia em meio a nuvens de cartolina responsáveis pela transmissão do efeito desejado;

"Romeu e Julieta", trabalho realizado juntamente com Nijinska, sobre música de Constant Lambert, tinha, na cenografia, dois telões - um de Max Ernst e outro de Joán Miró - os quais provocaram tumulto por parte dos adeptos do movimento surrealista na França, em desacordo com a colaboração daqueles artistas com o "capitalista" Diaguilev. O escândalo garantiu o indispensável sucesso de bilheteria e os artistas principais, Tamara Karsavina e Serge Lifar(6) , asseguraram a qualidade da execução;
"Pastorale" não deixou registros.

1927:
Balanchine coreografou "La chatte", musica de Henry Sauguet, cenórios e figurinos de Naum Gabo e Antoine Pevsner, produção marcada pelo uso de material transparente e sintético, que refletia a luz com uma exuberância até então pouco explorada.

1928:
Massine deixou a companhia pela segunda vez, enquanto Balanchine colocava em cena, dois meses após uma primeira tentativa do coreógrafo e bailarino Adolph Bolm, "Apollon musagètte", uma de suas obras mais importantes, absolutamente viva, até hoje, no repertório de diversas companhias e dos mais diferentes intérpretes. Utilizando de forma clara e "acabada" o que se denominou de estilo neoclássico, segundo alguns já entrevisto, ainda que sem um processo de continuidade, através da genialidade de Nijinski(7) em sua primeira criação - "L'aprés midi d'un faune" -, criou uma obra que se constituiu numa referência histórica, obra-paradigma, através da qual se pode dividir o ballet do século XX em antes e depois dela.

Usando a imortal partitura de Igor Stravinski, de inquestionável papel para a perenidade da obra, "Apollon musagète" tem merecido análises recorrentes de analistas e estudiosos. Voltados para um passado onde cabia um racionalismo intelectual e um mundo superior, compositor e coreógrafo conseguiram harmonizar o academismo tradicional de Petipa(8) ao rigor geométrico dos novos tempos, arrancando de Stravinski a afirmação:

"Que todos os elementos dionisíacos sejam dominados e finalmente submetidos à lei e à ordem de Apolo".

Essa era a resposta do compositor à sua própria obra de caráter dionisíaco, "Sacre du printemps", encenada com coreografia original de Nijinski em 1913. No mesmo ano Balanchine montou "Os deuses mendigos", ballet pastoral com música de Georges Haendel, roteiro de Boris Kochno, passado num ambiente da França do século XVIII, com cenários de Léon Bakst, aproveitado de uma das cenas de "Daphne et Chloé", e figurinos de Juan Gris (1887-1927), igualmente uma reutilização dos figurinos criados para "Les tentations de la bergère". Embora criado em pouquíssimo tempo, constituiu-se num êxito, graças ao estilo acadêmico e abstrato do coreógrafo e à excelência dos bailarinos principais.

1929:
Balanchine encenou "Le bal", música de Vittorio Rieti, libreto de Kochno e cenários e figurinos de Giorgio De Chirico, uma criação fantástica, simbólica e interessante por seu conteúdo psicológico, que ficou, no entanto, eclipsada pela importância da outra obra apresentada dias depois: "O Filho Pródigo".

"O Filho Pródigo", com música de Sergei Prokofiev e cenários e figurinos de Georges Roualt, inspirado em texto do Antigo Testamento, foi classificado como uma experiência de caráter expressionista, carregado de símbolos do fabulário russo, praticamente única na obra de Balanchine.

Trata-se, também, como "Apollon", de uma das raras vezes em que Balanchine usou a figura masculina como fonte de inspiração, já que sua obra foi predominantemente criada para as mulheres, sendo sua a afirmação de que até o vocábulo "dança" era feminino.

1929:
A inesperada morte de Diaghilev e o fim dos Ballets Russes alcançaram Balanchine no início da ascensão de sua carreira como coreógrafo. Ele, mais um russo no meio de um "mar" de grandes artistas russos(9) como Fokine(10) , Nijinski, Nijinska, Massine e Lifar, poderia ter permanecido na Europa e o fez no período que vai de 1929 a 1933. Trabalhou durante esses anos para o "Theatre de Monte Carlo", para os "Ballets de René Blum" e para o "Royal Danish Ballet", companhia que o impressionou vivamente pelo estilo e, com cuja técnica e bailarinos manteve uma ligação que perdurou por toda a vida.

1933:
Este ano encontrou-o à frente do "Ballet 1933" montando uma obra de grande importância com música de Kurt Weill (1900-1950) e libreto de Bertold Brecht: "Os sete pecados capitais". Pouco depois recusaria temporariamente, por motivo de doença, o convite para dirigir a Ópera de Paris, sendo então substituído por Serge Lifar que acabou por ser, em caráter definitivo, nomeado para o cargo. As circunstâncias, portanto, contribuíram para que Balanchine atendesse ao chamado de Lincoln Kirstein e Edward Warburg e seguisse para os Estados Unidos, onde construiu uma obra perene, atemporal, claramente representativa do povo norte-americano e ao mesmo tempo universal.

Nos EUA, a primeira providência de Balanchine foi fundar a "School of American Ballet" e construir, a partir daquele núcleo, a base para a formação dos bailarinos adequados a sua concepção de dança acadêmica. Com eles trabalharia para sempre, entre eles encontrou todos os seus principais assistentes, a partir deles teve a certeza da imortalidade de sua obra.

1934 e 1948:
Nesse período Balanchine organizou várias companhias: "American Ballet", "American Ballet Caravan", "Ballet Russe de Monte Carlo" em seu relançamento na América do Norte e "Ballet Society". O sucesso da última iniciativa rendeu-lhe o apoio financeiro do "City Center" para fundar, em 1948, a companhia que é o retrato do seu criador e dos Estados Unidos: "New York City Ballet", onde pôde desenvolver, levando às últimas conseqüências, o seu estilo neoclássico.

Através da obra de Balanchine pode-se definir, em linhas gerais, o neoclassicismo na dança, considerando determinados itens que prevalecem, embora não sejam empregados todos ao mesmo tempo na mesma obra e observando-se a tendência, em várias criações consideradas neoclássicas, para concepções que fogem daquele estilo. Seriam elas:

:: criação baseada no virtuosismo da técnica acadêmica;
:: geometria no tratamento do conjunto reportando-se às concepções de Balthazar de Beaujoyeux(11) e às renascentistas, com seus ideais clássicos e gregos;
:: temas e concepção estética, inúmeras vezes, de inspiração renascentista, compreendendo uma dose de atleticismo da alma e do corpo e uma certa impessoalidade na apresentação;
:: revalorização na dança do conjunto e da qualidade do corpo de baile com a conseqüente negação do star-system;
:: produções espartanas e despojadas e, em caso contrário, estas parecem não ser indispensáveis à obra; foco, acentuação e intenção sempre na plasticidade do corpo humano;
:: padrão musical básico de excelência; utilização da abstração predominando sobre os ballets com enredo.


continua...




Eliana Caminada é Orientadora e consultora, escreveu vários livros sobre dança, e responde pelas disciplinas História da Dança e Técnica de Ballet Clássico no Centro Universitário da Cidade. Professora convidada no projeto "Sons Dançados do Brasil" do Centro de Artes Calouste Gulbenkian, colabora com o jornal "Dança, Arte & Ação" e participa, como palestrante, jurada ou pedagoga, de festivais e mostras de dança por todo o Brasil. Foi bailarina do "Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro", primeira-bailarina do "Balé Guairá" e solista do "Ballet da Ópera Estatal de Munique".




1. Sergei Pavlovitch Diaghilev (1872-1929), empresário, mecenas, diretor, sem jamais ter sido artista deu o que, talvez, considere-se a maior contribuição ao mundo da arte do século XX. Seus "Ballets Russes" constituíram-se numa verdadeira epopéia.

2. Bronislava Nijinska (1891-1972), irmã do célebre Vaslav Nijinski, foi bailarina, maîtresse-de-ballet e coreógrafa dos "Ballets Russes de Diaghilev". Retornara à Rússia por ocasião da 1ª Guerra Mundial e tornou-se famosa ao voltar à companhia em 1921. Deixou obras de grande importância, mas nenhuma superou "Les Noces", de 1923, com música de Stravinski, onde, pela primeira vez, um tema balético foi colocado em cena a partir da perspectiva feminina.

3. Leonid Massine (1895-1979), nasceu em Moscou em 1895. Formado pela Escola de Dança e de Arte Dramática de Moscou, saiu do Teatro Bolshoi para integrar os "Ballets Russes" de Sergei Diaghilev, onde atuou com bailarino e coreógrafo.
Dentre as obras que o transformaram, reconhecidamente, em um dos gênios do século XX vale destacar "Parade", de 1919, criação histórica, de extraordinária modernidade, sinalizadora dos movimentos fauvista, dadaísta e cubista nas artes plásticas. Com uma ficha técnica impressionante, o ballet teve roteiro de Jean Cocteau, música de Eric Satie e cenários de figurinos de Pablo Picasso.

4. Classificação hoje aplicada apenas ao perfil do personagem, não mais servindo de parâmetro para os próprios bailarinos. Originalmente, referia-se a um bailarino de biótipo não longilíneo, de estatura baixa, de quem se exigia alto grau de virtuosismo técnico e grande capacidade interpretativa; seria o oposto do chamado danseur noble que, grosso modo, era o galã do espetáculo.

5. Enrico Cecchetti (1850-1928), bailarino e maître-de-ballet italiano, fez parte de sua carreira na Rússia legando-lhes ensinamentos de extraordinária importância. É considerado um dos maiores pedagogos da história da dança.

6. Serge Lifar (1905-1986), bailarino, maître-de-ballet e coreógrafo, foi o último grande nome dos "Ballets Russes de Diaghilev". Em 1933 assumiu a direção do ballet da Ópera de Paris, companhia na qual permaneceu por quase trinta anos, com um intervalo em 1934, quando veio dirigir a temporada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Para nós montou, entre outros ballets, "Jurupari", com música de Villa-Lobos. Foi o fundador do Conservatório e da Universidade de Dança de Paris.

7. Vaslav Nijinski (1890-1950), bailarino e coreógrafo russo que se tornou a figura mais mítica da história da dança. Genial, sensível, ousado, jamais se adaptou a um mundo que considerava aético, violento e hipócrita. Sua criação "A Sagração da Primavera", com música de Stravinski, recebeu a mais violenta hostilidade jamais manifestada pelo público a uma obra. Hoje Nijinski é considerado profeticamente contemporâneo. Acometido de distúrbio mental, terminou seus dias internado num hospício.

8. Marius Petipa (1818-1910) conferiu ao ballet acadêmico sua forma cênica definitiva merecendo de Stravinski a afirmação de que, "na sua verdadeira essência, na austeridade de suas formas, constitui-se no triunfo da ordem sobre o arbítrio". Foi o criador dos paradigmáticos "A Bela Adormecida" e "O Lago dos Cisnes", entre inúmeros outros ballets eternos.

9. Todos os coreógrafos célebres dos Balles Russses de Diaghilev", sem exceção, foram montados para o Theatro Municipal do Rio e compõem o seu acervo. lo.

10. Mikahil Fokine (1880-1942), criador do mais célebre solo da história da dança: "A Morte do Cisne", publicou, em 1914, os cinco princípios que revolucionaram, definitivamente, a dança cênica.

11. Balthazar de Beaujoyeux - Baldassarino da Belgiojoso - (1500-1587), era natural de Florença. Maestro de danças, violinista e compositor, chegou a Paris em 1555. Seu célebre "Ballet Comique de la Reine", talvez pela beleza, ostentação e importância política, é considerado o primeiro ballet da história, embora se saiba que tais espetáculos começaram a ser encenados em meados do século XV na Itália renascentista, chegando à França bem mais tarde por intermédio de Catarina de Medicis ao se casar com Henrique II.



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