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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

Verifique o mesmo

Por
Roseli Pereira*

Já estava atrasada para a reunião com o cliente, e aqueles dezessete minutinhos que a recepcionista gasta para copiar lentamente tudo o que vem escrito no RG e depois fotografar a minha expressão meio aflita, meio descabelada estavam me levando à loucura. Mas, enfim, recebi o crachá e saí em disparada na direção do elevador.

Êta mania inútil essa de sair em disparada na direção do elevador. Será que em todos esses anos eu ainda não aprendi que elevador é bicho voluntarioso, que só chega e só parte quando está com vontade?

Mas, enfim, foi assim que aconteceu. E foi esperando a vontade do bicho que fiquei ali parada, com cara de elevador. E que reparei, pela primeira vez, naquela plaquinha intrigante que hoje em dia vejo em tudo o que é lugar: "Senhores Passageiros, antes de entrar no elevador verifiquem se o mesmo encontra-se parado neste andar".

Pensei, considerei, questionei, tentei interpretar. Mas confesso que não consegui, até hoje, encontrar o sentido da frase. E isso por duas razões bastante simples.

Primeira: se eu verificar que o mesmo não se encontra parado, poderia ele estar se movimentando pelo andar?

Segunda: se o elevador não estiver parado ali, bem na minha frente, como é que eu vou conseguir entrar nele? Ou melhor, como é que eu vou conseguir entrar "no mesmo"?

Tudo bem, pode acontecer alguma pane que abra a porta indevidamente. Posso até atravessar indevidamente a porta que se abriu por causa da pane. Mas daí a entrar no elevador tem uma distância enorme. A distância da profundidade de um fosso, talvez.

E se eu estiver lá em cima, e se "o mesmo" estiver mais lá em cima ainda, é certo que nunca mais eu vou conseguir entrar em elevador. Nem "no mesmo" e nem em outro qualquer. O que tem seu lado bom, já que pelo menos me desobrigaria para sempre de ler a tal da plaquinha. Aquela, que se estivesse escrita em bom português - ou, no mínimo, em português claro - não me distrairia com ataques de riso ou de mau humor, dependendo do meu estado de espírito na ocasião.

Mas é preciso considerar que existem outros perigos: se é desse jeito que as pessoas entendem as placas, o que aconteceria se as placas estivessem escritas como se deve? Já pensou?

"Senhor Passageiro: quando a porta se abrir, certifique-se de que o elevador está parado lá dentro." Aí os passageiros verificam, se entreolham, murmuram e concordam entre si: sim, ele está. E então a porta fecha e o bicho vai embora sem que ninguém se arrisque a entrar, já que a plaquinha não traz ordem nenhumma nesse sentido. Será que é possível?

Poderíamos, ainda, tentar um "Senhores Passageiros: não dêem um passo no vazio, a não ser por conta própria e auto-risco". Que tal? Se não deu pra entender, pelo menos ficou mais criativo.

E existe, ainda, outro ponto crucial na questão: será que as pessoas são capazes de entender que estamos falando do elevador, se não usarmos a expressão "o mesmo"? Ou será que a frase foi construída assim para que ninguém o confunda com a escada?

Não tenho a menor idéia. Mas, seja lá como for, duvido e faço pouco que uma pessoa distraída a ponto de não ver um elevador inteiro seja capaz de perceber a existência de uma simples placa, ainda que ela tivesse sido escrita pelo Érico Veríssimo em pessoa. É por essas e por outras que, sempre que dou de cara com uma delas, acabo pensando muito em Jorge Amado.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.