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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

Corpo Estranho

Por
Roseli Pereira*

Quando tomei um tombo feio e levei o meu joelho ao ortopedista, fiquei sabendo que não tinha mais rótula. Não, não foi resultado do tombo. É que quando o médico colocou a radiografia naquele quadro de luz, apontou umas falhinhas e pensou em alto e bom som: parece que a patela está quebrada.

"Peralá! Esse treco redondo aí não é a rótula?" O médico sorriu, decidido a me sacanear: "Não, é a patela."

Tudo bem, eu nunca fui aplicada em ciências e não entendo patavinas de ossos. Mas daí a uma mulher da minha idade nunca ter ouvido falar na própria patela vai uma grande distância. Pra mim, aquilo ali era a rótula, mesmo.

"Mas doutor, não é isso aí que impede a perna de virar pra frente?" E diante do seu balançar afirmativo de cabeça, ainda com o olhar absorto na radiografia, tive certeza absoluta: o rapaz estava distraído, coitado. E aquilo, definitivamente, só podia ser a minha rótula. Mas não era.

Por sorte, a tal da patela (ou o que quer que seja) não estava quebrada. Mas juro que fiquei imaginando se ela não teria um selinho trazendo a inscrição "Made in Paraguay". Afinal, em algum momento da minha vida (provavelmente na calada da noite, enquanto eu estava em sono profundo) a minha rótula legítima foi trocada por uma patela. Quem garante que não é falsificada, se ela tem até cara de quebrada, sem estar?

Mas foi o joelho sarar para eu esquecer de me sentir tão prejudicada. Até porque, seja por causa da minha velha e boa rótula ou daquela desconhecida, o joelho está funcionando bem e isso é o que importa.

Foi então que, numa das sessões de massagem (quem fica muitas horas por dia diante do computador sabe muito bem o porque), eu reclamei de uma dorzinha incômoda perto da omoplata. Minha massagista, bem mais nova que eu, respondeu com um sonoro "onde?". E eu repeti. E ela retrucou: "Omoplata? Mas o que é isso?"

"O que é isso, como? Você não sabe o que é uma simples e objetiva omoplata?" E completei com ajuda da mão: "É isso aqui, ó". Mas a massagista teimou: "Isso aí é a sua escápula."

"Que escápula, minha filha? Eu nunca tive tal coisa em toda a minha vida". "Sempre teve, sim senhora. E duas: uma aqui e a outra aqui", completou ela, colocando as mãos sobre as minhas omoplatas. E para provar o que estava dizendo, a massagista me mostrou um dos seus livros. Tão novinho quanto ela. E, de fato, estava registrado e assinado: escápulas. Nem sequer uma mençãozinha honrosa àquelas valorosas omoplatas que tão bem serviram a toda a humanidade. Pelo menos enquanto não foram sumariamente riscadas do esqueleto, em algum momento obscuro entre as minhas aulas de anatomia e o lançamento do livro da moça. Confesso que fiquei bem irritada: mais uma vez haviam trocado os meus ossos sem me consultar.

"Tá bom, você venceu. Então aproveita pra dar uma alongada no meu ciático." E ela, que desta vez sabia muito bem do que é que eu estava falando, corrigiu: "Você quer dizer isquiático, né?"

Pronto. Fui sacaneada outra vez. E, desta vez, mexeram literalmente com o meu sistema nervoso.

Mas a última foi a do ginecologista, que depois de muito bate-boca conseguiu que convencer de que trocaram as minhas trompas de Falópio por modestas tubas uterinas.

Oras bolas. Se as funções são as mesmas, por que não me deixaram em paz com os ossos, nervos e tripas que eu já tinha quando nasci? E que direito tudo isso pode ter sobre o meu corpo, se sequer fomos oficialmente apresentados? E, sobretudo, quando foi (e com ordem expressa de quem) que todas essas coisas estranhas vieram parar aqui, dentro de mim?




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.