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     ROSELI PEREIRA

Nó na língua

Por Roseli Pereira*

Não tenho nada contra o emprego de anglicismos, galicismos ou de quaisquer outros "ismos", a não ser radicalismos. Tanto que uso o mouse todo dia, acendo o abajur toda noite, deleto idéias ruins a toda hora e, ultimamente, dei pra restartar ao invés de cochilar.

Também entendo perfeitamente que alguns desses "ismos" foram adaptados, que outros mativeram a forma original e que uma parte deles até chegou a ser traduzida. E continuo não tendo qualquer problema com isso. Veja o caso dos coquetéis. Além de adorar coquetéis, acho que eles estão muitíssimo bem resolvidos, embora ainda exista quem os chame de cocktails. Tudo bem. Afinal, acho que encarar um bom cocktail é muitíssimo melhor do que vestir o pretinho básico só pra tomar rabo de galo.

Tá certo que vejo um certo exagero nas pessoas que ainda reinicializam micros e programas, quando poderiam simplesmente reiniciar. O que, cá entre nós, surtiria o mesmíssimo efeito e seria bem mais rápido.

Só que têm outros tipos de exagero que não me entram na cabeça de jeito nenhum. Como o delivery, por exemplo. É importante deixar muito claro que eu gosto demais do serviço. Mas sempre que ouço ou leio a tal palavra, fico com aquela impressão esquisita de que só adotaram esse nome, aqui, por causa de uma preguiça danada de procurar, na gramática, como é que se faz direito a entrega. Ou por achar que "entrega em domicílio" é pernóstico. O que, por sinal, vai diretamente de encontro ao motivo daqueles que adotaram o delivery só pra sofisticar.

E aí eu fico pensando: se toda essa mistura lingüística é só pra vender um serviço, será que não seria muito mais rentável se o maior número de consumidores prováveis pudesse entender, no ato, qual é esse serviço? Ou será que todas as pessoas que gostam de entregas já aprenderam a falar inglês? Ou será que o dinheiro de quem ainda não fala inglês não interessa? Duvideodó.

Tá vendo como é que começa um grande mal entendido? Porque, na verdade, eu aposto que isso tudo aconteceu por acaso, sem que nenhuma dessas hipóteses fosse sequer considerada. E que o delivery entrou na história inocentemente, por conta de um modismo infeliz. Tão infeliz que nem fala dessa coisa simpática que é entregar as compras na sua casa.

Quer outra palavrinha que entrou no embalo de gaiata? Sale. Ou "sêil", para os iniciados. Sale é aquela palavra que apareceu nas vitrines quando a liquidação saiu de moda. É aquilo que tampa a entrada das lojas com papel de embrulho e bota todos os preços em off. E que, com isso, faz muita gente não entrar na tal da loja, por imaginar que esse off é o mesmo off dos aparelhos de som e que, portanto, só pode estar indicando que a loja está entre 20% e 50% desligada. Pois é.

E o mais engraçado disso tudo é que quando os negócios não vão bem, ninguém questiona se esse tipo de frescura está dando um nó na cabeça do consumidor. Afinal, é muito mais fácil e rápido botar a culpa inteira na crise ou inventar uma recessão pro mercado. Believe-me or not.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.