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     ROSELI PEREIRA

Você quer ser baleia ou sereia, neste verão?

Por Roseli Pereira*

Pessoalmente não vi ainda, e nem sei se as palavras são bem estas. O fato é que ultimamente tenho recebido uma enxurrada de e-mails acerca de certa campanha publicitária que ousa fazer tal pergunta ao mulherio.

Eu também não li o briefing, não conheço o anunciante e nem sei qual é o público que ele deseja atingir. Mas digo e repito, em alto e bom som, que se o objetivo do tal produto ou serviço for deixar as mulheres mais bonitas para ir à praia, a idéia é brilhante. Coisa que quem escreve ou repassa tais e-mails está bem longe de achar.

Recebi odes completas às baleias e críticas horríveis às sereias. Li que as baleias são mães maravilhosas, enquanto as sereias nem útero têm. Li que as baleias são lindas e amigáveis, e que as sereias são seres que encantam os homens para depois acabar com eles. Li que as baleias são reais e as sereias são reles personagens mitológicos. Também li uma profusão de metáforas confusas, mas no final das contas não encontrei uma linha sequer em defesa das sereias. Será que é porque elas não existem de verdade, ou será porque as mulheres só conseguem se comparar a baleias?

Cá entre nós, eu acho que é muita pretensão alguém conseguir se enxergar como baleia ou como sereia. Afinal, o privilégio de poder desfilar um corpinho ou um corpanzil comparável a uma ou a outra é coisa limitada a meia dúzia ou até menos. Além do mais, fazendo uma análise fria, imparcial e equilibrada pode-se concluir que, na escala de proporção entre baleias e sereias, 99,9% das mulheres está muito mais para sereia. Golfinho até poderia ser, muito de vez em quando. Baleia nunca. A não ser, talvez, imóvel numa cama de spa. O que, aliás, não combina em nada com o estilo ágil de uma legítima baleia.

Mas digamos que, ainda assim, alguém insista. Bem, se estiver se vendo como sereia, ótimo. Deve ser maravilhoso não ter órgãos sexuais e deixar os homens aterrorizados com a possibilidade de serem arrastados e afogados nas profundezas. E se estiver se vendo como baleia, péssimo. Quem suportaria ter vida sexual, dar à luz filhotes fofos, ser meiga e afável, ter muitos amigos e etcétera e tal?

Como diz um sábio amigo, não importa se é baleia ou sereia: caiu na rede é peixe. Quer indício melhor de que as mulheres seriam muito mais felizes caso se concentrassem em ser apenas um peixão? Pois é.

E aí eu fico me perguntando: por que tanta ira contra a tal campanha publicitária, se o produto ou serviço que ela vende só quer o bem do corpo, seja ele do tamanho que for?

De qualquer maneira, dadas as proporções da ira, eu espero sinceramente que o tiro (ou melhor, a verba) não tenha saido pela culatra. Pra ser bem sincera, eu tenho a nítida impressão de que ela vai beneficiar todo mundo que trabalha nesse ramo.

Já quanto às mulheres que perdem o humor quando pensam no formato do próprio corpo, mas ficam revoltadas quando alguém se dispõe a mudá-lo, bem, eu acho que estou mesmo ficando louca.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.