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     ROSELI PEREIRA

Aperte o botão, retire o seu ticket e boas compras.

Por Roseli Pereira*

Aquela voz enjoada nunca se altera, ainda que você esteja com pressa ou que a fila de entrada esteja dando voltas no quarteirão. Só resta, então, aumentar o som do rádio, retirar o cartãozinho o mais rápido possível e passar pela cancela antes do fim da saudação.

A partir daí, você terá 20 minutos de estacionamento grátis. Tempo mais do que suficiente para encontrar uma vaga, disputá-la a tapa com outro motorista, alcançar o acesso para as lojas sem ser atropelado, esperar pelo elevador ou percorrer quilômetros de escadas rolantes, voar pelos corredores e passar, triunfante e suado, pela porta da loja que você foi visitar.

Em dias de muita sorte talvez você tenha, ainda, tempo para cumprimentar o vendedor. Depois disso a pressa acaba, porque o seu carro conquista o direito de passar as próximas 3 ou 4 horas parado no mesmíssimo lugar, pela módica quantia de 3 ou 4 reais. Mas não se preocupe: se você precisar dele dentro de meia hora ou menos, o preço continua o mesmo.

Tá, eu me lembro muito bem dos espertinhos do tempo do estacionamento grátis. Aqueles, que insistiam em deixar o carro no shopping enquanto trabalhavam em período integral nas empresas da região. Concordo que alguma coisa precisava mesmo ser feita para que as vagas ficassem à disposição dos clientes. E acho que a solução mais lógica seria estabelecer faixas de despesa, em um ou mais estabelecimentos, que abonassem períodos de tempo de estacionamento. Algo assim como "gaste X e ganhe 1 hora de estacionamento, gaste Y e ganhe 2 horas de estacionamento, gaste W e ganhe 3 horas de estacionamento. Vá ao cinema e tenha 2 horas de estacionamento grátis". Complicado? Só se os caixas não souberem ler e somar os valores das notas fiscais. Acho incrível que eles não tenham pensado nisso antes. De qualquer modo, não é exatamente este o assunto que me traz aqui.

Hoje, anos e anos depois da implantação (e da fácil aceitação) do estacionamento pago nos shoppings, não há mais nada que se possa discutir, a não ser sobre a evolução (ou involução) do tratamento que vem sendo dispensado a nós, dóceis clientes e causa única de tantos produtos, serviços e empregos reunidos.

O fato é que outro dia, por coincidência, acidente ou descuido, eu permaneci dentro de um desses grandes shoppings quase até o término do expediente. Quando me dei conta de que as lojas iriam fechar, fui direto para o caixa de estacionamento do andar em que deixara o automóvel. Dei de cara com um funcionário emburrado e cheio de pressa, juntando suas coisas. Fiz menção de pagar. Ele fez cara de horror, disse rispidamente que estava fechando e me mandou de volta para o térreo. Bem feito pra mim. Quem mandou ficar gastando dinheiro e ajudando a garantir o emprego de tanta gente, até aquela hora?

Obviamente, no único caixa aberto do térreo havia uma fila pra lá de imensa. Pior: ninguém parecia ter notado o ridículo da situação. Pior ainda: todos pareciam concordar com ela. Afinal, o mundo inteiro deveria estar cansado de saber que pontualmente às 22 horas o shopping fecha e as pessoas vão embora. Inclusive os caixas de estacionamento. Menos aquele anjinho lerdo ali na frente, que teria ficado apenas para nos fazer um grande favor.

Bem, minha avó sempre dizia que a gente pode estar certa quando acha que uma pessoa está errada, pode estar certa quando acha que duas pessoas estão erradas, pode estar certa quando acha que três pessoas estão erradas. Mas nunca está certa quando acha que todo mundo está errado.

Por isso, ao olhar bem para o tamanho daquela fila cordata, coloquei o rabo no meio das pernas, esperei durante uns 20 minutos arcando com todo o peso das minhas compras, paguei os 4 reais que me cabiam, voltei para o andar em que estava o automóvel, apertei o botão rapidinho e passei pela cancela ouvindo um monocórdico "volte sempre".

Só agora que estou aqui, conversando com uma pessoa justa e equilibrada como você, eu me arrisco a perguntar: estarei ficando louca?




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.