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     ROSELI PEREIRA

A coisa tá feia

Por Roseli Pereira*

Já não bastavam as pixações, as faixas, as placas, os cartazes de muro, a fiação exposta, as caçambas de entulho, os sacos de lixo e tantos outros quetais: agora, a mulherada também deu de colaborar fortemente para com a poluição visual da cidade. Não, não estou falando de todas: só daquelas que fazem questão de estar em dia com a moda.

Gente, eu nunca vi tanta barriga de fora na vida, como neste último ano. Barrigas fartas e redondas, barrigas pontudinhas, barrigas espalhadas, barrigas empinadas ou caídas, barrigas com um risco peludo subindo para o umbigo, barrigas brancas, bronzeadas ou manchadas, barrigas flácidas, lisas ou cheias de dobrinhas. Uma infinidade de barrigas em tal diversidade de modelos que eu nem julgava existir. Todas solenemente expostas, balançando ou não, naqueles vinte e poucos centímetros de espaço descoberto que fica entre o cós da calça e a cintura.

E o que é pior: em todos esses meses de observação pelas ruas, ônibus, shoppings e escritórios, juro que não encontrei mais do que meia dúzia de mocinhas que fizessem jus ao tal modelo. E digo mocinhas porque, em sua maioria, elas não tinham mais do que 14 anos de idade.

Não que eu tenha alguma coisa contra os diferentes formatos de corpo ou de barriga. Muito pelo contrário, já que eu mesma sou portadora de uma protuberância abdominal que (não) merece (qualquer) destaque. Acho que tanto as formas longilíneas quanto as arredondadas merecem respeito, de preferência com o uso de roupas que acomodem confortável e dignamente qualquer excesso ou falta de massa adiposa que possa existir ao redor dos quadris, acima ou abaixo deles. E aí eu te pergunto: será que alguém é capaz de classificar como confortável um modelo de calça que achata os quadris a ponto de engrossar a cintura e inventar barriga até mesmo nos corpos mais sequinhos? Duvideodó. E será que alguém acha que é muito bonito sair por aí desfilando a pelanca? Oras bolas, se fosse assim a maior parte das usuárias não ficaria puxando a mini-blusa pra baixo o tempo todo, numa tentativa vã de demonstrar arrependimento ou disfarçar a ousadia. É ou não é?

Será que está faltando tecido na praça? Será que o comprimento do zíper foi reduzido pela metade? Ou será que foi alguma espécie exótica de surto? Juro que eu não sei. Só sei que, pelo menos até onde a minha vista alcança, colocar a barriga de fora em ambiente urbano é uma decisão que se toma por conta própria e auto-risco, e que o fato de isso estar na moda não é desculpa para o exercício da poluição visual. Eu multaria uma por uma, sem dó nem piedade.

Se um dia desses você acordar com uma vontade irresistível de sair pela rua com a barriga de fora, resista. Resista bravamente até a vontade passar. E lembre-se: qualquer esforço que se faça neste sentido é muito mais civilizado do que comprometer a imagem diante dos olhares críticos e das más línguas, incluindo a minha.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.