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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

Filosofando em português

Por
Roseli Pereira*

Um monte de gente discute a língua escrita e a língua falada. A linguagem culta e a coloquial, as diferenças e as semelhanças, o que vale pra uma mas não vale pra outra, o que vale sempre e o que não vale de jeito nenhum. Mas, pelo menos até onde o meu ouvido alcança, pouca, pouquíssima gente discute em público a "língua pensada", ou seja: o simples hábito de "pensar a língua" ao invés de só decorar as regras e ir falando sem pensar.

Não que eu seja contra as regras. Longe de mim. Mas será que se as pessoas aprendessem a "pensar a língua" não acertariam com muito mais facilidade?

Veja, como exemplo, o caso do pobre "de que". Quem não pensa antes de usar provavelmente usa errado. E quando fica sabendo que errou, simplesmente elimina o "de que". E passa a "ter certeza que", sem pensar que quem tem certeza sempre tem certeza "de" alguma coisa.

E tem caso parecido pra mais de metro. Ou melhor, pra mais de lauda. Como aquela história de "ir ao encontro" ou "ir de encontro". É só usar a língua pensada pra perceber que um é exatamente o contrário do outro. E decidir, só então, qual dos dois quer usar.

Mas a coisa não se limita à gramática, não. Na verdade, todos os dias surgem expressões as mais exóticas só porque alguém falou sem pensar. E um monte de gente as inclui no seu vocabulário só porque ouviu e, provavelmente, achou "de que" era bonito.

Geralmente essas expressões são frutos da rica imaginação de alguém que deseja transmitir um sentimento muito, mas muito intenso. E de tanto enfeitar, acaba furando um olho, como já dizia a minha avó. Não apenas por dar vários sentidos às palavras, mas também por contribuir com o crescimento do curioso estilo rococó verbal, que é um jeito barroco-moderno de falar, e que pode inspirar irritação ou gargalhadas em quem pensa a língua e está ali só pra ouvir (a opção, como sempre, depende do seu estado de espírito no dia).

Um dos exemplos clássicos é o tal do "beijo no coração", que eu já malhei o suficiente na crônica que tem o mesmo nome. Mas, vira e mexe, ouço outros. Às vezes novos, às vezes tirados de algum baú, como aquele que encontrei outro dia, em pleno horário nobre.

Naquele domingo (essas coisas sempre me acontecem aos domingos), eu achava que já tinha zapeado por todas as excentricidades disponíveis em canal aberto quando, de repente, meus tímpanos foram atingidos em cheio por alguém que elogiava alguém num programa popular. Não vou revelar a fonte, que isso é coisa muito feia. Mas, no auge da babação de ovo, apareceu um entusiasmado "… e o que eu mais admiro em você é que, apesar de todo o seu sucesso, você continua sendo uma mulher humana."

Enquanto pessoa humana, eu fiquei emocionada diante de uma das bobagens-símbolo do papo-cabeça (a outra era alguma coisa como "consciente e pleno do seu próprio ser", lembra?). Mas logo caí na gargalhada só de imaginar humanos de muito sucesso virando klingons, betazóides, romulanos, ferenguis, talarianos ou seres de qualquer outra espécie humanóide que apareça em Jornada nas Estrelas. Têm tipos pra combinar com todos os tipos.

Mas os barrocos-modernos precisavam, mesmo, passar pelo menos uma temporadazinha como vulcanos. Assim, eles iriam ficar tão lógicos e tão racionais, que nunca mais falariam nenhuma esquisitice sem pensar. Pelo menos um pouquinho.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.