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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

Moda homem

Por
Roseli Pereira*

Alguém, por acaso, tem notícia de que a moda tenha sugerido alguma vez - e ainda que de leve - que "o estilo" agora exige homens altos ou magros ou gordos ou musculosos ou peludos ou depilados ou seja lá o que for? Aposto que não. E olha que eu nem vou usar um "não" desses simplezinhos. Vou logo de nananinanão.

Aliás, perceba que no departamento masculino ela não fez grande coisa nos últimos dois ou três séculos. E que, antes disso, mal havia moda masculina: o que mais havia eram conveniências e circunstâncias sócio-econômico-filosófico-culturais. Estou errada?

Então vamos pensar juntos: nas grandes cidades, o chapéu caiu em desuso por conta própria, sem precisar da intervenção da moda. Mas nem por isso os homens se sujeitam a passar frio. Você já notou que nunca faltaram capuzes, gorros, boinas e bonés de todos os tipos e formatos, e que, quando o inverno aperta, eles compram qualquer um, colocam na cabeça e pronto? Agora procure você um chapéu feminino que possa ser usado no dia a dia. Vão te olhar como se lhe faltassem parafusos e dizer que está fora de moda. E note que isso pode acontecer até com chapéu de festa, dependendo da tendência da estação.

Também tem a história do fraque, que os homens bem que tentaram aposentar, mas que acabou reservado para as ocasiões muito, mas muito especiais. E adivinha se nessa reserva tem dedinho de mulher! Sim, porque hoje em dia um homem só se digna a vestir um fraque se for sob forte pressão ou ameaça de greve de sexo. Independentemente da opinião da moda. É ou não é?

Então, o que foi que sobrou de serviço para a moda homem? Encompridar calças e encurtar casacas? Alargar e estreitar golas? Inventar a gravata e trocar os suspensórios por cintos? Grande coisa. Lembre-se do que aconteceu nesse mesmo período com a moda feminina, e depois disso pode me corrigir. Porque, pelo menos até onde a minha vista alcança, a única alteração séria que tem sido feita nas coleções masculinas, ano após ano, estão nos botões e nos lugares dos botões. Num dia o paletó tem quatro botões alinhados. Noutro dia os botões viram seis e são divididos em duas colunas. Num dia cada punho tem dois botões, noutro dia tem três ou fica só com um. Num dia tem botão no colarinho ou nos bolsos das calças, noutro dia não tem mais. Ainda assim, homem nenhum sai pra comprar roupa só por causa dos botões.

Você está achando que a moda não liga para os homens, é? Pois lá vai outro nananinanão. Acontece apenas que ela não é nem doida de ficar insistindo. Até uns quarenta anos atrás, eram eles que pagavam quase cem por cento das despesas com moda. Hoje, otimísticamente imaginando que pagam só a parte deles, isso pode ser calculado em cinqüenta por cento da população. Você iria se indispor com um mercado deste tamanho? Na-na-ni-na-não, nada mais óbvio.

E então você me pergunta: mas se o raciocínio é assim mesmo, como é que essa tal de moda vem aprontando desde sempre com os outros cinqüenta por cento? Elementar, meu caro Watson.

Embora uma coisa dessas nem se precise explicar, porque das inseguranças femininas e das fraquezas masculinas o mundo já sabe o bastante, concorda?

E não é que os homens não sejam vaidosos. Ah, isso eles são, e como são! O fato é que homens sempre colocam o próprio conforto como limite, não dão a menor bola para a torcida e ponto final. E a gente ainda diz que é igualzinha a eles. Rararirará. Do jeito que a coisa vai, nós vamos ficar iguaizinhas, sim. Iguaizinhas entre nós. .




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.