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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

Tô pagando pra ver

Por
Roseli Pereira*

Não que eu desconfie de estar desenvolvendo algum tipo de dependência com relação ao controle remoto da televisão, mas outro dia - por razões que prefiro não revelar aqui - apostei comigo mesma que conseguiria passar pelo menos uma hora sem encostar um dedo nele. Escolhi um programa interessante num canal interessante, olhei para o relógio e começou a tortura.

Não, definitivamente não era uma tortura movida pela síndrome de abstinência. Acontece que, depois de anos e anos de pura distração, finalmente eu percebi que estou pagando para assistir comerciais.

Bem, é preciso dizer que na minha profissão é muito natural pagar para ver filmes e anúncios premiados do mundo inteiro, em mostras e festivais. Tudo bem, para assistir a esse tipo de comercial eu até pago com prazer, mas o fato é que não estou falando dele. Estou falando é daquela enxurrada de calhaus que inunda a minha, a sua, as nossas tvs por assinatura.

Calhau, como você não sabe e nem tem a menor obrigação de saber, é o apelido técnico que se dá àqueles espaços que os veículos de comunicação reservam para os comerciais, mas que acabam não sendo vendidos. Então, para que não fiquem vazios, o veículo providencia alguma coisa para preenchê-los: podem ser campanhas de cunho social, anúncios negociados a custo baixíssimo, permuta com fornecedores, uma infinidade de coisas, dentre as quais geralmente predominam as mensagens do próprio veículo. Ninguém está livre disso e vira e mexe aparece calhau em tudo quanto é lugar. Só que a gente nem percebe, a não ser em caso de enxurrada. E enxurrada de calhaus parece ser a especialidade de inúmeros canais por assinatura, pelo que pude pesquisar depois daquela fatídica aposta.

Gente, o que é aquilo? Tá certo que intervalos maiores do que as partes do programa já são fato geral e consumado até na tv aberta, mas daí a alimentar esses intervalos sempre com a mesma fita de chamadas prolixas e tediosas para a própria programação existe uma grande, uma enorme, uma incomensurável distância. Disso, só posso concluir que eles se adoram ou nos odeiam.

Caso se adorem, deveriam pelo menos considerar a possibilidade de encurtar aqueles breaks, ainda que para isso seja preciso repetir vinte vezes mais a mesma programação para ocupar decentemente as 24 horas do dia. Com isso, ao invés de se sentir enganado, o público teria mais opções de horário para assistir à programação. Só que, sabe-se lá o por quê, eles preferem espantar o telespectador só de mostrar os intervalos. Será que é porque eles nos odeiam?

Se for este o caso, eu te pergunto: por que diabos, então, continuam no ar? E eu mesma te respondo que só vejo duas possibilidades: ou porque gostam de pagar para trabalhar, ou porque a venda de sinais para transmissão fechada é mais lucrativa do que procurar anunciantes. Ou será que eu estou redondamente enganada?

Outra desfaçatez de primeira (ou de última) categoria é aquela história de certos canais fechados passarem as manhãs (ou pelo menos boa parte delas) tentando nos enfiar güela abaixo colchões de ar de enchimento instantâneo, aparelhos de ginástica, ceras automotivas, cabides, sapateiras, rolinhos catadores de pêlos e bugingangas afins, em comerciais importados horrorosos e compridos que se repetem, se repetem, se repetem à exaustão. Será que alguém acredita que irá nos vencer pelo cansaço?

Eu sei que as operadoras de tv a cabo ou satélite têm uma bela defesa, dizendo que nos cobram apenas pelo serviço de transmitir os sinais. Mas sei também que quando escolho um pacote ele já vem prontinho, e não existe forma de evitar os canais espertos ou incompetentes, a não ser desviando deles na hora de assistir televisão. OK, eu posso até desviar, mas os taizinhos continuam lá, ocupando espaço no meu dial e devidamente pagos.

Acho que as operadoras bem que poderiam fazer uma pressãozinha para enquadrar ou dispensar esse povo, mas, enquanto uma quantidade expressiva de assinantes não demonstrar de alguma forma sua indignação, elas vão continuar acreditando piamente que a gente adora calhau. Já sobre essa quantidade expressiva, bem, isso eu também pago pra ver. Com o controle remoto na mão, diga-se de passagem.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.