:: institucional           :: projetos           :: serviços           :: sala de imprensa          :: parcerias          :: loja          :: contato     

CANAIS WOOZ

artigos
agenda cultural
artes visuais
cultura
cinema
dança
entrevistas
fotografia
internet
literatura
música
teatro
terceiro setor


Roseli Pereira
Valmir Junior



clique aqui e faça um cadastro para receber informações Wooz
     ROSELI PEREIRA
Fato verídico
Por Roseli Pereira*

Essa me aconteceu há anos e nunca mais me saiu da cabeça.

Naquele dia, como sempre, aproveitei a hora do almoço pra fazer umas comprinhas (sempre aproveito a hora do almoço pra fazer qualquer outra coisa além de comer. Aí, lá pelas duas horas, quando já estou roxinha de fome, acabo devorando qualquer coisa gostosa em dobro, o que me faz lutar contra a preguiça até umas cinco da tarde, que é a hora do lanche. Mas é claro que, como - quase - todo mundo, eu também tenho a minha gaveta dos pecados no escritório - e nem vem com essa história de que não sabe o que é isso, porque eu aposto que você também tem a sua, e que ela está sempre muito bem abastecida com todos os tipos de biscoito doce e salgado, torrones, chocolates e jujubas. Às vezes fazemos permuta de pecados, só pra variar. Outras vezes produzimos verdadeiras surubas gastronômicas vespertinas, que é quando todo mundo tira todos os pecados das gavetas e os coloca em cima da mesa, pra cada um se servir do que quiser. Aliás, será que existe momento de maior intimidade entre os colegas de trabalho do que quando eles partilham seus pecados? Nesses momentos, todas as intempéries desaparecem pra que a gente possa comungar dos sabores mais deliciosos e das misturas mais originais. Como MM com sopa de mandioquinha - sim, sopa de mandioquinha! Dessas que vêm em saquinhos e que a gente prepara na caneca, rosquinhas de nata com chá de manga - não, leite com manga não faz mal, não senhor, balinhas de limão com trufas e outras que, ocasionalmente, nos custam uma certa indigestão. Mas nada que um happy hour não possa curar fácil, fácil. E por falar em happy hour, por que será que o evento tem este nome, se sempre dura muito mais do que uma hour? Boa pergunta, porque eu duvideodó que exista, no mundo, algum povo tão disciplinado que consiga ficar só uma hourzinha no boteco e depois ir correndo pra casa, preparar ou aquecer o jantar. Além do que, happy hour que deixa a gente com a sensação de buraco no estômago não é happy nem aqui e nem na China. Pra ser happy, happy mesmo, tem que ter aquela tranqueirada toda de petisco e/ou culminar numa bela refeição. Isso é que é felicidade: além de se divertir, a gente mata a fome sem ter que ir pro fogão. O que, aliás, na hora do almoço se resolve muitíssimo bem, pelo menos pra quem não tem tempo de voltar pra casa só pra comer. Mas a hora do almoço não tem diversão, porque é sempre tão corrida…).

Mas, do que é que eu estava falando? (Roseli pensa, pensa, pensa e finalmente confessa: depois de anos e anos de ininterrupta gozação, estou ficando igualzinha a minha mãe. E não sei por que, mas estou com a sensação de que já falei isso antes.)




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.