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     ROSELI PEREIRA

Bridget Jones e outros livros de auto-ajuda
Por Roseli Pereira*

Eu juro que não consigo entender porque é que tanta gente tem tanta coisa contra os best sellers em geral. Particularmente, só tenho um comentário a fazer: antes de entrar para a categoria dos best sellers, um livro precisa conquistar muito mais público leitor do que aqueles que atinjem apenas a marca dos "the best".

É claro que isso está bem longe de ser garantia de qualidade e que, sem dúvida, o mundo seria muito melhor se as preferências literárias pairassem acima do bem, do mal e dessa baboseira toda. Acontece que o mundo é mau, que a leitura para todos os gostos é um fato e que, pricipalmente, não é nem um pouco saudável menosprezar a inteligência dos outros, em especial quando esses outros estão em maioria.

Mas esta não é a questão. O ponto que desejo abordar baseia-se no fato de que, estranhamente, as pessoas que mais criticam os best sellers são justamente aquelas que nunca os lêem. Ou nunca confessam que os lêem, já que isso pode ser feito na mais completa surdina.

Oras, até onde a minha vista alcança, muito pouca gente tem o hábito de criticar filmes sem assistí-los, de onde se deduz que a maior parte das pessoas não considera perda de tempo ir ao cinema. Antes de criticar um jornal ou um cronista, é considerado de bom tom acompanhar o seu trabalho por algum tempo. Portanto, ninguém tem vergonha de ler jornais e revistas. Todo mundo concorda, ainda, que para detestar uma música é preciso tê-la ouvido, primeiro. Até mesmo aqueles programas que fazem jorrar sangue da televisão vira e mexe são assistidos, embora isso só seja possível quando se está de passagem pela porta do quarto da empregada. Por que, então, o preconceito com os livros?

Bem, como alugar filmes não é nenhum pecado intelectual, desde que o conteúdo não inclua catástrofes envolvendo grandes tubarões assassinos ou transatlânticos gigantescos que se partem no meio do oceano, tempos atrás assisti "O Diário de Bridget Jones": uma comédia romântica bem engraçadinha, em que Colin Firth interpreta um Mark Darcy de tirar o fôlego. Tá certo que algumas vulgaridades desnecessárias da personagem principal chegaram a me incomodar. Mas como eu havia lido em algum lugar do passado que ela "é o ícone da mulher inglesa solteira de fim de século", decidi ficar quieta. Afinal, quem sou eu para discutir sobre ícones e mulheres solteiras com o império britânico em pessoa?

Só que, num dia desses, ao passear por uma livraria dei de cara com a Bridget Jones no Limite da Razão. Não resisti e levei-a para casa com Helen Fielding e tudo. Quer saber as minhas impressões? Bem, eu sobrevivi, não é verdade?

Agora falando sério: o livro é muitíssimo bem escrito e o estilo é tão realístico, mas tão realístico, que eu precisei ler bem umas 250 páginas até ter certeza absoluta de ele não retrata ícone de coisíssima nenhuma. Ao contrário: Helen Fielding faz uma maravilhosa sátira da alienação em geral e da dependência dos livros de auto-ajuda, em particular. Assuntos bem pertinentes "na" e "para a" sociedade em que vivemos, diga-se de passagem.

Precisei passar horas com raiva daquela personagem maluca; precisei chamá-la de burra inúmeras vezes; precisei ter vontade de arrancar as páginas do livro, uma a uma, e as ir soltando pela janela de algum ônibus em movimento até descobrir, afinal, que aquelas 444 páginas da vida de Bridget Jones acabam exercendo sua função educativa quando, quase que subliminarmente, fazem com que o leitor perceba o quanto é imbecil tentar enquadrar todos os comportamentos e emoções na mesma meia dúzia de regras e, o que é mais importante, o quanto pode ser perigoso viver em situação de vácuo absoluto de cultura geral e de interesse em obtê-la. Outro tema, aliás, muitíssimo pertinente diante das condições psíquico-culturais do momento. Isso é ou não é uma espécie bem louvável de auto-ajuda?

Infelizmente pude comprovar, desta vez por escrito, que a Bridget Jones sofre mesmo de uma ligeira vulgaridade que me parece ser crônica e totalmente desnecessária. Mas como a Helen Fielding tem todo o direito de criar os seus filhos do jeito que bem entender, não vou pronunciar uma só palavra a este respeito.

Mas, quer saber de uma coisa? Se eu fosse uma mulher inglesa solteira de fim de século ficaria muito, mas muito brava mesmo com aquela história do ícone. A não ser, é claro, que todas as mulheres inglesas solteiras de fim de século sejam medíocres e alienadas o bastante para nem notar a alfinetada. Ou, talvez, que nenhuma delas tenha lido a crítica. Ou ainda, que a tenham lido naquele estado de graça que só é alcançado depois da ingestão de diversas unidades alcóolicas.

De qualquer forma, se você quer ter a experiência de ficar com raiva e dar risada, tudo ao mesmo tempo, leia sem medo da opinião alheia e sem a menor vergonha na cara de ser feliz. Eu me diverti bastante, pelo menos depois que descobri que era tudo de mentirinha. É provável que você se divirta ainda mais, porque já vai começar sabendo.

Mas a melhor parte de todas é que, assim como eu, você vai poder fazer os seus comentários com profundo conhecimento de causa. Melhor que isso, impossível.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.