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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

Criança sofre

Por
Roseli Pereira*

Estou seriamente desconfiada de uma coisa: de que gente grande sempre passa por um gravíssimo processo de amnésia. Uma espécie de amnésia progressiva e profunda, que nos faz esquecer detalhes muito importantes na medida em que vamos crescendo. De como eram chatos os programas de gente grande, por exemplo.

Quem é que pode se divertir numa festa, quando só tem altura pra ver os outros convidados até a cintura? Isso sem falar em outras maluquices: "Olha a tia Dora! Dá um beijinho nela, dá!". E, quando a gente se recusava porque nunca tinha visto a tal da tia na vida, nem com menos pancake na cara, tinha início uma luta. E no meio dessa luta, sempre aparecia uma senhora muito enfeitada e muito perfumada que dizia: "Ela está estranhando o ambiente, coitadinha… criança é assim mesmo! Deixa ela sossegada um pouquinho, que já já ela vai estar cheia de beijinhos pra dar, não é minha princesa?". Grumpf.

E aí alguém se aproximava e dizia pro seu pai: "Esta é a sua mais velha?" (ou do meio, ou caçula ou assim por diante) E, fazendo bilú-bilú com os dedos bem pertinho do seu rosto, completava: "Nossa! Como você cresceu!" (ou está bonita, ou ficou a cara da vovó ou assim por diante). Grumpf, grumpf.

Não é à toa que, quando a gente encontrava alguém do nosso tamanho, não conseguia pensar em outra coisa a não ser se juntar pra fugir. Mas era só sair correndo pra todo mundo olhar feio. Aí o parente que estivesse mais perto nos encostava na parede e perguntava se a gente tinha deixado a educação em casa. Depois dessa, só restava mesmo atacar os docinhos. E quando eles caíam no chão, assim sem querer, a gente ainda podia pisar para afundá-los no tapete. Quer dizer, poder não podia, porque quando algum adulto olhava para o chão, a gente levava a maior bronca.

Mas talvez a pior bronca fosse a do supermercado. Primeiro nos arrastavam para um lugar enorme, cheinho de coisas legais e gostosas, e depois ficavam bravos se a gente saísse de perto ou começasse a escolher as nossas próprias compras. Aí a gente teimava, aí a voz deles se alterava, aí a gente ameaçava gritar ou se jogar no chão e aí levava um sopapo. Situação humilhante pra quem, há poucos minutos, estava brincando no quintal sem nem sequer pensar em fazer compras.

E quando a gente já estava com uns 3 ou 4 anos e algum adulto nos dava a mão e nos levava pra passear? Era uma delícia! A não ser, é claro, que o adulto em questão não tivesse a menor idéia de que, embora a gente já andasse muito bem, ainda tinha braços e pernas muito mais curtos que os dele. Então ele passeava e a gente ia correndo atrás. E se cansava depois de uma quadra. E o adulto lá, tentando nos convencer de que passear é legal. E a gente lá, empacada, dizendo que não é, não. E o impasse durava até a gente começar a chorar, que era quando o adulto finalmente nos pegava no colo e voltava. E nos devolvia pra mamãe suando e arfando, porque criança de 3 ou 4 anos já é bem pesadinha. E ainda era a gente que levava fama de enjoada!

Não sei bem por que acordei pensando nisso, hoje. Talvez seja porque não cresci o bastante, ou talvez porque o meu processo de amnésia progressiva e profunda esteja falhando. De qualquer forma, as lembranças vieram em boa hora. Na verdade, bem a tempo de eu me redimir da irritação que senti ontem, num saguão de exposição de arte antiga.

O que eu ví, ontem, foram crianças birrentas que insistiam em fugir dos pais para correr no saguão. E pais que corriam atrás de crianças. Aí as crianças teimavam. Aí a voz dos pais se alterava. Aí as crianças ameaçavam gritar ou se jogar no chão. Aí os pais ameaçavam dar um sopapo. Tudo isso num espaço fechado e muito cheio de gente, em que só havia iluminação sobre as antigüidades expostas.

O que vejo hoje, depois que a memória da infância voltou, é que embora os adultos estivessem cheios de boas intenções e querendo dar bons exemplos, não conseguiam se lembrar do mais importante de tudo: de como é que as pessoas, por mais inteligentes e educadas que sejam, vêem e sentem o mundo quando ainda são crianças.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.