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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

Marcas para o futuro

Por
Roseli Pereira*

Como você bem sabe, velhas construções são verdadeiros documentos de suas épocas e podem retratar, com bastante fidelidade, muitos dos hábitos e costumes de seus antigos usuários. Foi por intermédio delas que se descobriu, por exemplo, que até bem depois da Idade Média ninguém fazia cocô ou xixi sossegadamente, dada a inexistência de instalações privadas para tal fim. Pode conferir. Você não vai encontrar nada parecido, nem mesmo nos mais importantes e luxuosos palácios. A famosa "casinha", que até hoje é possível encontrar em alguns fundos de quintal, só foi inventada muito mais tarde, provavelmente quando alguém criativo se cansou de tropeçar no penico.

Outro dia, prestando um pouco mais de atenção a essas plantas de apartamentos que saem aos quilos em anúncios de jornal, eu me dei conta de quantas informações interessantes a nossa geração deixará gravadas para a posteridade, especialmente nos empreendimentos de alto padrão - aqueles que, pelo menos em tese, têm mais chances de durar até lá.

Por intermédio deles será possível descobrir, por exemplo, que as nossas classes privilegiadas são obrigadas a enfrentar fila para fazer suas necessidades fisiológicas, e que as fazem olhando para a calçada, através de um vidro blindado e espelhado. O quê? Você não sabia? Pois abra um jornal de domingo e informe-se melhor: os edifícios de alto padrão dispõem de um único WC, que sempre fica na portaria, dentro da guarita.

Em compensação, no futuro saberão o quanto nós e nossas visitas somos limpinhos e que, salvo raras exceções, cultivamos o hábito de tomar banho em grupo. Só isso poderia justificar o fato de cada apartamento contar com diversos cômodos denominados "banho", além de um "banho privativo" que, pelo nome, deve ter sido criado para uso solitário, em caso de rara exceção.

Outra coisa que os nossos descendentes descobrirão, dentro de alguns séculos, é que as nossas famílias são constituídas por dois gatos pingados, mas que damos muitas festas e os nossos convidados sempre ficam para dormir. Para chegar a esta conclusão, eles só terão que comparar o tamanho das family rooms - que, por ter pouco espaço e muitas portas, geralmente não comportam mais do que duas pessoas tentando assistir televisão - com o tamanho do living e a quantidade de dormitórios. Simples assim.

Mas, ao deparar com as verdadeiras academias e parques aquáticos de que dispomos em nossos edifícios, eles invejarão nossa incansável disposição para a atividade física. Sim, porque ninguém seria capaz de supor que pessoas equilibradas e inteligentes exijam e paguem por instalações que não têm a menor intenção de usar.

E, finalmente, diante das proporções das dependências de serviço, farão incansáveis estudos para tentar descobrir se os nossos empregados domésticos são de uma raça especial, caracterizada pela diminuta estatura, ou se são obrigados a dormir em pé. Mas, sobre isso, eles jamais conseguirão chegar a uma conclusão lógica.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.